<
>

ANÁLISE - Roland Garros: Nadia Podoroska e um aspecto pequeno, porém importante, sobre o porquê de a Argentina revelar tantos tenistas

Desde que entrou na chave principal de Roland Garros, Nadia Podoroska - primeira mulher a sair do qualifying e chegar às semifinais do Grand Slam francês - jogou dia sim, dia não a partida mais importante da sua vida.

Há um ano "La Rusa de Rosario" - embora a origem do sobrenome seja ucraniana - era a número 309 do ranking. No começo de 2020, subiu para 255. Logo em janeiro, ganhou os ITFs 25 mil de Malibu e Petit Bourg; em fevereiro, semifinal em Newport Beach; antes da paralisação do circuito, fez quartas em outro ITF 25 mil em Irapuato, no México.

O tênis parou, e ela teve que pegar um vôo de repatriação para voltar da Europa. Na primeira mínima oportunidade que enxergou, uma operação que contou inclusive com a embaixada Argentina na Espanha, Nadia retornou. Queria voltar a treinar o quanto antes.

Parênteses aqui: Podoroska vive em Alicante, onde treina com Emiliano Redondi (ex-350 na ATP) e Juan Pablo Guzmán (100º melhor do mundo em 2007). Há dois anos, ela se mudou para a Espanha contando cada centavo de Peso.

A história dela, nesse aspecto, se confunde com a de outros tantos tenistas sul-americanos que saem de casa definitivamente ou por longos períodos em busca de pontos e grana pra sustentar o sonho.

Podoroska morou muito tempo de favor, em casa de colegas, treinadores, amigos de amigos, até que meses atrás os bons resultados - e o dinheiro que ganhou após a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima - lhe permitiram enfim alugar um apartamento.

De volta ao circuito em agosto, Nadia Podoroska furou o quali de Palermo e fez semifinal de Praga, antes de conquistar mais um título na temporada, o ITF 60 mil de Saint-Malo, na França.

O que significa que, além dos três jogos do quali de Roland Garros e das cinco partidas na chave principal que a levaram até a semifinal, ela havia vencido outros cinco jogos.

Ou seja, ela não perdia havia 13 partidas até a derrota na semifinal de Roland Garros, nesta quinta, para a polonesa Iga Swiatek.

A foto da reportagem do jornal Ovación, de 2012, mostra Nadia Podoroska ainda menina - mas muito determinada - aos 14 anos, quando ela conquistou seus primeiros pontos no ranking profissional.

Desde muito cedo, ela buscou incessantemente o objetivo. Nascida em Rosário, terra de Lionel Messi, deu seus primeiros golpes no Club Fisherton, de onde saiu também Luciana Aymar, um ícone do esporte argentino, dona de quatro medalhas olímpicas e eleita oito vezes a melhor jogadora de hóquei na grama do mundo. "La Maga" é hoje nome da quadra de hóquei do clube, e uma homenagem parecida será feita para Podoroska, segundo o presidente do Fisherton.

A história de parte dos atletas que saem da Argentina, país historicamente com muito mais tenistas em posições privilegiadas de ranking que o Brasil, e se destacam no circuito profissional costuma ter paixão, garra, resiliência e muito foco.

Essa é também a fórmula da carreira de Nadia Podoroska. Ela agarrou cada oportunidade e tirou o máximo de cada uma delas.

Um breve exemplo aleatório de como as coisas funcionam: Hernan Gumy, ex-top 40, tem uma academia em Buenos Aires. Quem chega em busca de evolução, divide a quadra com o próprio Gumy. Boa parte dos que ali pisam sabem que é uma chance única, por isso o foco é total, a exigência não fica atrás. Alguns ali nunca tiveram uma experiência como aquela, com um cara desse tamanho. O trabalho é das 8 às 17h religiosamente. Não se leva celular para a quadra, não tem nada que desvie a concentração. O atleta sabe exatamente quem é o treinador.

De acordo com o nível de cada jogador. eles são divididos em quatro quadras, em que a 4 é para os tenistas de menor nível e a 1 para os melhores. Na quadra 1. está Horacio Zeballos, 3 do mundo em duplas.

O objetivo ao longo do período de permanência na "El Abierto" é evoluir da 4 para a 3, da 3 para a 2, da 2 para a 1 e trabalhar mais de perto com Zeballos. O que se ganha ali em algumas horas é o equivalente a dias de trabalho em um ambiente mais leniente.

Esta é apenas uma ínfima parte dos segredos, dos vários aspectos que ajudam a explicar a quantidade de tenistas argentinos no circuito. Nadia Podoroska e o gigante Diego Schwartzman, já mais consolidado (mas também em sua primeira semifinal de Grand Slam e mais novo membro do top 10) são os dois nomes do momento, mas os motivos para admirar o que se faz com tênis aqui ao lado são incontáveis.