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Corinthians-Guarulhos: Documentos contradizem versão de gestor sobre calote de patrocinador para justificar atrasos

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Ex-jogador do extinto Corinthians-Guarulhos, Sidão relembra redução de salários por falta de patrocinadores (2:31)

Atleta demonstrou também incômodo com inscrição de Montes Claros na Superliga de vôlei (2:31)

O time de vôlei do Corinthians, o Corinthians-Guarulhos, não acertou os salários dos meses de março, abril e maio com atletas, colaboradores e membros de sua comissão técnica.

Segundo os jogadores Sidão e Riad disseram em entrevistas exclusivas à ESPN, um dos motivos dado pelo gestor Anderson Marsili para não pagar os salários foi o fato de o patrocinador principal da equipe, a rede de supermercados Nagumo, ter deixado de fazer os aportes de patrocínio contratados à equipe.

O ESPN.com.br, no entanto, obteve os comprovantes das transferências bancárias que atestam que a rede de supermercados repassou, e com antecedência, o montante de R$ 1 milhão que estava em contrato.

Por solicitação de Marsili, gestor da equipe, em vez de dez parcelas de R$ 100 mil, o Nagumo, fez quatro transferências bancárias de R$ 250 mil, totalizando o valor acordado.

"No dia 20 de janeiro deste ano, o Anderson fez contato conosco dizendo que a situação era pior do que ele imaginava inicialmente", conta Riad. "E que, por conta de uma disputa política entre o Thiago Nagumo (gestor da rede de supermercados) e o prefeitura de Guarulhos, o patrocinador havia deixado de cumprir com os repasses", diz.

Os documentos obtidos pela reportagem, no entanto, mostram que os repasses aconteceram.

"O que eu me pergunto é: onde está esse dinheiro, então?", diz Riad. "E não era só Nagumo: nossa camisa era cheia de patrocínios", relata.

"Em certa reunião, eu até perguntei: 'Se eles não estão pagando, então porque estamos jogando com o patrocínio na camisa?' E o Anderson desconversava", conta o jogador.

"Para os atletas mais experientes, a situação é menos desesperadora. Mas até ajudantes de quadra estão sem receber", diz Riad.

OUTRO LADO

O ESPN.com.br fez contato com Anderson Marsili, da AIG, gestora da parte administrativo-esportiva do Corinthians-Guarulhos.

Ele, inicialmente, se manifestou por meio da nota abaixo:

"Inicialmente, é nosso dever reafirmar com veemência que todos as receitas obtidas com patrocinadores, apoiadores e venda de ingressos durante a temporada 2018/2019 tiveram sua destinação financeira exclusivamente para pagar atletas, comissão técnica, despesas em gerais, como logística e alimentação, além de taxas federativas, confederativas e de arbitragem, custo do aluguel da vaga e manutenção do piso. Absolutamente 100% do que foi arrecadado foi utilizado para custear a operação. Portanto, todo o valor recebido até novembro foi usado para pagamentos descritos acima. Os atrasos de salários iniciaram a partir de dezembro, sendo, honrados até fevereiro de 2019, ou seja, sete parcelas das dez no total."

Posteriormente, em contato com a ESPN, Anderson se absteve de comentar sobre duas afirmações dos jogadores.

A primeira dá conta de que, no dia da apresentação dos jogadores e comissão, Anderson informou que haveria redução de 30% do salário inicialmente combinado - valor que viria a ser pago e que tanto Riad quanto Sidão dizem que não foi acertado.

A segunda é que ele teria dito que a rede de supermercados Nagumo teria deixado de fazer os repasses devidos das cotas de patrocínio.

O CASO

Desde fevereiro deste ano, atletas e comissão técnica do Corinthians-Guarulhos, já extinto, não recebem salários.

Na segunda-feira, 12 de agosto, alguns jogadores que integraram a parceria publicaram um manifesto com quatro alvos: o Corinthians, AIG (Associação Social Esportiva Índios Guaru), que comandou a parte esportiva do time, a Associação Montes Claros, dona da vaga pelo qual o Corinthians-Guarulhos disputou a Superliga 2018-19, e a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei).

A revolta, e o consequente manifesto, se deu por conta da permissão, por parte da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), da inscrição do Montes Claros, com outro time, para a disputa da Superliga Masculina.

Além disso, o gestor Anderson Marsili deixou de ressarcir os jogadores de 30% dos seus salários, percentual cortado de todos os contratos no dia da apresentação da equipe, sob promessa de que tal valor seria pago posteriormente.

O ESPN.com.br fez contato com as partes envolvidas na questão.

Por meio de nota, o Corinthians informou que jamais foi responsável pela parte financeira da parceria. Segundo o clube, houve apenas um licenciamento da marca, e que tal arranjo era de conhecimento de todos os envolvidos, inclusive os patrocinadores.

O comunicado diz ainda que o Corinthians, por "liberalidade e compromisso social com o esporte", chegou a contribuir financeiramente em momentos de crise, mas que todo e qualquer vínculo se encerrou em 6 de maio último, "devido à falta de capacidade de investimento prevista em contrato e não demonstrada pelo parceiro na prática".

Já a AIG, também por meio de nota, reconhece só ter pagado os salários dos jogadores e comissão técnica até fevereiro deste ano, tendo assim ficado devendo março, abril e maio.

O clube de Guarulho explica, porém, o Corinthians solicitou o “distrato” do contrato em abril deste ano, um ano e dois meses antes do fim previsto da parceria.

"O motivo alegado foi a intenção de seguir com uma equipe própria do clube. Isso fez com que interrompêssemos todo o processo de captação de patrocinadores, pois não tínhamos mais o “produto” Corinthians-Guarulhos", diz o documento.

Em 3 de Julho de 2019, o AIG afirma ter assinado confissão de dívida para selar os últimos pagamentos pendentes. Dos 16 atletas, três estavam com os vencimentos quitados: Serginho (líbero), Anderson (central), Vitão (central) e Cesinha (levantador). Além desses, assinaram o acordo: Matheus, Luan e o preparador físico Hermison (preparador físico).

"No dia 10 de Julho, o procurador Rogério Teruo, da Hansports, representante de seis jogadores (Sidão, Riad, Rivaldo, Fábio, Gabriel e Yago) respondeu o acordo questionando o valor de um dos atletas, e apresentando uma contraproposta de condições do acordo. Nosso advogado continuou em tratativas de consenso. No mesmo dia 3 de Julho, foram enviadas propostas para todos os jogadores e integrantes da comissão técnica, e por isso nos causou tamanha surpresa a nota dos atletas", afirma o AIG.

Já a CBV, em nota, afirma que, "quando existe alguma disputa na justiça, ainda tramitando, a entidade deve acatar a inscrição da equipe até a resolução do processo em curso". Este é o caso da equipe de Montes Claros.