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Por que punição de Sinner por doping revoltou tenistas; especialista explica polêmica

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Punição de Sinner por doping foi mais "branda" por que ele é nº 1 do mundo? Especialista em direito desportivo opina (2:59)

Dr. Marcel Belfiore, sócio do Ambiel Advogados, concedeu entrevista exclusiva para a ESPN para falar sobre o doping de Jannik Sinner (2:59)

Nesta terça-feira (20), Jannik Sinner e sua equipe divulgaram que o tenista italiano, número 1 do mundo, foi flagrado no exame antidoping em março, e revelaram que sua punição foi a perda dos pontos e premiação financeira conquistados no Masters 1000 de Indian Wells, torneio em que os testes foram realizados.

Sinner testou positivo para Clostebol, anabolizante proibido pela Agência Mundial Antidoping (WADA), em duas ocasiões, nos dias 10 e 18 de março. Nesse momento, a defesa do atleta conseguiu anular as suspensões provisórias nos dois exames ao explicar que a contaminação aconteceu porque o fisioterapeuta do italiano tinha usado um remédio para um corte no dedo e, ao realizar as massagens sem luva, acabou transportando a substância para líder do ranking da ATP.

Responsável pela investigação, a Agência Internacional de Integridade do Tênis (ITIA) aceitou essa versão porque as quantidades da substância eram mínimas nos dois testes e conduziu uma investigação minuciosa. Esse processo foi concluído apenas na semana passada, quando um tribunal independente, organizado pela empresa britânica Sport Resolutions, julgou que Jannik Sinner não teve culpa nem negligência no caso e, por isso, optou pela penalidade da perda dos pontos e da premiação de Indian Wells, escapando de uma suspensão.

A punição mais "branda" levantou uma polêmica muito grande e diversos tenistas se manifestaram sobre o caso. Um deles, o australiano Nick Kyrgios finalista de Wimbledon em 2022, postou em suas redes sociais.

"Ridículo. Independente se foi acidental ou planejado. Se você é testa positivo duas vezes para uma substância positiva (esteroide), você deveria ser banido por dois anos. Sua perfomance foi melhorada. Creme de massage. Tá bom, legal."

Fernando Meligeni, ex-top 25 do mundo e atual comentarista da ESPN, também escreveu em seu instagram.

"Aprendi no tênis, desde que entrei, que pouco importa à ATP o seu ranking, seu país ou quem você seja. Se algo é encontrado no seu corpo, você automaticamente é responsável por isso. Você pode até alegar inocência e ter razão, mas ainda assim enfrentará uma punição mínima. Quando eu jogava, vários argentinos, brasileiros e outros sul-americanos foram pegos. Eles eram jogados aos leões com rigor e sempre ouvíamos a mesma frase: “Você arca com o que tem dentro do seu corpo.” E os tops? O tratamento é igual?"

Procurado pela ESPN, o especialista em Direito Desportivo, o Dr. Marcel Belfiore, sócio do Ambiel Advogados, explicou como é a regra básica para esses julgamentos de doping em uma entrevista exclusiva após o caso do Sinner ser revelado.

"O atleta é responsável por tudo que entra no seu corpo, independente da intenção, culpa ou negligência. A partir do momento, que o atleta faz um exame, com sua amostra de urina, e é detectada uma substância proibida, a conclusão é que existe uma infração antidopagem. Então, o atleta tem o dever de demonstrar como essa substância entrou no seu corpo. A partir daí, se existe um grau de culpa ou negligência significativa, a pena pode ser aumentada ou reduzidada ou mesmo anulada."

"No caso do Sinner, estamos falando de situação em que o atleta não sabia ou não teria como saber de forma razoável da substância. Parece que o tenista conseguiu demonstrar isso a ponto de ser eliminado qualquer suspensão para ele. Isso não é simplesmente contar uma historinha e convencer o tribunal. Essa decisão é baseado em opiniões de especialistas. A história tem que ser plausível e Isso é identificável pela quantidade de substância na corrente sanguínea dele."

Depois da divulgação do caso, tanto Associação de Tenistas profissionais (ATP), que organiza o circuito de tênis masculino, e a própria ITIA, confirmaram que a investigação foi minuciosa e as quantidades muito baixas, defendendo a conclusão do tribunal. No entanto, essas declarações não acalmaram a revolta de outros ex-tenistas, como o brasileiro Jaime Oncins, ex-top 50, que postou uma foto escrito VERGONHA em seu instagram.

"ATP e a ITIA deixam bem claro que a regra e a rigidez não são as mesmas para todos. Quem aqui em sã consciência tem alguma dúvida que se a mesma coisa acontecesse com um jogador sul-americano esse não seria punido de uma maneira exemplar? Jogadores no passado expostos e penalizados, imagino o que devem estar pensando agora."

O Dr. Belfiore entende a revolta dos outros tenistas, mas esclareceu que o procedimento não tem uma regra clara de que a constação de uma substância proibida automaticamente já tem uma punição pré-determinada.

"Em todas as hipóteses, independente da substância, cada caso é tratado individualmente. Algumas substâncias são classificadas em um grupo que é proibido a todo momento, como os anabolizantes, cuja pena base é de 4 anos. Mesmo assim, se o atleta demonstrar que não teve culpa ou negligência na forma como essa substância entrou no seu corpo, ele pode reduzir a pena ou até eliminá-la."

Além disso, o advogado especialista em direito desportivo, não acredita que o Sinner tenha recebido esse julgamento por ser o atual número um do mundo e ser da Itália.

"Atualmente, há uma série de decisões como essa da Corte Arbitral do Esporte (CAS). Nós não estamos falando de um caso totalmente novo. Existem decisões semelhantes a essa, que envolvem atletas de expressão menor que o Sinner, e que criam precedentes. Essa decisão segue uma linha de decisões que a Corte Arbitral vem tomando, independente de quem é a pessoa. Chamaria atenção se a decisão fosse contrária (suspensão alta) a esses precedentes, por ser o Sinner e não ser um atleta russo ou um sul-americano."

No processo, publicado pela ITIA, a defesa do Sinner argumentou com 5 casos que servem como precedente para essa punição. Entre eles, uma evolvendo o também tenista italiano Marco Bortolotti. O duplista também testou positivo para Clostebol em outubro do ano passado e, em março, a ITIA também chegou a conclusão que ele não tinha culpa e nem negligência no caso, escapando também da suspensão.

Por outro lado, outros casos no tênis tiveram suspensões por contaminações acidentais de anabolizantes. Beatriz Haddad Maia ficou suspensa por quase um ano após sofrer com uma contaminação cruzada em uma farmácia de manipulação.

A punição de Sinner ainda pode ser apelada pela WADA e pela Agência Antidopagem da Itália (Nado Italia) e também revoltou tenistas que estão no circuito.

"Não consigo imaginar o que todos os jogadores que foram banidos por substâncias contaminadas estão sentindo agora. Diferentes regras para diferentes jogadores.", disse o canadense Denis Shapovalov, número 105 do ranking da ATP.

Lucas Pouille, da França e que também já foi número 10 do mundo, também escreveu no X: "Talvez devêssemos parar de nos considerar idiotas, certo?".

Independente da polêmica, Sinner foi campeão do Masters 1000 de Cincinnati na última segunda-feira, e deve ser o principal cabeça de chave do US Open, que começa na próxima segunda-feira (26) com transmissão de todas as quadras no Disney+.