O dia 26 de maio, sábado, pode marcar o 13º título do Real Madridda Uefa Champions League caso vença o Liverpool, em Kiev, na Ucrânia. Mais do que isso, ele pode ser o de coroação e entrada para a história do torneio a Zinédine Zidane, que seria o primeiro treinador a conquistar o principal certame de clubes da Europa por três vezes consecutivas.
Contratado no início de 2016, o ex-meio-campista levou o clube merengue ao lugar mais alto do pódio nas temporadas 2015/16 e 2016/17, quando bateu nas respectivas decisões o rival Atlético de Madrid e a Juventus.
Atualmente, o único técnico a conquistar três Champions é Carlo Ancelotti, que o conseguiu duas vezes com Milan (2002/03 e 2006/07) e com o próprio Real, em 2013/14.
E para chegar ao mesmo feito do renomado treinador italiano, "Zizou" fará uso de seu próprio segredo do sucesso: não tirar Cristiano Ronaldo de campo.
Nos dois anos em que o Real terminou como campeão sob seu comando, o português jogou praticamente todas as partidas em sua totalidade - inclusive quando elas iam para a prorrogação. Nesta temporada ele fez os 12 jogos completos (1080 minutos) da competição e marcou 15 gols.
Há apenas duas exceções, ambas na temporada 2015/16: nas oitavas de final, quando foi substituído no minuto derradeiro diante da Roma e na volta da semifinal, contra o Manchester City, quando não teve escolha e teve de vetá-lo do confronto por uma lesão muscular.
Sua filosofia de ter sempre seu melhor jogador em campo, aliás, provavelmente surgiu ainda em sua época de jogador. Nas oitavas de final da Champions League de 2004/05, o Real Madrid vencia e se classificava diante da Juventus de Fabio Capello, em pleno estádio Dele Alpi, mas tudo começou a cair por terra quando o então técnico Vanderlei Luxemburgo resolveu tirar o francês do jogo, no segundo tempo.
"Eu achei que jogando em casa eles iam partir pra cima, fazer marcação pressão mais forte, que seria mais dura. O jogo começou morno e eles lá atrás, esperando a gente. Na minha cabeça a equipe deles era muito boa. No segundo tempo eu preparei para que recebêssemos uma marcação pressão no começo e a Juventus da mesma forma", comentou "Luxa", em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, lembrando daquela partida.
A Juventus fez 1 a 0 com Zalayeta e levou a partida para a prorrogação. "O Zidane cansou e não conseguia mais jogar. Eu o tirei e pus o Guti. Era uma substituição normal porque manteria a estrutura da equipe", continuou.
"Só que após ele sair, a Juventus veio para o abafa. Não deixava mais meu time respirar, ficaram em cima. Eles venceram e nos eliminaram. Eu fiquei com aquilo na cabeça. Eu chamei o Zidane para conversar na minha sala e falei: 'Zizou, o que aconteceu neste jogo? Estava quase ganho'. 'Mister, nós perdemos quando o senhor me tirou. Eles têm um respeito muito grande pela gente'. Eles não iam para cima com medo deles. O fator respeito acabou", recordou Vanderlei.
Ronaldo Fenômeno seguiu até mais ou menos o fim da prorrogação, quando acabou expulso por revidar cotovelada de Tacchinardi. Ao final da etapa regulamentar, aliás, ele chegou a marcar para o Real, mas o impedimento foi assinalado.
"Eu não imaginava que o Zidane seria treinador, mas já tinha perfil de liderança diante do grupo. Falava pouco, mas observava muito. E essa situação que ele me falou já é uma observação que jogador dificilmente percebe, aquilo ali o que acontece dentro do jogo. Ele era tático e responsável", completou o treinador, que será comentarista de TV na Copa do Mundo da Rússia.
Fala pouco, cobra muito...
Se, em campo, o Zidane jogador era daqueles de não gastar muitas palavras com os companheiros, à beira do gramado e nos treinamentos a situação é contrária.
Quem conheceu bem as cobranças do treinador foi Abner, lateral-esquerdo que hoje atua no Coritiba pela Série B do Campeonato Brasileiro e que foi comandado por "Zizou" no Real Madrid Castilla - time de transição merengue - entre 2014 e 2015.
"Ele é bem tranquilo, mas, quando começa a trabalhar, ele cobra muito. É bem participativo em tudo. Ele fazia vários treinos com a gente dentro do gramado, dando passes, fazendo jogadas. Ele tem muita qualidade e muito inteligência. Ele passa a experiência que viveu no futebol para os jogadores", contou, em entrevista ao ESPN.com.br.
"Ele jogava com a gente nos rachões. A gente brincava muito com ele porque ele ainda está em forma e o controle de bola dele estava em dia (risos). Jogava bem ainda, dava um show", lembrou o lateral.
Abner e os outros atletas do Castilla, aliás, já podiam enxergar a veia de técnico para o profissional do Real, mostrando estar preparado para o desafio, caso ele chegasse.
"Por ter começado havia muito pouco tempo como treinador e ter assumido uma grande responsabilidade, ele estava preparado. Estudou para poder chegar onde está. Ele foi jogador e sabe como a gente pensa e quer. Isso ajuda muito no dia a dia. Ele gosta que o time jogue para frente e que tenha muito a posse de bola", finalizou.
E sempre com seu seu principal jogador em campo.
