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Altair: um ídolo esquecido e abandonado

Altair Gomes de Figueiredo nasceu em 22 de janeiro de 1938. Chegou ao Fluminense em 1955 para brilhar entre os grandes jogadores daquela década de ouro do futebol nacional.

Conquistou vários títulos pelo clube das Laranjeiras. Durante 15 anos, vestiu a camisa do Flu por 542 partidas. No Campeonato Carioca era considerado um dos marcadores mais técnicos e leais, principalmente quando tinha de cuidar do endiabrado “Anjo das pernas tortas”, Mané Garrincha, do Botafogo.

Defendeu a seleção brasileira em 22 partidas. Disputou duas Copas do Mundo, a primeira em 1962, participando do bicampeonato mundial no Chile e depois, em 1966, na Inglaterra, onde já não era apenas o reserva do fantástico Nilton Santos, mais conhecido como a “Enciclopédia do Futebol.”

Os mais velhos, aqueles que viram Altair atuar, são unânimes ao afirmar que o senhor que hoje completa 80 anos foi o melhor lateral esquerdo da história do Flu.

Passados alguns anos, Altair virou técnico. Foi interino do clube tricolor por várias vezes.

Fora do futebol, Altair foi proprietário de casa lotérica e desenvolveu vários projetos sociais com garotos de baixa renda em sua terra natal, Niterói.

Mas, há pouco mais de dez anos, sua vida teve uma verdadeira reviravolta. Com os falecimentos da filha e da esposa, Altair foi adoecendo, até ser diagnosticado com uma terrível e implacável enfermidade, o mal de Alzheimer.

De lá pra cá muita coisa mudou na vida do eterno craque do Fluminense. Todo o dinheiro guardado foi se acabando por causa de um caro tratamento, que consome muitos recursos com remédios e cuidadoras, uma vez que Altair deixou de ter condições de viver sozinho.

Foi nesse período, com os problemas que afetaram a memória de Altair, que ele começou a cair no esquecimento.

A verdade é que só ouvimos falar de Altair quando, em 2013, durante a Copa das Confederações no Brasil, alguns amigos e a enfermeira que o acompanhavam em uma viagem para Brasília se distraíram deixando o ex-jogador perdido por nove horas na capital federal. Ali foi a última vez em que Altair virou notícia, afinal de contas, como poderia um campeão mundial da seleção brasileira desaparecer diante dos olhos do mundo?

Dali em diante, alguns olhares deram conta se sensibilizando quanto ao sério problema de saúde ao qual vivia um dos ídolos do nosso futebol. Houve até poucos dirigentes do tricolor que tentaram nesses últimos anos emplacar algum tipo de campanha que pudesse ajudar o ídolo, mas todas as tentativas foram apenas “fogo de palha”, ou seja, nunca surtiram efeito.

Um ano após o episódio do sumiço de Altair, o reencontramos por intermédio de uma reportagem que estávamos fazendo para a ESPN com um dos poucos e raros amigos que sobrou na vida dele, Jair Marinho, 81.

Na ocasião, enquanto gravávamos com Jair, também campeão da Copa de 1962 e também ex-jogador do Fluminense, fomos apresentados a Altair.

Seu Jair fez questão que acompanhássemos um bate-papo entre os dois amigos inseparáveis. A resenha, como se diz hoje, aconteceria nas ruas de São Gonçalo, a caminho de um salão de cabeleireiro. Lá, Altair quis falar sobre futebol e, claro, eu completamente sem jeito e sem saber lidar com a situação, autorizei começarmos a gravar o que ele tanto queria falar. Na entrevista, em que não tive coragem de perguntar, ouvimos de Altair histórias vivas de um tempo que não volta mais. Como todos sabem, o mal de Alzheimer é uma doença que afeta diretamente a memória recente, deixando praticamente intacta as grandes lembranças do passado. Nessa curta entrevista, Altair falou dos confrontos com Garrincha garantindo, inclusive, que no domingo seguinte à nossa gravação, quando o Fluminense enfrentaria o Botafogo, ele não daria espaço para o Mané driblá-lo. Outra causa do Alzheimer.

Na época, o grande amigo de Jair Marinho estava caminhando normalmente e quem o via nas ruas de São Gonçalo jamais poderia imaginar que sua cabeça e memória atual estavam terrivelmente comprometidas.

A seguir você assiste a um trecho da reportagem que fizemos em janeiro de 2014.

A HOMENAGEM QUE NÃO PÔDE SER FEITA.

Passados quase quatro anos desse encontro, pensamos em fazer uma homenagem para o dia do aniversário de 80 anos de Altair, nesta segunda-feira.

Nossa ideia era levá-lo para revisitar o Maracanã, onde por muitas vezes brilhou, e também para as Laranjeiras, local onde ele viveu muitas glórias como jogador e técnico.

Nossa fonte para auxiliar na reportagem-homenagem só poderia ser o senhor Jair Marinho. Sabendo de todo o cuidado que deveríamos ter com o assunto, entramos em contato com ele, pois a pauta, além de presentear Altair com um reencontro com o passado, comemoraria o aniversário com um bolo-surpresa. Nossa principal intenção era mobilizar torcedores e dirigentes que ainda prezam pela memória do futebol a ajudá-lo com uma nova campanha.

A princípio, Jair disse que poderíamos sair de São Paulo e ir para o Rio, onde, segundo ele, estava tudo certo para a gravação com os dois campeões mundiais. Combinamos com Jair que ele conduziria a reportagem, falando da importância de Altair para a nossa memória do futebol e chamando a atenção para a necessidade de um amparo financeiro e social.

Não deu tempo.

Quando já estávamos embarcando para o Rio, Jair nos informou que Altair não tem mais condições de sair da cama, não fala mais nada, está muito debilitado e impossibilitado de participar de qualquer conversa e muito menos de uma reportagem, nenhuma festa, imagem, homenagem, enfim, que rezássemos por Altair, pois a saúde do amigo vai de mal a pior.

Jair Marinho disse que Altair ainda conta com a companhia de Eluana Galvão, a cuidadora-missionária que não abandonou o barco.

Seu Jair se emocionou ao telefone afirmando que seu companheiro de seleção e Fluminense foi abandonado por todos e esquecido por aqueles que prometeram ajuda, mas nunca cumpriram com a palavra.

Jair encerrou a conversa afirmando que a única conquista para Altair foi um plano de saúde que ele mesmo conseguiu, implorando muito junto à CBF.

No fim da nossa conversa perguntei para Jair Marinho se apenas um plano de saúde não era pouco para um homem que tanto brilhou e tanto fez para a história do nosso futebol. E Jair foi curto e grosso na resposta:

Esse é o nosso país, garoto. Não é o Altair que sofre consequências da doença que afetaram sua memória, é o povo brasileiro que não dá o mínimo valor aos nossos heróis do passado, às nossas conquistas. Pra você ver, não sobrou ninguém disposto a ajudar um campeão mundial que caiu completamente no esquecimento, aliás, pergunte por aí: ‘Quem foi e o que fez Altair Gomes de Figueiredo? Alguém sabe?’”

Ao encerrar a ligação, mais que lamentar a reportagem-homenagem que não consegui fazer em vida, fiquei por horas e dias pensando: Enquanto se fala tanto se o Neymar é ídolo ou não, se ele sai do PSG e vai para o Real Madrid, se ele voltou com a Bruna Marquezine, aqui, do outro lado do oceano, no Rio de Janeiro, mais precisamente no subúrbio da cidade, existe um campeão mundial pelo Brasil esquecido e abandonado, inclusive por aqueles que dizem amar e conhecer profundamente o futebol.

Daqui fico imaginando o senhor Altair no seu leito, doente, ignorado e desprezado por todos nós. Nessas horas e nesse momento no qual o velho Altair se encontra, não podemos ser hipócritas ao insistir e afirmar que o Brasil é o país do futebol. Pela minha cabeça, frustrada e decepcionada com essa inimaginável situação, por um momento penso e tento me colocar no lugar de Altair. Será que essa doença maldita, o mal de Alzheimer, surgiu para que ele não visse, ainda em vida, o tamanho do desprezo e do desdém de seu próprio povo? Quem está com a memória comprometida: o Sr. Altair ou nós, brasileiros?

É por causa de tristes e lamentáveis histórias como essa que o nosso povo jamais será considerado uma nação onde a memória é cultuada e preservada.

É aquela velha história: um país sem memória é um país sem história.

Que as novas gerações pensem nisso.

Parabéns ao grande e memorável Altair.