<
>

Guga Kuerten se tornou nº1 do mundo há 20 anos tendo superado lesão e jogando com tênis lixado

play
Larri Passos e ex-assessora relembram lesão que quase tirou Guga Kuerten da Masters Cup de 2000 (1:06)

Brasileiro acabou jogando e se tornou número 1 do mundo no torneio (1:06)

Em 3 de dezembro de 2000, há exatos 20 anos, o Brasil chegava ao seu auge histórico no tênis. Naquele dia, Gustavo Kuerten vencera Andre Agassi por 3 sets a 0 (triplo 6-4) na final da Masters Cup (equivalente ao ATP Finals de hoje) em Lisboa e, com esse resultado, ultrapassava o russo Marat Safin para assumir a liderança do ranking justamente um dia antes de seu encerramento naquele ano.

A vitória foi a consagração máxima de Guga, que, como se já não tivesse superado tantas dificuldades na vida - como a morte precoce do pai - e tantos outros adversários e desconfiança, ainda teve outros obstáculos pela frente nesta semana.

Os canais ESPN prepararam um programa especial para celebrar o feito de Guga. O #20AnosGuga1 vai ao ar nesta sexta-feira, 4 de dezembro, em três horários diferentes: às 15h, na ESPN Brasil, às 20h, na ESPN, e às 23h30, na ESPN2.

A começar pelo próprio resultado. Guga não tinha opção para ser número 1 do mundo em 2000 a não ser vencendo o torneio. E ele teria que ser campeão no carpete indoor, piso rápido, longe de ser seu preferido como era o saibro e ainda por cima passando por nomes como Yevgeni Kafelnikov, Pete Sampras e Andre Agassi.

Conforme lembraram a ex-assessora do catarinense, Diana Gabanyi, e seu eterno técnico, Larri Passos, à ESPN, Guga quase não jogou a competição, sentindo uma lesão na região da virilha que de fato se manifestou na derrota para Agassi ainda na fase de grupos e fez o brasileiro jogar com uma proteção que invadia o quadril pelo resto do torneio.

"Ele estava com aquele incômodo no corpo. Eu não desarrumei minha mala. Eu ficava perguntando toda hora como estava a lesão, mas foram alguns dias bem intensos pra saber se ele ia conseguir jogar", disse Diana.

"Ele saiu da quadra e começamos a fazer um tratamento. Depois, a gente subia para o último andar do hotel sozinho e a gente fazia mais uma sessão extra. No próximo jogo, de manhã subimos de novo e já fez todo um processo. Quando ele ganha o segundo jogo, aí a gente passou a acreditar que dava para continuar jogando", relembrou Larri.

play
1:24

Larri relembra 'epopeia' com par de tênis que 'salvou' Guga na Masters Cup de 2000

Kuerten acabou tendo calçado estourado na partida, e tênis lixado por Larri salvou

Guga também teve que superar não só o piso, que não era o seu favorito, como também novos pares de tênis, que fizeram ele rapidamente voltar ao antigo modelo, específico para o saibro, que Larri deu "um trato" manual após os novos estourarem em uma partida.

"Eu estava aqui com ele treinando na quadra e falei que tinha um problema. 'Nós vamos chegar no Masters e você vai ganhar tênis novos, não sei se você vai se adaptar'. E ele falou 'Mas eu não tenho tênis de carpete'. Falei 'não te preocupa, me dá teus pares'. Saí da minha academia, levei no sapateiro e lixei os dois pares de tênis. Botei na sacola e levei junto. Quando acontece que arrebentou o tênis, todo mundo achava que teria uns 10 pares, que nada. E tinha o tênis preto, que eu falei que era o tênis preto que dava confiança, eu tinha tirado todas as ranhuras da quadra de saibro. Era pra ele ter ganhado esse Masters porque isso aí não acontece por acaso. Talvez o pai dele tenha mandado uma mensagem 'Larri, leva um par de tênis extra' (risos)".

play
1:06

Larri Passos vai às lágrimas ao lembrar do momento em que 'caiu a ficha' que Guga era número 1 do mundo

Ex-técnico do tenista ainda revelou primeira mensagem que deu a Guga na infância

"Hoje olhando pra trás, que emoção que eu senti...desde o primeiro dia que ele entrou na quadra comigo, com 13, 14 anos, que eu olhei pro céu e falei 'Leva a sério isso, quando está aqui dentro dá 100% de ti porque tem alguém (seu pai) te olhando lá de cima. Aí me veio essa imagem", disse Larri, às lágrimas.

As férias "descobertas" pela ESPN Brasil

play
1:53

Há 20 anos, ESPN 'caçou' Guga em férias no Havaí logo após tenista se tornar nº 1 do mundo

André Kfouri foi atrás do campeão logo após ele vencer a Masters Cup

Dias depois de ser número 1 do mundo, Guga foi para o Havaí fazer o seu hobby: surfar. E o brasileiro não queria ser incomodado por ninguém, muito menos imprensa.

"Eu recebia ligações de jornalistas bravos comigo porque eu não podia dizer onde ele estava", relembrou Diana. Mas André Kfouri, então repórter dos canais ESPN, descobriu.

E o número 1 do mundo saiu das ondas e foi falar com a equipe dos canais ESPN.

Veja abaixo depoimento de André Kfouri sobre a "saga" de achar Gustavo Kuerten no Havaí:

Quando foi tomada a decisão de mandar alguém para o Havaí atrás do Guga, havia um problema que na coletiva dele depois da final ele diz claramente que gostaria que o período de férias dele fosse respeitado. Ele falou que queria fazer uma viagem que queria há tempos e não conseguia.

Quando recebi o telefonema do (José) Trajano perguntando o que eu achava e se caso fossemos ao Havaí se ele falaria comigo, eu disse que achava possível, mas como ele tinha feito esse pedido, a gente precisava tomar uma decisão sobre respeitar ou não a vontade dele. E o que ficou combinado entre Trajano e eu era que se eu conseguisse encontrá-lo e ele não quisesse falar, eu falaria ‘ok’, não iria insistir.

Tive poucas horas pra me preparar, tentei falar com algumas pessoas, descobri com quem ele estava, quais eram os amigos que estavam o acompanhando nessa viagem. E o (Luis Roberto) Formiga conhecia 3 surfistas brasileiros que estavam morando no Havaí e talvez pudessem me ajudar.

Quando eu cheguei no Havaí no final da tarde, ainda do telefone público da esteira esperando as malas, eu peguei esses telefones e liguei. No 1º ninguém atendeu, no 2º me atendeu um cara chamado Biro, eu nunca vou me esquecer dele e nunca mais o encontrei. Ele foi super cordial e falou ‘Cara, eu sei sim onde ele está, a gente saiu pra surfar junto hoje no mesmo grupo’. Perguntei se podia ligar quando chegasse no hotel, ele falou ‘claro’. E obviamente eu estava em Honolulu, e o Guga em North Shore, o lugar da ilha onde os surfistas vão.

Cheguei no hotel junto com o cinegrafista Marcelo D'Sants e liguei pro Biro de novo e ele tentou me explicar onde era a casa onde o Guga estava hospedado. Só que ele falou ‘Você está a mais ou menos 3h daqui, você vai ter que fazer uma viagem, já está de noite, as coisas aqui não são tão bem sinalizadas, você corre o risco de se perder’. Eram 20h, 20h30, conversei com o Marcelo e falei ‘A gente tem pouco tempo aqui’. A gente tinha 2 dias no máximo pra encontrar o Guga e voltar pra São Paulo numa viagem longa a tempo de colocar o material no ar no fim de semana. Não dava pra perder tempo. Falei ‘Vamos agora pra pelo menos aprender o caminho’.

Ainda não tinha GPS no carro nessa época e no mapa, sem muitos problemas, a gente chegou no North Shore. Eu tinha anotado a explicação do Biro de como era a casa com referências. E chegamos num posto de gasolina que ele tinha me dito que existia ali. Cheguei lá e falei ‘Agora é melhor ligar de novo pra ter certeza de como faz pra chegar’. E ligo pra casa onde o Guga estava. Toca o telefone, atende uma pessoa e era o mesmo Biro. Aí ele dá risada e falou que tinha ido ali comer um sanduíche, aí eu percebi que eles estavam todos juntos.

Aí cheguei até a casa onde o Guga estava, pedi pra chamá-lo, ele saiu na varanda, me cumprimentou, a gente conversou um pouco, eu expliquei o que tinha acontecido e falei: ‘O meu compromisso é te perguntar só uma vez se você topa. Se você não topar, eu vou embora e não tem problema algum’. Ele falou: ‘Não tem problema, você só vai ter que me achar amanhã, a gente ainda não sabe onde vai surfar porque depende de previsão do tempo. Se quiser vir pra cá 6h, a gente vê’.

Voltei pra Honolulu, mais umas 3h de viagem, acordei por volta de umas 4h e voltamos pro North Shore no dia seguinte. E encontramos o Guga na praia e ali foi feita a entrevista, aquele encontro que aparece na matéria. Pedi licença pra uma senhora, ela cedeu a mureta pra gente fazer a entrevista. Eu devo a entrevista ao Biro.