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Lado B da Copa: Islândia, o país que usou o esporte para combater o alcoolismo entre jovens

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Lado B da Copa: Islândia, o país que venceu sua própria Copa contra o alcoolismo entre jovens (1:01)

Assista à matéria na íntegra no WatchESPN (1:01)

Que o futebol vai além das quatro linhas, isso não é novidade para - quase - ninguém. Porém, o quanto este fator extracampo pode impactar na vida das pessoas? Ou melhor, de um país inteiro? No caso da Islândia, ele causou uma mudança radical - e muito positiva - em sua sociedade: tirar os jovens das drogas e do álcool. Isso graças ao programa Juventude na Islândia.

No início dos anos 1990, o país escandinavo vivia uma preocupante situação. Cerca de 42% dos adolescentes entre 15 e 16 anos de idade admitiam ter ingerido grande quantidades de bebida alcoólica. O número era o maior de todo o continente europeu.

O ditado popular diz que quando algo melhorou, “foi da água pro vinho”. Mas, não seria absurdo dizer que, neste caso, a situação dos jovens islandeses foi literalmente “do vinho para a água”. Isso porque, vinte anos depois, a Islândia agora tem o menor índice de alcoolismo entre adolescentes. A taxa caiu de 42% para apenas 5%.

O consumo de outras drogas também despencou nas últimas duas décadas. Com o cigarro, o índice de jovens que fumavam diariamente caiu de 23% para 3%, e os que haviam usado maconha pelo menos uma vez foi de 17% para 7%.

Mas como a Islândia conseguiu reverter esse cenário de forma tão rápida e eficiente?

O projeto desenvolvido para transformar essa situação foi chamado de “Juventude na Islândia”, e envolveu várias iniciativas do governo, entre elas, incentivo à prática esportiva. Há distritos e cidades, como Reykjavik, que decidem por si só patrocinar esportes e outros hobbies, como música e arte.

“Esse tipo de trabalho na Islândia foi muito forte nos últimos vinte anos em viabilizar o tempo de trabalho e estudo para que as crianças encontrem algo positivo para fazer fora da escola e fora de casa. Esse tempo é muito bom na Islândia”, explica Jón Sigfússon, diretor do Centro Islandês de Pesquisa e Análise Social.

Na capital Reykjavik, por exemplo, os pais recebem um patrocínio 430 euros e devem usar esse dinheiro para incentivar os filhos de 6 a 18 anos a ocupar o tempo livre com lazer, seja esporte, música, arte ou outras atividades.

Além disso, o projeto trouxe mudanças nas leis. O governo penalizou a compra de bebidas alcoólicas para menores de 20 anos, a de cigarro para menores de 18 e a publicidade de ambas foi proibida. Os pais passaram a participar de palestras que ressaltassem a importância de passarem tempo com os filhos. Os jovens também começaram a responder uma pesquisa anual, que serve de base para as autoridades entenderem a opinião e o comportamento deles. Ainda na esfera legal, foi aprovada uma lei que proibia que jovens de 13 a 16 anos saíssem de casa após um determinando horário. No verão, até a meia noite, e no inverno, até as 22h.

O pesquisador ressalta ainda que a participação no esporte cresceu consideravelmente nos últimos 20 anos. A capital Reykjavik oferece às crianças participação em atividades e a procura é alta: quase 100% das crianças estão integradas. “500 tipos de atividades diferentes e as crianças podem escolher. Muitas delas envolvem o esporte”, destaca Sigfússon.

Apesar do lado positivo de se utilizar o esporte como uma ferramenta para manter os jovens longe das drogas, Sigfússon alerta para um possível risco. “Esportes podem beneficiar as crianças e suas vidas. Mas também vemos em algumas comunidades no mundo em que esportes organizados podem ser arriscados se o trabalho não for de boa qualidade e se os treinadores não forem bons, ou beberem, fumarem e não forem um bom modelo”.

Thorlakur Arnason, chefe do desenvolvimento de jovens da federação islandesa, destaca que o futebol - esporte no qual a Islândia conseguiu dois grandes feitos nos últimos anos - representa a vida e pode ser muito útil para o aprendizado e desenvolvimento dos jovens.

Seleção atual

Quanto à seleção islandesa de hoje, Arnason ressalta que a maioria dos jogadores começou a atuar bem cedo pela seleção nacional. E ele cita duas razões para isso. Primeiro, a qualidade dos atletas. Além disso, houve uma crise econômica em 2007 e muitos estrangeiros que atuavam na liga islandesa foram mandados embora, porque os times não tinham dinheiro. “Quando os jovens jogam, geralmente é por crises econômicas. Essa é a maior razão. Não é sempre por organização”.

Alguns jogadores que estão na seleção começaram a jogar muito cedo também nos seus clubes. Gylfi Sigurdsson, um dos destaques do time, foi ainda muito jovem atuar no Reading, da Inglaterra, e posteriormente acabou emprestado para o Crewe Alexander, da terceira divisão inglesa.

Para Arnason, a chave para o time islandês no Mundial é estar mentalmente forte. Caso contrário, não terão chance de avançar. “Temos vários jogadores inteligentes, como Gylfi Sigurdsson e Johann Berg Gudmundsson, que está muito bem no Burnley. E temos jogadores fortes e físicos como Aron Gunnarsson, que joga no Cardiff. Nós jogamos contra nações que são maiores que nós e mesmo assim achamos que podemos vencê-las. É a crença, a vontade e a loucura também. Você precisa ser um pouco louco de vir da Islândia e achar que pode vencer o Brasil, a Alemanha, a Itália, esses países”.

Talvez essa seleção já seja resultado dos incentivos ao esporte nas últimas duas décadas. Talvez não. Os resultados dentro de campo durante o Mundial ainda não se sabe. Mas independente de qual seja, a maior contribuição da Islândia já foi e está sendo dada para o povo. O país proporcionou uma mudança drástica no comportamento e saúde dos jovens, que podem usar o tempo livre para dedicar-se, entre outras coisas, à prática esportiva e que podem vir a retribuir conquistando títulos e medalhas para a Islândia no cenário do esporte internacional.

O futebol na Islândia já ganhou a sua própria Copa do Mundo. Assista à matéria na íntegra no WatchESPN!