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Críticas, desconfiança e elogios: Veja como clubes da Série B se posicionam sobre a fusão entre Red Bull e Bragantino

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Red Bull 'matou' Austria Salzburg, e torcedores recriaram seu clube na última divisão (7:31)

Gustavo Hofman contou a história do clube austríaco em 2012 (7:31)

Na última semana, o Bragantino mudou a sua história - e, de quebra, também alterou a vida dos 19 clubes contra quem vai disputar a Série B do Campeonato Brasileiro em 2019.

O surgimento do RB Bragantino - ainda que o clube não vá usar o novo nome neste ano - estabelece informalmente um teto orçamentário de R$ 45 milhões para os times na disputa. Esse é o aporte que a empresa fará, inicialmente, no Campeão Paulista de 1990.

Apenas para efeito de comparação, o Bragantino iria trabalhar com R$ 13 milhões nesta temporada, antes de estabelecer a parceria com a Red Bull.

O ESPN.com.br tentou contato com os clubes que estarão na competição neste ano para entender, da parte deles, qual seria o impacto da novidade.

As opiniões variaram bastante. Alguns se mostraram indiferentes, outros elogiaram.

Houve quem achasse muito bom para o Bragantino, mas não para o próprio clube. E houve quem não comentasse, por achar o tema polêmico.

O simples fato de que alguns dirigentes tenham se mostrado cautelosos quanto a opinar o assunto evidencia que a questão é mesmo controversa.

Veja abaixo como os clubes trataram da questão.

BOM MAS AQUI, NÃO

Quanto maior a representatividade nacional dos clubes, mais avessos à ideia eles são, no que diz respeito a fazer algo semelhante "em casa".

Campeão Brasileiro de 1987 e da Copa do Brasil de 2008, o Sport não pensaria em algo a respeito, segundo pensa Lucas Drubscky, executivo de futebol do Leão.

"Vendo a paixão do torcedor do clube, por nossas conquistas, não consigo imaginar algo assim", diz. "Somos hoje a maior torcida no Nordeste e um dos grandes clubes do Brasil, com respeito a todos os demais".

No que diz respeito à força do rival, ele reconhece a melhora, mas sem receio.

"Vamos com a mesma sede e a mesma vontade, mas com um adversário mais difícil que o planejado", diz.

Palmeiron Mendes, presidente do Guarani, o campeão brasileiro de 1978, declarou ver com bons olhos qualquer busca criativa para melhora de orçamento e qualificação da Série B.

"Marquinho [Chedid, presidente do Bragantino] foi muito feliz e o Guarani é amplamente a favor de parcerias saudáveis", disse ele, que não vê nada que impeça a parceria de acontecer.

"Está dentro da lei", afirma. "Quanto mais saudáveis financeiramente os clubes, melhor", afirma.

Mas, indagado se o Bugre poderia embarcar em algo semelhante, o dirigente foi categórico:

"Posso garantir que essa possibilidade é totalmente inviável. O Guarani preza pelas suas raízes. Esse tipo de parceria, no Guarani não ocorrerá nunca", diz.

Eric Silveira, diretor de marketing da Ponte Preta, diz o mesmo - além de lembrar que o clube é uma associação com estatuto e conselheiros, e que algo semelhante teria de passar por diversas instância e até alterar o estatuto.

"Um patrocínio sim, mas fusão não", crava. "Somos um time tradicional, o mais antigo do Brasil. É impossível, até em função dos torcedores", diz.

Fora o Bragantino, a Ponte talvez seja o clube com mais proximidade do Red Bull, dado o aluguel do Moisés Lucarelli pela equipe para o mando de seus jogos nos últimos quatro anos. A Ponte fazia receita com o aluguel, e a mudança para Bragança encerra isso.

"Mas não é o fim do mundo", diz Silveira. "É uma baixa de receita bastante contornável", afirma.

No Botafogo de Ribeirão Preto, a ideia também é vista com normalidade e sem temor desportivo quanto a confrontar o "novo" rival.

"Adversário não se escolhe", diz Gerson Engracia, presidente do clube.

"Mas, da forma como o Bragantino fez, o Botafogo não faria", sentencia.

O Figueirense entende o investimento da Red Bull no Bragantino como um novo marco para o mercado nacional no caminho de profissionalização.

"Nesse sentido, o formato clube-empresa, como é o caso do Figueirense, avança como um caminho, ainda que embrionário, para alcançar o necessário desenvolvimento profissional do futebol mais vezes campeão do mundo. Mais um passo positivo está sendo dado e que venham os próximos".

"A retomada do pioneirismo só virá caso a grande maioria dos clubes, de todas as divisões, passe, efetivamente, a considerar a gestão responsável não como algo burocrático ou utópico, mas como uma alternativa fundamental para o restabelecimento de uma potência histórica".

'LEI' QUANTO A MUDANÇAS E ADVERSÁRIO MAIS FORTE

O Presidente do Atlético-GO, Adson Batista, é um dos que crê que uma regulamentação quanto a mudanças geográficas poderia ser estabelecida, para tratar de questões como a fusão.

"Para mim, é indiferente, apesar de eu achar que deveria haver algum critério no que diz respeito a clubes ficarem mudando de local ou de nome", diz ele. "Tinha que existir algum critério", diz.

Batista também faz uma alerta aos dirigentes do ex-Red Bull Brasil no que diz respeito à chegada do clube à Série B de modo tão rápido.

"De repente, a equipe que não tem nem divisão já está na B, que é difícil de chegar", diz. "Mas não é só dinheiro que faz equipe forte na Série B. Depende de conhecer muito a competição, da forma de trabalhar", diz.

"Mas vai valorizar também o campeonato, com esse poder de investimento, vai agregar muita coisa e ser competitivo", acredita.

Ironicamente, Mauro Guerra, diretor de futebol do Oeste, é também crítico da mudança geográfica de equipes - muito embora seu clube tenha deixado Itápolis para jogar em Barueri, na região da Grande São Paulo.

"Talvez devesse haver uma lei contra isso, não sei", declara Guerra. "No nosso caso, só saímos de Itápolis porque a prefeitura não quis reformar o estádio local para abrigar os jogos do clube.

"Foi muito traumático. Eu ainda moro aqui (em Itápolis) e viajo sempre para os jogos (nota: as cidades ficam 354 km distantes entre si). Nós sofremos muita pressão, mas não tínhamos o que fazer. Quando nos pressionavam, eu dizia para pressionarem a prefeitura", conta.

Mas, já que tal regulamentação não existe, Guerra diz não ver nenhum problema no acordo.

"É uma parceria comercial e acho que tudo bem. Quem vai disputar é o Bragantino. Se fosse uma vaga criada, seria estranho, mas eles fizeram o acordo e têm a vaga", afirma. "O Marquinho Chedid está fortalecendo o clube, são coisas do futebol", diz ele.

"O Bragantino já tem seu torcedor, que vai apoiar, certamente", diz.

Sidiclei Menezes, diretor de futebol do Vila Nova, não vê problemas, mas prefere esperar para ver qual será o efeito prático da parceria.

"Não temos a dimensão do acordo e de como será firmado. Sem conhecer o teor da parceria, não temos como saber se terão alguma vantagem ou se terão sucesso", diz.

"A Red Bull Brasil é uma instituição com grande potencial econômico, que poderá alavancar o Bragantino no cenário nacional. Resta aguardar o desfecho do acordo para termos mais clareza se os clubes concorrentes sofrerão desvantagem", diz..

O América-MG disse que não se manifestaria sobre assuntos relativos à Série B enquanto disputava o Estadual de Minas Gerais.

Vitória, Coritiba, Paraná e São Bento preferiram não comentar o assunto. E o CRB disse não ter posicionamento sobre a questão.