O Senado Federal anunciou nesta quinta-feira (28) que a Comissão dos Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) sediará uma audiência pública sobre a influência de jogos eletrônicos violentos no comportamento de jovens e crianças, com foco nos possíveis impactos em adolescentes.
O requerimento foi do senador Eduardo Girão (Pode-CE), que alegou em entrevista para a Rádio Senado que games estimulam a violência, sendo um “efeito potencializador” da “cultura da violência”. O senador problematiza ainda a falta de controle e regulamentação dos videogames.
O gancho para a discussão é o ataque em Suzano, São Paulo, no último dia 13, que teve como vítimas 10 mortos e 11 feridos. De acordo com o Senado, citando o vice-presidente da república Hamilton Mourão, o fato de que os atiradores competiam em jogos de tiro teve “influência sobre o comportamento dos criminosos”.
Games violentos influenciam o comportamento?
— Senado Federal (@SenadoFederal) 29 de março de 2019
A Comissão de Direitos Humanos fará audiência para debater o possível impacto de jogos eletrônicos violentos no comportamento de crianças, adolescentes e jovens. Saiba mais: https://t.co/Gjy6LSt9pX
Em 2008, os psicólogos e investigadores Lawrence Kutner e Cheryl K. Olson publicaram um estudo encomendado pelo Ministério da Justiça dos Estados Unidos com foco no assunto. Através de observação do comportamento de mais de 1200 crianças com relação a jogos violentos e não-violentos, foi constatado que a influência no comportamento a médio e longo prazo não era expressiva.
De acordo com a publicação, jogos como Grand Theft Auto, objeto primário de estudo do artigo, funcionavam muito mais como válvula de escape em relação a estresse do que como motor para comportamentos agressivos e potencialmente violentos. Um dos contextos mais frequentes na obra são os tiroteios a escolas, mais frequentes nos EUA — sobre os quais a influência, de acordo com os pesquisadores, é descartada.
Já em um estudo mais recente, do Dr. Andy Przybylski da Universidade de Oxford, foi atestado que, apesar de exposição frequente e prolongada a games tornar crianças propensas a hiperatividade e problemas de comportamento, os jogos não têm relação com comportamentos essencialmente violentos.
Personalidades do cenário de esports já se manifestaram sobre o assunto, distribuindo críticas sobre a fala de Hamilton Mourão após o massacre em Suzano. “O senhor está muitíssimo mal informado”, respondeu o analista do CBLoL Melao13 em seu Twitter. “Perigoso abrir a boca pra falar sem autoridade sobre assuntos tão importantes e delicados, ainda mais na sua posição”, afirmou.
O narrador de FPS Octavio Neto também se pronunciou sobre o assunto na época do ataque. “Nessas horas é mais fácil ser ignorante e culpar videogame, ao invés de admitir que vivemos numa sociedade doente, que não preza por educação e cultura e que cria, cada vez mais, esses traços psicologicamente perversos”, argumentou.
Pra quem segue propagando esse tipo de desinformação: segue aqui uma pesquisa bem recente, da Universidade de Oxford, atestando que violência na adolescência NÃO TEM relação com videogames. É a educação (através da ciência) desmascarando a ignorância.https://t.co/eZTnAYNDCM
— Octavio Neto (@octaviobuzz) 13 de março de 2019
O debate na Comissão dos Direitos Humanos do Senado Federal ainda não teve sua data definida.
