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Arsenal, agora sem Wenger, está livre para pensar em um futuro melhor

Arsène Wenger, ex-técnico do Arsenal Arte: ESPN

Nota do editor: perguntamos a Nick Hornby - romancista e roteirista que escreveu sobre sua paixão pelo Arsenal no livro "Febre de bola" – para saber o que ele pensa sobre a saída de Arsene Wenger após 22 anos como técnico do Arsenal.

LONDRES – A escola dos meus filhos, que fica quase dentro do Estádio Highbury e bem pertinho do Emirates, não permite telefones celulares nas suas dependências. Todas as manhãs, antes de irem para a escola com os colegas, eles deixam os telefones em cima da mesa da cozinha. Os celulares ficam lá, quietinhos e silenciosos até o fim do dia letivo.

Na manhã da última sexta-feira, os celulares estavam no mesmo lugar de sempre. Eu decidi pegar o jornal para ler, aproveitando a súbita tranquilidade da casa, mas de repente eles começaram tocar e vibrar todos ao mesmo tempo. Só um assunto é capaz de provocar toda essa atividade simultânea: o Arsenal Football Club. Até um ataque nuclear da Coreia do Norte chamaria menos atenção por aqui. Meu telefone também começou a tocar. Nessa hora ficou difícil pensar em outro motivo para tanta agitação que não fosse a queda de Arsène Wenger.

Os donos dos celulares deixados na cozinha, meus filhos, estão no começo da adolescência. Eles não viram o Arsenal jogar em Highbury. Começaram a frequentar estádios já na época do Emirates, entre 2008 e 2010, e pegaram algumas fases boas. Como o melhor momento das carreiras de Cesc Fàbregas e Robin Van Persie. Eles comemoraram três finais da Copa da Inglaterra em quatro anos. Na noite em que Andrey Arshavin marcou o gol da vitória contra o Barcelona, eles estavam no estádio, assim como na noite em que Thierry Henry voltou ao Arsenal já com 35 anos. Ele saiu do banco e colocou a bola no cantinho do gol do Leeds United, do mesmo jeito que costumava fazer quando jogávamos em Highbury.

Mas mesmo esses bons momentos não valeram muita coisa. O Barcelona ganhou o jogo de volta naquela eliminatoria, e o gol de Henry aconteceu no final de um dos jogos mais chatos que eu já assisti. O título da Copa da Inglaterra em cima do Hull City, que acabou com a seca de nove anos sem taça, só veio com um gol de Laurent Koscielny no fim do jogo.

A maior parte da vida deles como torcedores foi sofrida: o time quase sempre ficava fora da disputa do título bem antes do fim da temporada, os clássicos frequentemente terminavam em humilhações... (Mesmo os mais antigos torcedores do Arsenal jamais haviam visto o time levar oito gols em um só jogo. Até 2011). Eles viram caras como Nicklas Bendtner e Emmanuel Eboue, Philippe Senderos e Sebastien Squillaci, Johan Djourou e Carl Jenkinson, Marouane Chamakh, André Santos e Manuel Almunia... e muitas vezes eles estavam jogando juntos! Por causa desses jogadores, a equipe acabou perdendo outros que eles adoravam, como Van Persie e Fàbregas.

É verdade que a vida do torcedor é feita mais de decepções do que de alegrias, mas na minha época as coisas eram melhores: tivemos um período de oito anos em que o Arsenal não ficava devendo nada para nenhum outro clube europeu. Conseguir um ingresso naquela época valia ouro, era um passaporte para o melhor futebol do Reino Unido, talvez o melhor entretenimento em Londres. O time não ganhou tanto quanto poderia (é só lembrar daquela invencível temporada 2003-04 que qualquer torcedor do Arsenal pensa automaticamente na catastrófica derrota para o Chelsea nas quartas da Champions League), mas as memórias do tempo de Wenger sempre vão me remeter a Henry e Dennis Bergkamp, Robert Pires e Freddie Ljungberg, Patrick Vieira e Sol Campbell. Foram temporadas cheias de títulos e um futebol de tirar o fôlego, potente e mortal. Era muito mais fácil levar gols do Arsenal do que marcá-los. O máximo que os rivais conseguiam arrumar naquele começo do milênio era um escanteio.

Mas ninguém com menos de 20 anos se lembra disso. Quando comentaristas nervosinhos acusam os torcedores do Arsenal de ter pouca memória, o que eles ignoram é que essas glórias aconteceram há muito tempo. Se você está em uma certa faixa etária, a era de ouro de Wenger parece que foi ontem. Mas meus filhos e os amigos deles não querem nem saber o que um senhor de 68 anos fez na década passada. Eles estão um pouco perdidos: Wenger foi o técnico do Arsenal durante a vida inteira deles. (Só para comparar, eles viram quatro primeiros-ministros e 11 técnicos do Chelsea). Mas estão animados também. Faz tempo que eles querem uma mudança.

Eu imagino que Wenger não gostaria de sair antes do término de seu contrato, no final da próxima temporada. Ele sempre acreditou em seus jogadores e em sua própria capacidade de mudar o jogo, mas a verdade é que ele não conseguiu se adaptar aos novos desafios da carreira de treinador da mesma forma que Sir Alex Ferguson fez.

Ferguson superou Wenger, depois José Mourinho e dobrou até a força econômica do Manchester City. Já Wenger foi ficando para trás, frustrado e cada vez mais míope.

O fim da linha na minha opinião aconteceu em fevereiro, na final da Copa, contra o Manchester City. Todo mundo sabe que hoje o City é o melhor time do país, por isso a derrota não foi nenhuma surpresa. A forma como a derrota aconteceu é que foi preocupante.

Pelos meus cálculos, só 10 times perderam por três gols ou mais a final da Copa da Inglaterra nos últimos 50 anos, o tempo que eu levo assistindo jogos do Arsenal. 10 em um universo de 100. Alguns desses times vinham de divisões inferiores e se superaram, como aconteceu recentemente com o Millwall enfrentando o Manchester United, e o Bradford City contra o Swansea.

A única vez em que vi o Arsenal perder por mais de um gol em uma final foi em 1969, quando o Swindon, time da terceira divisão, fez 3 a 1 na prorrogação e derrubou os favoritos. Sempre houve aquela pontinha de esperança de vencer uma final até o último minuto. A maioria das finais é imprevisível. Quando um time é muito inferior ao outro no papel, a tática adotada geralmente é impedir o adversário de jogar. Foi assim que no pasado, o Wigan ganhou do City, e o Wimbledon derrubou o Liverpool.

Wenger parecia completamente perdido quando enfrentou Guardiola. O time fez o que vinha fazendo nos últimos anos: tocou a bola até levar um gol bobo e depois tocou a bola mais um pouco até levar mais gols.

Eu fui um dos torcedores do Arsenal que foi embora faltando 25 minutos para o fim do jogo. Quando o juiz apitou, não tinha quase ninguém dentro do estádio vestindo vermelho e branco. Ninguém ficou revoltado, a maioria da torcida percebeu que o Arsenal não está mais no mesmo nível dos grandes clubes. Só Wenger & cia. não se deram conta que o jeito era jogar como time pequeno, colocando os 11 atrás da linha do meio-campo e esperando.

Quatro dias depois, algumas poucas testemunhas foram ao Emirates eu uma das noites mais frias dos últimos anos para ver o mesmo péssimo futebol e resultado. Aguentei até os 15min do segundo tempo nesse jogo. Não gosto de sair no meio dos jogos e critico quem faz isso, mas nesse caso fui obrigado a sair pelo meu instinto de autopreservação. Depois daquela semana, em todos os jogos em casa havia lugares vazios aos milhares. Algo havia se rompido e não havia como colar.

Nunca o Arsenal terá um técnico melhor e nunca haverá outro tão inteligente e carismático. Na hora que os telefones começaram a tocar, os torcedores puderam ver pela primeira vez em perspectiva histórica como foi extraordinária a carreira de Wenger no Arsenal. Eles tiveram que tocar para que pudéssemos ter essa visão completa da obra. E que obra maravilhosa ela foi.