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O dia em que Renato comandou o Grêmio de Roger pelo telefone de um quarto de hotel - e ganhou

Nesta quarta-feira, o Grêmio recebe o Palmeiras, em Porto Alegre, às 21h45 (de Brasília), pela 10ª rodada do Campeonato Brasileiro. Será o reencontro de dois velhos amigos, que estarão de lados opostos no confronto: os técnicos Renato Gaúcho e Roger Machado.

A relação de ambos já vem de muito tempo. Em 2007, por exemplo, Renato era o treinador do Fluminense que foi campeão da Copa do Brasil em cima do Figueirense. Você lembra o autor do gol do título carioca? Justamente Roger, que à época ainda atuava como lateral esquerdo.

Mas talvez o episódio mais marcante desta longa parceria tenha sido o curioso caso ocorrido no Campeonato Gaúcho de 2011, quando Renato estava em sua primeira passagem como comandante gremista, e tinha ao seu lado Roger Machado como auxiliar-técnico.

Em janeiro daquele ano, o "Imortal" tinha dois jogos muito complicados: o confronto contra o Liverpool-URU, pela fase preliminar da Libertadores, que aconteceria numa quarta-feira, e um Gre-Nal pelo Estadual, que ocorreria no final de semana anterior.

Após conversa com a diretoria, Renato Gaúcho resolveu priorizar o duelo contra os uruguaios, e manteve o time titular treinando em Porto Alegre e descansando para o jogo, enviando uma equipe reserva para encarar o Inter na cidade uruguaia de Rivera, na fronteira com o Brasil.

E nem o próprio Renato viajou para o clássico contra o Colorado!

Em seu lugar, enviou o auxiliar Roger, que ficou responsável por comandar a equipe da beira do gramado. Enquanto isso, o comandante ficou assistindo a partida do quarto do hotel onde morava, em Porto Alegre, e dando instruções ao auxiliar por telefone.

Em campo, a estratégia parecia que não ia funcionar muito bem, depois que Guto abriu 1 a 0 para o Internacional. No entanto, Renato falou com Roger no intervalo e deu a letra: queria Willian Magrão no lugar de Vilson, deslocando Mário Fernandes para a zaga e Maylson para a lateral. O "interino" obedeceu e voltou para o segundo tempo com as substituições propostas pelo "chefe".

E deu certo: o rival recuou, o Grêmio apertou e conseguiu a vitória de virada por 2 a 1, com gols de Bruno Collaço e Lins, no primeiro Gre-Nal disputado fora do Brasil em toda a história.

Após a partida, Roger confirmou que esteve em contato o tempo todo com Renato durante a partida.

"Tivemos contato permanente. Pelo telefone, o Renato optou pelo Willian Magrão, no intervalo, e recolocou a equipe em campo. O Renato passava as alterações e o posicionamento dos jogadores em campo", contou, em sua coletiva após o clássico.

O auxiliar, porém, ressaltou que também teve participação na virada.

"Atuei com intensidade, reposicionando os jogadores em campo e orientando. Me sinto parte importante dessa vitória", exaltou.

Essa experiência acabaria sendo decisiva para Roger decidir virar treinador, o que aconteceu em 2014, depois que ele passou dois anos como auxiliar do Grêmio. Seu primeiro time foi o Juventude, pelo qual passou rapidamente antes de ir para o Novo Hamburgo e se destacar.

Em 2015, foi contratado pelo "Imortal", desta vez como treinador principal, montando um time muito elogiado, mas que não ganhou títulos.

Após sua demissão, em 2016, o time tricolor acabaria vencendo a Copa do Brasil daquele ano e a Libertadores de 2017 pelas mãos de Renato Gaúcho. Muitos analistas, porém, apontam que o Grêmio de Renato tem, até hoje, um pouco de Roger na essência.

Depois de deixar Porto Alegre, Machado passou pelo Atlético-MG, ganhando o Campeonato Mineiro de 2017, antes de chegar ao Palmeiras, em 2018, assumindo no lugar de Alberto Valentim, que saiu para o Botafogo.

No duelo desta quarta-feira, o Grêmio de Renato, que está em 3º lugar do Brasileiro, com 16 pontos, tenta se aproximar de vez do líder Flamengo, que tem 20 pontos, enquanto o Palmeiras de Roger, com 14 pontos e em 7º lugar, tenta roubar a posição do "Imortal".

'ROGER É MAIS CALADO QUE O RENATO'

Apesar de não ter feito gol, Willian Magrão foi considerado o grande nome daquela virada no Gre-Nal. Afinal, foi a entrada do volante, por ordem de Renato Gaúcho, que arrumou o time em campo e permitiu ao "Imortal" reagir contra seu maior rival.

Tanto tempo depois daquela partida, o meio-campista, atualmente com 31 anos e atuando pelo Juárez-MEX, não se lembra com tantos detalhes do jogo pelo Gauchão. Contudo, recorda bem das instruções de Renato por telefone a Roger.

"O treinador era o Renato, mas quem foi para lá (Rivera) foi o Roger, o Renato ficou comandando a distância. Durante a partida não lembro do Renato ter ligado, mas no intervalo ele conversou com o Roger, sim. Tanto é que eu entrei", conta, à ESPN.

Willian destaca que a relação entre técnico e auxiliar era ótima e de extrema sintonia. O volante ainda aponta que já via sinais de que Roger viria a se tornar um treinador de ponta em pouco tempo.

"Eles já se davam muito bem, até porque o Roger tinha parado de jogar e eles tinham sido campeões juntos no Fluminense daquela Copa do Brasil, com Renato de técnico e Roger fazendo o gol do título. E já dava para ver que Roger seria técnico de alto nível. Ele sempre me falava que almejava ser treinador e estava trabalhando forte para isso. Hoje, já alcançou um baita status no Brasil", exalta.

No entanto, o meio-campista salienta que Machado e Renato Gaúcho são muito diferentes em alguns aspectos, como a personalidade e a maneira de lidar com os jogadores.

"O Roger nesse aspecto é muito mais calado que o Renato. O Renato todos conhecem, é daquele jeito brincalhão, fanfarrão, enquanto o Roger também brinca às vezes, mas é muito mais sério, gosta de ficar na dele", relata.

Renato também apostava alto em Roger. Tanto é que deixava o auxiliar responsável por muitas atividades nos treinamentos, supervisionando de longe e dando seus "pitacos".

"O Renato tinha um auxiliar dele, mas o Roger era o auxiliar do Grêmio. Então, ele gostava de dividir as tarefas para todos. O Roger era muitas vezes o responsável por dar os treinos aos não-relacionados. Já o Renato fazia mais treinos táticos. Os dois auxiliares ficavam orientando e o Renato falando as questões de posicionamento", recorda.

Willian, aliás, se lembra até hoje da preleção de Roger naquele dia.

"Ele deu uma palestra muito boa antes do Gre-Nal, que era o primeiro dele como técnico. Mexeu com todo mundo, ainda mais com os jogadores jovens. Ali eu vi que ele tinha tudo pra chegar aonde almejava", salienta.

"Claro que não foi só por esse jogo ou essa palestra, mas pelo que já fazia como auxiliar. Ele ajudava os jogadores nos treinamentos. E quem trabalha com ele hoje diz que não mudou nada", finaliza.