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Cruzeiro: Em entrevista, Nelinho lamenta crise e corrupção no futebol

"Sinceramente, eu não tenho mais esperança. Já aconteceram tantas coisas gravíssimas e que morreram com o tempo, caíram no esquecimento... Então, eu não acredito que as coisas vão mudar".

É nesse tom melancólico que Manoel Rezende de Mattos Cabral, mais conhecido como Nelinho, fala sobre o Cruzeiro.

Um dos maiores laterais direitos da história, com quatro prêmios Bola de Prata, e campeão da Libertadores e de quatro Campeonatos Mineiros pela Raposa, Nelinho concedeu entrevista à ESPN na última quinta-feira e mostrou-se sorumbático com a crise nos bastidores da equipe que defendeu por quase uma década, somando duas passagens.

Em conversa em sua casa, nas cercanias de Belo Horizonte, o ex-jogador da seleção brasileira mostrou estar muito bem atualizado sobre as denúncias de corrupção não só no Cruzeiro, mas também em entidades como a Fifa e a Uefa, e lamentou as falcatruas no esporte.

"Hoje em dia, o cara entra lá no clube sem nada e sai cheio de posses!", bradou.

No bate-papo, Nelinho, que hoje administra uma academia esportiva ao lado de sua mulher, mostrou-se preocupado com um possível rebaixamento da Raposa, cobrou rigidez nas investigações conduzidas por Polícia Civil e Ministério Público e opinou sobre a péssima fase da equipe, que não vence há nove jogos, e sobre o técnico Mano Menezes.

Mas, apesar de toda a crise, o ex-lateral garantiu que, se ainda fosse jogador, toparia na hora um convite para vestir a camisa celeste.

"Eu viria correndo! Correndo! Num clube como o Cruzeiro, eu jogaria até de graça!".

LEIA A ENTREVISTA COM NELINHO

ESPN: Como está acompanhando as últimas notícias envolvendo o Cruzeiro?
Nelinho: Com tranquilidade. Acho que todos os clubes passam por momentos difíceis, dentro e fora do campo, e o Cruzeiro agora está passando por essa faz ruim dentro e fora de campo. Na verdade, mais fora do campo do que dentro. Dentro, evidentemente que o torcedor gostaria que o time estivesse rendendo mais, apesar de estar classificado na Libertadores e na Copa do Brasil. Os torcedores são muito exigentes, sempre querem um pouco mais. Então, vejo que o Cruzeiro, depois dessa parada da Copa América, tem uma oportunidade muito boa para voltar a jogar o que estava jogando desde o começo do ano, quando começou a Libertadores invicto e sem levar gols. É isso que o torcedor espera. O melhor de tudo isso é saber que o Cruzeiro tem capacidade para dar a volta por cima, pois tem muitos jogadores de qualidade. Quando você olha o elenco friamente, você vê uma qualidade técnica muito grande. Então, a gente acredita que é um momento difícil, mas eles têm a condição de dar a volta por cima e darão, pela qualidade que possuem.

ESPN: O Cruzeiro não vence há 9 jogos e está no Z4 do Brasileirão. Os problemas fora de campo estão influenciando no desempenho dos atletas?
Nelinho: Para mim, o que acontece fora do campo não interfere dentro de campo. Isso eu falo por mim, pela lembrança do meu tempo de jogador. Evidentemente que pode haver nesse momento um ou outro atleta com rendimento prejudicado pelo que está acontecendo nos bastidores. Mas eu não acredito nisso. Eu acredito que o jogador fica, sim, ciente dos problemas da direção do clube, mas ao mesmo tempo que eles assimilam bel essa situação. Dentro de campo, a preocupação deles é ganhar os jogos.

ESPN: O técnico Mano Menezes chegou a ficar na corda bamba antes da parada para a Copa América. Ele deveria ter saído ou o Cruzeiro acertou em mantê-lo?
Nelinho: Se alguém desconfia da condição de técnico do Mano Menezes de administrar isso, pior seria se chegasse outro treinador agora! Até pegar o jeito, entender os problemas e meandros do clube, aí teria muito mais dificuldades. Ele está há muito tempo no clube, mais do que ninguém, e é a pessoa indicada para conseguir fazer com que os jogadores voltem a render o que podem render e o que já renderam no passado.

ESPN: Qual foi seu sentimento ao ver a matéria da TV Globo e todas as reportagens que foram feitas depois dissecando tantas irregularidades nos bastidores do Cruzeiro?
Nelinho: Para mim foi muito difícil. Como ex-jogador e torcedor de Cruzeiro e Atlético-MG, clubes que foram muito bons para mim, foi complicado escutar essas coisas. A gente nunca quer ouvir esse tipo de assunto. Mas, infelizmente, uma coisa que está mais do que comprovada é que existe muita corrupção no nosso futebol. Não só no brasileiro, mas no mundo inteiro. O (Michel) Platini acabou de ser condenado lá fora, o (Joseph Blatter) ex-presidente da Fifa foi retirado do cargo, e por aí vai. Infelizmente, há muita corrupção dentro dos clubes e das Federações. Quanto ao que está acontecendo no Cruzeiro, foram feitos levantamentos que incriminam determinadas pessoas, mas que ainda não foram comprovados. Tem que ser comprovado, senão é irresponsável da minha parte falar nisso. Então, temos que aguardar as declarações da Justiça de que havia, ou não, envolvimento das pessoas.

ESPN: Chegou finalmente o momento de fazer um ‘limpa’ nos bastidores do Cruzeiro, e do futebol em geral?
Nelinho: Já tivemos muitos exemplos de dirigentes, de empresários, de tudo quando é tipo de gente que faz parte do meio futebolístico, envolvido em falcatruas, e nunca se aproveitou o tal ‘momento’. Deveria ser aproveitado agora, mas não será. Vai ficar por isso aí mesmo e (o caso) vai morrer. Mas que deveria ser feito alguma coisa, sim, deveria. Está mais do que comprovado que as coisas do futebol não funcionam como deveriam. Seria muito importante acabar com a corrupção no futebol. Porque o que se aproveita dos clubes é algo inimaginável. O que esses caras fazem quando chegam ao poder em determinados clubes de uma forma e saem de outra, muito diferente, para melhor, me entende?

ESPN: Então você perdeu a esperança nesse possível ‘limpa’?
Nelinho: Sinceramente, eu não tenho mais esperança, não. Não tenho... Honestamente. Já aconteceram tantas coisas gravíssimas e que morreram com o tempo, caíram no esquecimento... Então, eu não acredito que as coisas vão mudar.

ESPN: Havia corrupção de dirigentes nos seus tempos de jogador?
Nelinho: Antigamente, era mais difícil. Digo pelas experiências que tive. Como por exemplo o ex-presidente do Cruzeiro Felício Brandi e seu vice, que eram pessoas de boa vida financeira e que jamais se aproveitaram do clube para nada. Pelo contrário: saíram do clube em uma condição financeira menor do que entraram. Depois, peguei no Atlético o Elias Kalil, pai do Alexandre Kalil, que também tinha uma vida tranquila financeiramente e nunca se aproveitou de nada. Essas coisas antigamente funcionavam dessa maneira. De uns tempos para cá, é o contrário: o cara entra lá no clube sem nada e sai cheio de posses! E por que não fazem nada? Não sei... Tem que perguntar para as autoridades... O clube é entidade privada? É. Mas aí quem tem que agir são os conselheiros do clube, que podem tomar partido, levar essas questões à fundo. Enquanto os conselheiros não exigirem uma vida correta de seus diretores, as coisas vão seguir assim.

ESPN: A entrada do Ministério Público na investigação pode resolver de vez essa questão no Cruzeiro?
Nelinho: Eu gostaria muito de acreditar, e espero que um dia eu possa ver isso... Mas eu perdi as esperanças.

ESPN: Muitas pessoas com quem conversamos nos últimos dias dizem temer um possível rebaixamento do Cruzeiro. Elas têm razão em se preocupar?
Nelinho: Tem muito mais do que razão em se preocupar. A chance realmente existe. Tem que se preocupar mesmo, porque poderá acontecer. E, se acontecer, será o fim da picada. Porque os caras que possivelmente estão fazendo coisas erradas vão sair dessa e o que vai acontecer com eles? Acho que nada. Aí quem vai pagar pelos erros dos dirigentes é o clube. Por isso eu digo que os sócios, conselheiros e torcedores em gerar têm que se preocupar muito na hora de eleger seus diretores. Tem que fazer um pente-fino, se precaver mais. O futebol, quando era dirigido mais amadoristicamente, por pessoas que realmente gostavam do clube, cuja única preocupação era realmente o melhor do clube, talvez fosse melhor... Hoje, os caras entram no clube para se darem bem, para ganhar algum... É o que a gente tem visto aí...

ESPN: O Cruzeiro vai conseguir passar sem maiores danos por essa crise?
Nelinho: Por causa de seus jogadores e de seu treinador, acredito que sim. Eu tenho fé, porque já vi isso acontecer de forma parecida em outros grandes clubes, que viveram momentos difíceis e deram a volta por cima. E sabe por que eu acredito? Porque cair ou não cair não depende nada daqueles que dirigem o clube. O extracampo tem que ser resolvido pela Justiça comum e pela desportiva. Os jogadores escutam, entendem, óbvio que têm preocupação, mas felizmente não influencia em nada no rendimento dentro de campo. Se o pagamento estivesse atrasado, alguns jogadores talvez ficassem chateados, não iriam querer treinar ou jogar, mas não é o caso do Cruzeiro. O pagamento dos atletas está em dia, até onde sei. E, mesmo se estivesse atrasado... Eu já joguei com três meses (de salário) atrasados e a gente entrava em campo e esquecia. Na hora que o jogador entra em campo, ele quer ganhar. Depois que terminou, vai lá e cobra o dirigente. Alguns torcedores estão dizendo que o time não ganha há nove jogos porque os jogadores não estão nem aí para o clube, porque não estão recebendo em dia. Eu não acredito nisso em hipótese alguma. Para mim, quem entra em campo deixa sempre seu melhor.

ESPN: Se você ainda fosse jogador e recebesse uma proposta para vestir a camisa do Cruzeiro, você aceitaria, mesmo com todos os problemas extracampo?
Nelinho: Eu viria correndo! Correndo! Isso não tem nada a ver. Num clube como o Cruzeiro, eu jogaria até de graça! Não tem um jogador no Brasil que não queira jogar no Cruzeiro. E vou além: um jogador sul-americano, se conhecer a história do Cruzeiro, e duvido que ele fale: ‘Ah, não quero jogar no Cruzeiro, vou ficar por aqui, mesmo’. Ele vem correndo! É um time que, nossa Senhora, tem uma moral impressionante aqui dentro e fora também. Um clube muito bem estruturado. É uma pena o que está acontecendo, claro... Mas o clube continua com a mesma grandeza.