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OPINIÃO: Djokovic, ao querer jogar a seu modo, nega o óbvio no momento mais delicado do planeta em um século

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Apoiadores de Djokovic entram em confronto com a polícia na Austrália; assista (0:41)

A decisão do governo da Austrália de cancelar o visto de Novak Djokovic foi anulada nesta segunda-feira (0:41)

Número 1 do mundo vive imbróglio com o governo da Austrália por não ter tomado a vacina contra COVID-19 e pode até não jogar o primeiro Grand Slam do ano


Bons tempos em que dias antes do primeiro Grand Slam da temporada o assunto era só o tênis. Favoritos e favoritas, surpresas, projeções de chaves, etc. Em 2022, a realidade, como se sabe bem, é outra. Não há nada de positivo na enorme crise envolvendo Novak Djokovic e os que o cercam e a Austrália, isto às vésperas do Australian Open, que terá transmissão ao vivo pela ESPN no Star+. Depois de tantos erros, formou-se um imenso nó difícil de ser desatado sem que haja prejuízo para todas as partes.

Desde o início da pandemia, o sérvio deixou clara a sua posição anti-vacina. Cabe aqui um pequeno contexto: são questões culturais e religiosas, a conduta do jogador é contra remédios com componentes químicos, seus tratamentos são baseados em produtos naturais. Isso dito, a humanidade vive um período que, se não é inédito, faz pelo menos um século que não vivia, desde a Gripe Espanhola.

É um momento excepcional que exige posições excepcionais ou, no mínimo, que não se jogue contra. Mas nada foi capaz de mudar a visão de Djokovic. Nem a péssima repercussão do Adria Tour, torneio organizado pelo atleta de 34 anos em 2020, no auge da crise, com portas abertas a 30 mil pessoas, nem o drama de profissionais de saúde e milhões de famílias mundo afora.

Não, Djokovic não é desumano, fez e faz por muita gente com suas entidades, tem tamanho e grandeza para de alguma forma diminuir a tensão entre Sérvia e Croácia, tendo ao seu lado há anos um croata (Ivanisevic), manifestando sua torcida pelo país vizinho na Copa do Mundo. Mas diante do momento mais delicado do planeta em um século, o maior vencedor de Grand Slams da história, com 20, ao lado de Roger Federer e Rafael Nadal, escolheu negar o óbvio e será lembrado tanto por isso quanto por seus inúmeros recordes.

A família Djokovic tem uma história de resiliência e superação. Sobreviveu aos horrores da Guerra da Iugoslávia, criou com enormes dificuldades um filho obstinado que se tornaria o tenista mais completo a entrar em uma quadra. O problema é que Srdjan Djokovic, o pai da família, segue em guerra, habita um mundo paralelo em que acha razoável comparar a situação do filho na Austrália à do Cristo crucificado, entre outros absurdos que só pioram a situação.

Porém, a crise “down under” não passa apenas por Djokovic e sua família. A Austrália tem papel fundamental nesta história. Está claro que Djokovic recebeu a isenção de autoridades australianas do Estado de Victoria, com total apoio da Tennis Australia, que queria em seu torneio o número um do mundo, maior campeão da disputa (são nove títulos, os três últimos consecutivos) e que tem ali a chance de se tornar, sozinho, o maior vencedor de Grand Slams da história. Faltou combinar com o Governo Federal da Austrália, que tem procedimentos diferentes.

O nível de amadorismo beira o inacreditável, ainda mais quando se trata do torneio mais elogiado pelo circuito e de um país admirado por todos. O que se vê desde então são ramificações de uma crise que coloca Djokovic sob suspeita até de falsificação, uma série de improvisos desastrados de ambas as partes e de enormes desconfianças e incompatibilidades sobre o pedido de exceção feito pelo sérvio.

Djokovic deu a sua versão sobre alguns desses temas, alegou não ter o resultado do exame quando foi ao evento com crianças, fez o mea-culpa por não ter adiado a entrevista para o jornal francês L´Équipe tendo testado positivo e explicou que houve um erro de seu empresário, que omitiu viagens recentes no preenchimento do formulário de entrada na Austrália. Até agora, não explicou a suspeita levantada pelo veículo alemão Spiegel sobre uma possível manipulação no resultado do exame.

Aquele campeonato que um dia foi chamado de “Happy Slam” vive um momento caótico. Todas as partes têm muito a explicar. Está comprovado pelas entidades que regem o tênis que, diante das exigências australianas, o circuito se moldou e se empenhou em aumentar o número de vacinados para estar apto a disputar o torneio.

Djokovic, por sua vez, quer jogar a seu modo. Neste momento, o sérvio segue na chave, mas ainda pode ser deportado se as autoridades federais encontrarem provas concretas de falsificação ou qualquer outra irregularidade. O sérvio vai até o fim, não vai desistir, isso nunca existiu no seu vocabulário, na vida ou na quadra. Se as armas para lutar nos tribunais australianos forem lícitas, ele terá conseguido o seu objetivo, mesmo negando o óbvio. Mas seja qual for o desfecho, tudo isso ‘só’ é péssimo para o Nole, para a Austrália, para os fãs e para o tênis.

* Fernando Nardini, jornalista, é narrador e apresentador dos canais esportivos Disney