Sebastian Korda se sentiu emocionado quando entrou nos corredores do cavernoso Nassau Veteran's Coliseum na última semana e viu os enormes cartazes homenageando o time que já fez a arena famosa, os New York Islanders.
"Tem tanta história da NHL, é muito legal", disse Korda, do número 1 do mundo aos 17 anos, ao participar do New York Open pela primeira vez. "O estádio até parece uma arena de hóquei, é maravilhoso estar aqui."
Houve um momento em que Korda sonhava em patinar muitas noites de inverno em um uniforme da NHL. A partir dos 3 anos, ele era um rato do gelo que patinava cinco dias por semana e jogava em uma equipe que ficou em segundo lugar no hóquei júnior da América do Norte em sua divisão etária.
Então, uma coisa estranha e totalmente inesperada aconteceu.
Aos 9 anos, Sebi acompanhou seu pai, Petr, ex-campeão do Australian Open e então técnico de Radek Stepanek, na disputa do US Open de 2009. Sebastian ficou entusiasmado ao ver Stepanek perder uma divertida partida noturna com Novak Djokovic. Segundo Petr Korda, quando Sebastian voltou para casa, em Bradenton, na Flórida, ele disse: "Papai, mãe, eu não quero mais jogar hóquei. Eu quero jogar tênis."
"Escutei meu coração", disse Sebastian à ESPN. "Eu me apaixonei pelo tênis, com a atmosfera e entusiasmo naquela partida, e eu me vi fazendo isso pelo resto da minha vida."
Certamente a parte mais emocionante daquela ansiosa vida tenha começado na noite desta terça-feira, neste ATP 250, onde Korda jogou sua primeira partida profissional. Wild card graças à sua recente vitória no evento júnior no Australian Open e sua ascensão ao posto de número 1, Korda tomou o primeiro set de Frances Tiafoe, no dia que ele completava 20 anos. Depois, alguns erros de novato e a falta de força física permitiram que Tiafoe usasse o seu porte físico para prevalecer e vencer a batalha de virada, 4-6, 6-4 e 6-2.
Entre os observadores interessados no dia da abertura estava o ícone do tênis John McEnroe. Sua primeira palavra quando perguntou o que ele pensava de Korda foi: "Uau."
"Ele vai ser um jogador incrível", disse McEnroe à ESPN. "É muito bonita a maneira como ele atinge a bola. Ele tem um grande toque e já se move muito bem para um grande garoto magro que ainda não é muito forte."
Korda tem 1,93m e apenas 70 kg, dados que imediatamente evocam memórias do apelido, uma vez concedido ao seu pai Petr, de "Escova de dentes humana".
A decisão de Sebastian de deixar o hóquei (ele não patinou desde que começou no tênis) foi uma curve ball digna do craque do beisebol Clayton Kershaw. Mas nem Petr Korda nem sua esposa, Regina Rajchrtova, também ex-tenista, estremeceram. Todos os três filhos se tornaram atletas precoces, incentivados desde o início a explorar todos os esportes. (As duas meninas, Jessica e Nelly, são golfistas profissionais). Como disse Petr: "Patinação no gelo, taekwondo, golfe, esqui, hóquei. Fizemos tudo, tudo exceto o bale."
A perda do hóquei tornou-se a vitória no tênis. Mas não sem alguns momentos de ansiedade.
"Nós dissemos a ele: ‘Não será fácil. Você tem quase 10 anos e muitos já estão à sua frente’", disse Petr. "Mas também sabíamos que, se ele realmente adorasse, ele iria alcançar."
Com seus pais como seus principais treinadores, ele rapidamente se transformou em um talentoso tenista, logo entrando na elite júnior. O plano de jogo era surpreendentemente contra intuitivo, na medida em que faltava uma sensação de urgência. "Temos uma filosofia bem diferente", disse Petr. "Até o ano passado, no US Open, ele era o filho que não jogava duas vezes por dia, apenas uma vez."
Dean Goldfine, um técnico de desenvolvimento de jogadores da USTA (a Federação dos EUA de tênis), auxilia Petr e muitas vezes viaja com a família. "Petr foi ótimo por não se preocupar com resultados", disse Goldfine à ESPN. "Sebastian não viajou por todo o lugar. Para eles, era tudo sobre amar o jogo e trabalhar duro."
Outra coisa estranha, inesperada, aconteceu no final do ano passado. Sebastian estabeleceu um objetivo. Ele decidiu conquistar o título júnior do Australian Open de 2018 para comemorar o 50º aniversário de Petr justamente 20 anos depois de seu título em Melbourne. E por que não? Uma das filhas de Korda já havia colocado uma taça do Aberto da Austrália na bagaem: Jessica Korda, agora com 24 anos e 24ª colocada no LPGA Tour, ganhou o evento de golfe quando tinha apenas 18 anos (a irmã Nelly, 19, aparece no 64º lugar na LPGA).
Ainda era uma aposta ousada, dado que Sebastian não ganhara mais de duas partidas no punhado de eventos juniores do Grand Slam que ele havia entrado antes de Melbourne. Claramente, carinho familiar e lealdade são poderosas forças inspiradoras nos Kordas.
"Jessica é mais uma figura materna para mim, por que ela é cerca de sete anos mais velha", disse Sebastian. "Nelly e eu somos apenas melhores amigos. Se brigamos, é raro. Passamos muito tempo juntos e temos amigos em comum."
Sebastian sempre faz questão de lembrar aos jornalistas as realizações de sua mãe, bem como o papel que desempenhou na formação de seu jogo. Ele não é apenas um bom filho; se o seu golpe parece um legado paterno, sua altura e temperamento suave evocam sua mãe. Ele disse: "Quando meu pai estava viajando com Radek, minha mãe batia bola comigo e sempre me ajudava."
Os dias em que Petr conseguia vencer o filho em quadra ficaram no passado. A primeira vitória de um filho sobre um pai realizado é muitas vezes um marco de desenvolvimento, mas Sebastian evitou. Os dois nunca jogam sets. Sebastian sabe que pode vencer o pai, mas, como ele mesmo disse: "Eu não quero."
Ao ouvir a frase, Petr permitiu um sorriso. Seu próprio pai era um jogador top 30 na então Tchecoslováquia, e Petr não queria vencê-lo. "Meu pai me deixou estar sob sua asa - eu sabia disso", explicou Petr. "Quando chegou a hora, ele me deixou voar. É isso que eu também estou tentando."
Embora esquisito, Sebastian parece perfeitamente construído para o jogo de hoje, com sua semelhança ao número 4 do mundo, Alexander Zverev, de 20 anos. Ambos são ágeis para os homens mais altos, capazes de se antecipar ao saque, e com poder de machucar os rivais no fundo da quadra.
Sebastian não apenas mostrou todo seu talento natural para o título júnior em Melbourne, em janeiro. "O que me deu um click foi o trabalho depois do fim da temporada", disse ele. "Isso me ajudou muito. Eu estava me divertindo mais por causa disso."
Esse "trabalho" incluiu treinamentos mais intensivas e uma dieta pesada de eventos Futures e Challenger após o último US Open.
"Ele teve bons resultados", disse Goldfine. "O sucesso em um nível superior ajuda você a ganhar confiança. Ele cresceu muito [fisicamente]. Ele está ficando mais forte. Isso leva tempo."
Mesmo que ele já não tenha futuro no hóquei, Sebastian parece já ter feito um golaço nas quadras de tênis.
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