OPINIÃO: Amanda Anisimova e a diferença entre direito e privilégio

Eventos esportivos como a final de um Grand Slam são tão cativantes porque são imprevisíveis. A capacidade de surpreender e emocionar é parte da magia do esporte e um dos motivos pelos quais esportistas de altíssimo nível são admirados por todo o planeta. Eles são o melhor do melhor que podemos produzir como humanos, mas jamais se deve esquecer que são humanos, feitos dos mesmos tecidos de qualquer atleta de fim de semana.

Se todas as decisões de Grand Slam fossem como a última final masculina de Roland Garros, em pouco tempo haveria gente se levantando das cadeiras pelas quais se paga caro. Em mais tempo, haveria quem chegasse apenas para o quinto set. Em mais tempo, pouca gente assistiria. É preciso entender que, de um certo ponto de vista, aquele jogo extraordinário é o que é por causa de ocasiões como a final feminina de Wimbledon, que durou menos de uma hora. Se não for possível entender, é obrigatório, ao menos, respeitar.

Amanda Anisimova é a sétima melhor tenista do mundo. Questionar sua qualidade como tenista é bizarro, especialmente quando quem aponta o dedo são pessoas absolutamente comuns - para fazer uma qualificação elogiosa - em suas áreas de atuação. Foi o que se viu em redes antissociais no último sábado (12), quando a americana de 23 anos foi derrotada por seus próprios fantasmas na quadra de tênis mais imponente do mundo e não pôde evitar o constrangimento de amargar um duplo 0/6 para Iga Swiatek.

Houve "especialistas" em tênis ignorantes a ponto de criticar Anisimova por ter feito "um papelão", como se, de alguma forma, ela pudesse controlar o processo interno que a tornou incapaz de competir minimamente e transformou o dia mais importante de sua vida num motivo para chorar e pedir desculpas.

O que aconteceu no sábado não tem absolutamente nada em comum com um cantor que se apresenta embriagado ou uma atriz de teatro que não sabe suas próprias falas. Apontar Anisimova, ou qualquer atleta, como alguém que deve algo ao público porque o ingresso é caro não é nada mais do que um patético exercício de prepotência.

Pior ainda é dizer que uma finalista de Wimbledon "não tem preparo mental" para este estágio. Se fosse necessário explicar, Anisimova eliminou Aryna Sabalenka na semifinal, quebrando o serviço da melhor tenista do mundo no último game do jogo. Ninguém, absolutamente ninguém, alcança uma final de Grand Slam sem preparo mental. O que não significa, embora pareça o contrário após tantas e tantas exibições de força em todos os sentidos, que não estejam sujeitos a falhar. Episódios dessa natureza acontecem com todos, sem exceção, neste esporte cruel.

O público é essencial para o esporte. Não é exagero dizer que nada faz sentido sem a presença das pessoas, no local ou à distância, conectadas e se sentindo parte do espetáculo. Mas a direção dessa relação não é o "direito de quem paga caro" a ser entretido e ficar satisfeito, mas o privilégio de quem quer - e pode - pagar para ver de perto a grandeza dos maiores esportistas do mundo. Há muita gente confundindo as coisas.

Quem quer garantias de desempenho numa final de Grand Slam não faz falta nenhuma a um evento desse porte. É melhor ficar em casa, pegar um filme antigo e assistir em loop. A experiência será sempre a mesma.