"João Fonseca é um sonho de consumo para ter um ídolo no Brasil".
Enquanto o tenista brasileiro de 18 anos se prepara para fazer sua estreia no Masters 1000 de Cincinnati, torneio que tem transmissão pela ESPN no Disney+, o presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) está no Brasil acompanhando os torneios realizados em solo nacional e pensando como ajudar a nova geração a chegar nos grandes palcos da modalidade.
Alexandre Farias, que assumiu o cargo em março, concedeu uma entrevista exclusiva à ESPN e detalhou os planos da entidade, que não envolvem apenas João e Beatriz Haddad Maia, protagonistas e principais nomes do Brasil nos rankings da ATP e WTA.
João Fonseca e Bia Haddad
“O João Fonseca é o sonho de consumo para que nós possamos ter um ídolo no Brasil. Depois do Guga e do Ayrton Senna, o Brasil carece de títulos e de ídolos. A gente torce muito pelo sucesso do João, porque eu acho que ele pode dar muitas felicidades para o povo brasileiro.”
“Evidentemente, nós (CBT) estamos próximos (da equipe de João). A gente está acompanhando o trabalho e acredita muito no potencial dele. Estamos extremamente tranquilos com todos os resultados que ele já conquistou. É um processo de evolução, ele só tem 18 anos, e nenhuma derrota dele vai nos tirar a esperança de que ele possa ser um grande tenista e conquistar grandes resultados.”
“Claro que vai depender muito do trabalho dele e da equipe dele. Mas eu sei que eles estão no caminho certo. Estão fazendo tudo aquilo que tem que ser feito. O João, apesar de ser jovem, é extremamente maduro.”
“A Bia Haddad é uma menina fantástica. Ela tem muito potencial e muita coisa para dar ainda, ela sabe disso. Passou por um momento de resultados ruins, mas acredito que já se recuperou. Ela gosta do que faz. Então, tenho certeza de que ainda vai ser inspiração para as meninas que estão vindo aí.”
Essa nova geração, inclusive inspirada por Bia, é uma das grandes prioridades da CBT, que planeja trazer mais torneios para o país.
Mais torneios no Brasil
“Nós já temos um ATP 500 no masculino (Rio Open) e vamos ter um WTA 250 no feminino (SP Open). Isso é fundamental, mas quem sabe mais uns três 125, não é? Acho importante, principalmente o feminino. Nós temos duas meninas aí que, dentre outras — para não cometer injustiça —, são a Naná (Nauhany Silva, de 15 anos) e a Vitória (Barros, da mesma idade), que estão vindo muito bem. Então, é importante elas começarem a ter essa iniciação nesses grandes torneios aqui no Brasil. De repente, a gente conseguir wildcard, porque elas não vão ter pontuação (ranking) suficiente.”
Em 2024, o Brasil recebeu, além do Rio Open, um WTA 125 em Florianópolis (SC) e também oito challengers (todos abaixo de 125). Além disso, os torneios da Federação Internacional de Tênis (ITF), que formam o nível de acesso ao tênis profissional, também estão na mira de Farias.
“M25, W25 e W50 — eu acho que todos os torneios possíveis, e dentro da nossa realidade financeira, a gente tem que tentar trazer pro Brasil.”
Em 2024, o país recebeu 10 torneios ITFs no masculino e 13 no feminino. Para o presidente da CBT, esse volume de competições internacionais pode aumentar.
“A gente já está tendo, durante alguns anos, bons torneios, e isso tem facilitado com que os nossos atletas não viajem tanto, porque o custo é altíssimo. Temos que entender que somos um país pobre, então você gastar em real e ganhar em dólar com os torneios no Brasil é muito mais interessante do que gastar em dólar e, às vezes, não conseguir ganhar em dólar."
“Então, a gente tem que proporcionar para os nossos atletas, principalmente de alto rendimento, grandes torneios a nível de Brasil. Isso é fundamental também. A gente vai intensificar. Já estamos fazendo contato com vários players do mercado, com vários promotores, e a própria Confederação também quer trabalhar na construção de novos torneios. A gente sabe que o mercado depende de autorizações da ITF, ATP e WTA, mas acho que vamos conseguir. Talvez a gente chegue numa limitação de torneios, mas temos que saber qual é o nosso limite. E, sabendo qual é o nosso limite, a gente tem que buscar sempre alcançá-lo.”
'Maior problema do tênis brasileiro é a questão física'
Além dos torneios, o presidente tem um outro foco bem para trabalhar e desenvolver no tênis brasileiro — sobretudo entre os atletas que ainda estão em formação.
“O Edu Faria, nosso preparador físico da CBT, vai estar conosco na Copa Davis, e a gente vai poder entender um pouco mais os nossos atletas do ponto de vista de estrutura física e muscular. Na minha opinião, o maior problema da transição no tênis brasileiro é a questão física, de aguentar devolver mais uma bola. Todos os novos atletas que chegam com 16, 17 e 18 anos chegam jogando um bom tênis.”
O desenvolvimento físico dos atletas será uma das grandes prioridades também da nova gestão da CBT.
“O Brasil tem um programa muito legal de capacitação de treinadores e está entrando agora numa área também de preparação física. Esse é o momento de a gente aproveitar e também capacitar os preparadores físicos e capacitar pais de atletas — principalmente o pessoal do kids, que está iniciando aos 11 e 14 anos. Os pais também precisam entender o que é a modalidade.”
'Unificar o tênis a nível de Brasil'
Disseminar o tênis por todo o Brasil e unificar a modalidade também estão nos planos de Farias.
“Não abro mão de criar projetos de massificação de tênis pelo país. Assim que nós assumimos, encaminhamos um ofício a todas as federações para entender o que cada uma está fazendo no seu estado, porque existem estados muito promissores em que o tênis já está sedimentado — como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas e Rio —, mas existem outros estados que precisam de um pouco mais de apoio. Precisamos tentar unificar o tênis a nível de Brasil.”
“Precisamos de união, e isso faz parte também do nosso planejamento estratégico. Chega de divisão. Não acho que a gente vá conseguir resolver o problema que, às vezes, o tênis — por ser um esporte individualista — carrega. O Brasil tem isso: o treinador e o atleta dele às vezes só se encontram entre eles, diferente do que a gente vê na Argentina.”
“Então, isso também se torna um grande desafio: trabalhar essa união de atletas, trabalhar essa união de técnicos, para que a gente possa caminhar e ter um programa que todo mundo possa estar incluído. Não necessariamente uma metodologia única, porque acho que, dessa forma, vamos conseguir os melhores resultados.”
'A CBT não vai captar recurso via Lei de Incentivo'
Para trabalhar essa união e alcançar esses objetivos, Alexandre Farias também revelou alguns posicionamentos sobre um eventual centro de treinamento nacional e também sobre a Lei de Incentivo ao Esporte.
“Não sei se, pelo tamanho do Brasil, a gente conseguiria ter um centro nacional de tênis. Sei que é um desejo de muitos ex-tenistas, mas não sei se hoje é a solução. A solução passa por manter, ampliar e criar novas perspectivas nessa área de capacitação (de treinadores). Cada qual, dentro do seu estado, está desenvolvendo e buscando novos talentos.
“Pode ser até que, no futuro, se tenha isso, mas qual é a dificuldade que eu vejo? Financeira. Manter um centro de treinamento hoje custa muito caro. Esse dinheiro, para manter um CT, a gente pode utilizar de melhor forma para incentivar os nossos atletas — às vezes até mesmo para viajar mais — e fazer investimentos pontuais, tanto nos atletas quanto na área de capacitação.”
“Se depender de mim, a CBT não vai fazer projetos para captar recurso via Lei de Incentivo. Por quê? Porque eu tenho uma responsabilidade como gestor, e é o meu CPF que está envolvido. Eu não sou muito adepto, mas posso ajudar as federações, se elas tiverem interesse, e os promotores, a buscarem essas alternativas para fomentar o esporte no Brasil. Talvez, numa situação muito pontual, a gente possa até buscar, mas eu não sou muito favorável nesse momento.”
Questionado sobre o motivo dessa posição contrária a captar recursos através da Lei de Incentivo, Farias esclareceu:
“Às vezes, vai levar dois ou três mandatos para estarem julgando as minhas contas. Eu não quero ter problema daqui a dez anos com prestação de contas. Então, não teria hoje interesse em fazer essa captação para investir em qualquer situação na Confederação. A gente tem uma estrutura bem definida, e qualquer recurso seria bem-vindo, mas, se a gente puder continuar fazendo o trabalho que estamos fazendo com aquilo que temos, eu já fico muito satisfeito.”
