Australian Open 2019, 3ª rodada: Após a vitória de 5 sets sobre Andreas Seppi, um esgotado Frances Tiafoe abaixa a cabeça, respira, arranca a bandana, a camisa e explode levanto a multidão ao delírio. (vídeo acima)
O gesto que ficou mundialmente famoso com Lebron James era mais do que uma imitação ou homenagem para chamar a atenção do ídolo da NBA.
Era um grito de liberdade. Um grito de quem batalhou muito para chegar onde chegou.
"Se eu tivesse a oportunidade de vida que outros tiveram, eu teria desejado tanto assim?", Tiafoe perguntou. “Eu me importaria tanto quanto me importo?”
A resposta está em sua história.
Enquanto crescia no subúrbio de Washington, DC, Frances Tiafoe passeava pelos terrenos do JTCC (Junior Tennis Champions Center), com uma raquete na mão, até encontrar a melhor competição.
Aos 6 anos, ele era muito jovem para enfrentar aqueles adversários, mas ele tinha idade suficiente para aprender.
“Ele assistia aos melhores jogadores e aos treinadores que estavam trabalhando, sempre estava completamente focado. Então ele ia até a parede dos fundos da instalação e imitava tudo o que tinha visto. Era um estudante do jogo”, lembra Vesa Ponkka, fundadora do JTCC, que atualmente atua como diretora sênior de tênis.
Era o típico caso do pobre garoto que se apaixonou pelo esporte de homem rico. Filho de um zelador do centro de tênis, Tiafoe usava roupas de segunda mão, enquanto as crianças ao seu redor chegavam ao complexo em Rolls-Royces com motorista.
Algumas dessas crianças inclusive provocavam Tiafoe.
"Seu dedão está saindo do buraco de seus sapatos - você precisa de um novo par!"
"Por que você está vestindo shorts cáqui aqui enquanto joga tênis?"
Hoje, aos 21 anos, simplesmente ri do que aconteceu.
Ele deixou de morar com seu pai e seu irmão gêmeo na sala de armazenamento do centro de tênis para viver um apartamento de luxo com uma vista incrível da orla sudoeste de DC.
E aquele garoto cujo figurino não tinha variedade foi apresentado recentemente em um perfil da GQ exibindo roupas caras e acessórios fornecidos por estilistas da moda, como Prada, Louis Vuitton, Fendi e Giorgio Armani.
Seu estilo agora corresponde ao seu jogo: feroz.
"As circunstâncias da minha vida mudaram definitivamente, mas aquelas piadas daquela época realmente doeram. Isso faz você sentir, no fundo da sua mente, que você não foi cortado do mesmo tecido.”
E em muitas maneiras, foi mesmo.
Constant Tiafoe e Alphina Kamara eram imigrantes de Serra Leoa que escaparam da guerra civil de quase uma década que começou no país da África Ocidental em 1991. Eles fugiram separadamente, mas se encontraram no subúrbio de Washington, DC, onde Tiafoe pai trabalhou como diarista, e Kamara, como enfermeira. Em 1998, em Maryland, Frances e Franklin nasceram.
Cerca de um ano depois, Constant Tiafoe começou a trabalhar na equipe de construção do centro de treinamento de tênis, localizado ao lado do campus da Universidade de Maryland.
Quando a obra foi concluída, ele foi contratado como zelador durante o dia. Para ganhar mais dinheiro, ele aceitou horas extras. Isso criou dias mais longos, levando-o a eventualmente converter um depósito ao lado da sala dos treinadores em um espaço para descansar à noite. Como Kamara trabalhava no turno da noite como enfermeira, as crianças passavam a maioria das noites com o pai no depósito.
"Era uma sala bem pequena", disse Frances “Havia duas mesas de massagem ali, meu pai dormia em uma delas, e eu e meu irmão éramos pequenos o suficiente para dividir a outra.”
Mas esse dia a dia não era realmente um desafio para os irmãos Tiafoe. Era a única vida que eles conheciam.
"É o que tivemos que fazer para sobreviver", disse Tiafoe. "Meus pais estavam tentando pagar as despesas, e Pops nos deu uma chance de estar em um bom ambiente depois da escola."
A vida luxuosa que era exposta aos irmãos no centro de tênis, naturalmente, acabou por gerar inveja. O sentimento foi constante até o dia em que eles viajaram a Serra Leoa pela primeira vez, com sua mãe, aos 8 anos.
Na viagem à África, Frances e Franklin perceberam que sua luta era minúscula em comparação à extrema pobreza que presenciaram nas aldeias de Serra Leoa.
"Pessoas viviam com as luzes apagadas por uma semana, tendo que tomar banho com água fria, apenas vivendo uma vida dura", disse Tiafoe. “A pobreza lá é loucura. Você vê isso na TV, e então você vê de perto é, como, caramba. As pessoas estavam realmente sofrendo e havia quase nenhuma esperança.”
Na volta, irmãos levaram para casa lições importantes que seu pai tinha colocado em suas cabeças:
Não se preocupe como outras pessoas vivem. E seja grato pelo que você tem.
“Apesar de toda pobreza, essas crianças não se perguntavam 'Por que eu?', e não sentem pena de si mesmas, embora eu sentisse pena delas", disse Tiafoe. “Aquilo era tudo que eles sabiam e estavam contentes. Então entendi que, como cidadão americano, eu tinha oportunidades e era capaz de fazer o que eu quisesse.”
E o que ele queria era ser tenista profissional.
O começo da carreira foi sob tutela de Misha Kouznetsov.
"Ele largou tudo para trabalhar comigo", disse Tiafoe. “Ele me levou a torneios, pagou minhas taxas de inscrição, me ajudou a ter sucesso. Foi uma rotina constante.”
Vindo da Pensilvânia, Kouznetsov estava procurando novos talentos para desenvolver, e já no primeiro dia Tiafoe chamou sua atenção.
"Ele não era mais talentoso do que as outras crianças de 8 anos que estavam lá", disse Kouznetsov. “Mas quando eu chegava para trabalhar de manhã, ele estava lá. Quando eu saía de noite, ele estava lá. Eu via uma criança que sempre estava lá e que eu poderia ensinar tanto tênis quanto eu quisesse.”
Três meses depois de conhecer Tiafoe, Kouznetsov colocou seu novo aluno para disputar torneios. E o garoto estava derrotando jogadores de sua faixa etária, e até mais velhos.
"Ele era maior do que a maioria das crianças da sua idade e também mais atlético", disse Kouznetsov.
Quando Tiafoe disse a seus pais que queria jogar tênis profissionalmente um dia, ele foi recebido com um suspiro incrédulo.
"Eles pensaram que eu era louco", lembrou Tiafoe. “Eles só queriam que eu estivesse na idade que estou agora com um diploma.”
Em vez de seguir o conselho de seus pais, no entanto, Tiafoe escolheu receber orientação do ator Will Smith, que ao longo dos anos inundou a Internet com vídeos de conselhos. Houve um que ressoou com Tiafoe:
"Não há razão para ter um plano B, porque isso desvia o plano A."
Tiafoe, aos 12 anos, colocou todas as fichas no plano A.
Aos 15 anos, se tornou o tenista mais jovem a vencer o prestigioso Orange Bowl, na Flórida.
Aos 16 anos, ele foi convidado para disputar o qualifying do US Open de 2014, apenas alguns meses depois de ser convocado para participar de uma sessão de troca de bolas com Rafael Nadal antes de Roland Garros.
Aos 17 anos, idade em que se tornou profissional, Tiafoe estreou em um Grand Slam. Como wild card, jogou a chave principal de Roland Garros.
Nessa época a carreira já pegava fogo dentro e fora das quadras. Em 2014 a Roc Nation Sports, de Jay-Z, começou uma perseguição ao futuro astro. Tiafoe foi convidado para a turnê “On the Run Tour” de Jay-Z e Beyoncé e teve a chance de sair com o poderoso casal antes e depois do show.
O flerte seguiu e em 2015 Tiafoe assinou com a Roc Nation, mas a mãe seguia ressabiada e preferindo a educação.
A convicção de Alphina veio mesmo em 2018 após o primeiro título do filho – e único até o momento – e a assinatura de mais um contrato. Dessa vez, com a Octagon, umas das principais agências esportivas do mundo.
"Estou muito orgulhosa dele" disse a mãe.
Em 2019 Tiafoe começou o ano surpreendendo e brilhando no Australian Open com uma campanha sólida até às quartas de final. A sequência da temporada foi instável e a chance se reerguer começa na próxima terça-feira, na estreia em Wimbledon contra Fabio Fognini.
Sempre com a mentalidade que trouxe o jovem americano até aqui.
“Estou vivendo o sonho que conto às crianças quando falo com elas: não é onde você está, é para onde você está indo. Seja obcecado em ser ótimo.”
