Realidade dos tenistas longe do topo é bem diferente de Nadal, Djokovic e cia
Por quase o tempo inteiro, Kiranpal "KP" Pannu diz às pessoas o que ele faz para viver. Ele é bombardeado com o glamour que sua vida de tenista profissional oferece a ele. Acontece quase todo dia.
"Infelizmente, todas estas conclusões estão erradas", comentou Pannu, enquanto suspirava profundamente: "E eu sempre fico: 'Se vocês soubessem como normalmente é...'"
Em 2022, Pannu ganhou U$6.771 (R$35 mil reais na cotação atual) em premiações. Mas, seus custos, principalmente de viagem, acumularam em U$34.500 (R$177 mil reais).
KP encontrou outros jeitos de fazer dinheiro, principalmente ensinando outros atletas, e, para guardar dinheiro, dividia algumas acomodações com outros jogadores enquanto vivia sem seguro de saúde.
Tudo isso constrói uma vida complicada, cheia de incertezas e insegurança financeira.
"É difícil realmente me considerar um profssional quando eu não consigo me sustentar aos 25 anos", comentou Pannu: "Eu tenho sorte que meus pais estão em uma posição em que conseguem me ajudar. Eles não me salvam de tudo, mas eles fazem o que podem e são cruciais para onde eu cheguei."
Pannu terminou sua temporada como número 664 do mundo e sua experiência é única nestes meandros mais baixos do cenário profissional do tênis internacional.
Treinar outros jogadores, continuar seus esforços e viajar é exorbitantemente caro. Isso combinado as premiações baixas em pequenos eventos e falta de oportunidades para patrocínio, produz um sistema financeiro persistentemente tenso. Isso também impacta diretamente no próprio jogo, porque, enquanto os jogadores de grande nome levam toda sua equipe aos campeonatos, os de nível mais baixo, às vezes, acabam nem levando o seu único treinador aos eventos. É muito mais difícil para vencer sem este suporte, criando uma diferença gigante de qualidade entre estes atletas com classificações mais baixas.
"O problema mais comum de todo mundo fora do top 100 do raking mundial é a questão financeira e o estresse que tudo isso causa", comentou Vasek Pospisil, campeão da categoria de duplas masculinas do Wimbledon, em 2014: "Eles tentam fazer suas viagens e precisam decidir onde cortar parte de suas despesas, muitas vezes não conseguindo fazer todas as viagens que gostariam... E é um efeito bola de neve. Fica pior ainda para os jogadores de níveis mais baixos, porque eles tem cada vez menos recursos."
Como os jogadores de tênis são pagos
Estes que perguntam ao jogador Pannu sobre seu trabalho normalmente fazem a pergunta pensando nos jogadores que dominam os Grand Slams e não nestes que estão em rankings mais baixos. Novak Djokovic, Rafael Nadal e o recém-aposentado Roger Federer ganharam mais de U$130 milhões (R$665 milhões) em premiações ao longo de suas carreiras e Serena Williams, que parou de jogar em setembro, conseguiu U$95 milhões (quase R$500 milhões). Carlos Alcaraz e Iga Swiatek, primeiros de seus respectivos rankings (ATP e WTA) no ano passado, ganharam quase U$10 milhões (R$52 milhões) em quadra, incluindo um bônus da ATP para Alcaraz. Durante a temporada de 2022, 97 jogadores (58 homens e 39 mulheres) conseguiram mais de U$1 milhão (R$5,2 milhões).
Todo campeonato anuncia o tanto de dinheiro em premiação que terá, com algumas variáveis dramáticas dependendo do tipo de evento que acontece. No Australian Open deste ano, para quem perder logo na primeira rodada, o pagamento será de U$73.375,72 (R$375.555), com o campeão dos simples recebendo U$2,05 milhões (R$10,49 milhões).
Por conta da grande quantia em potencial, os jogadores tentam competir nestes campeonatos de peso mesmo quando estão contundidos. Em Roland Garros de 2022, Facundo Bagnis apareceu na primeira rodada com uma gigantesca proteção (e problema) na panturrilha. Ele claramente tinha problemas de mobilidade, mas recebeu U$65 mil (R$332 mil) na derrota para Daniil Medvedev.
Os pagamentos e pontos do ranking caem de valor de acordo com o nível do torneio. O Masters de Indian Wells é Masters 1000, um nível abaixo dos Grand Slam, e ofereceu U$426.01 (R$2,180 milhões) de premiação ao campeão. O perdedor da primeira rodada voltou para casa com U$17.580 (perto de R$90 mil). Nesta semana, no ASB Classic, de Auckland, um torneio de nível inferior (250), o vencedor conseguiu U$97.760 (R$500 mil) e a vencedora U$34,228 (R$175 mil), com os perdedores dos primeiros jogos recebendo U$6,895 (R$35 mil) e U$2.804 (próximo de R$14.35 mil), respectivamente.
O segundo nível do tênis internacional masculino é o ATP Challenger Tour, para o feminino é o WTA 125 series. Há também o ITF Tour para ambas as categorias. Em 2022, o pagamento deste campeonato feminino era entre U$50 (R$255), até U$15.239 (R$78 mil) para quem fosse campeã. Brenda Fruhvirtova, que ganhou um dos maiores torneios da ITF, em 2022, conseguiu um total de U$43.071 (R$220,45 mil) no ano.
O dinheiro de premiação nas duplas é menor em todos os eventos e vários jogadores participam dos campeonatos de simples e duplas, para aumentar seu potencial ganho.
Alguns jogadores, particularmente aqueles que estão apenas começando, são capazes de encontrar um benfeitor que contribui com uma quantia fixa de dinheiro uma vez ou anualmente para ajudar a compensar o custo das despesas. Depois da final do Australian Open de 2022, a tenista Danielle Collins fez aquele agradecimento mais famoso para Marty Schneider, que a patrocinou e foi mentor financeiro dela. Pannu disse que uma ajuda da Columbus State University, onde jogou, deu a ele, aproximadamente, U$20 mil (R$110 mil) em sua primeira temporada como profissional.
"Eu não diria que foi para o ano, mas foi o bastante para que eu continuasse", Pannu comentou.
Muitos jogadores estão em mais de um emprego, incluindo Pannu, que, em certos momentos, opta por deixar de participar de alguns torneios para fazer dinheiro treinando outros jogadores. Durante estas semanas ele "trabalha o quanto pode", na esperança de fazer algo em torno de U$800 (R$4.600).
E há também os patrocínios. Em rankings menores, alguns jogadores tem acordos que fornecem produtos gratuitos, mas sem compensação financeira. Vicky Duval, que acabou a temporada 2022 na 413ª colocação, fez um acordo com a Head e Oakley desde sua juventude. Ela já teve uma parceria com a Asics, sem pagamento, e continua devota aos seus calçados, mas que acabou porque a empresa disse que não tinha mais dinheiro para isso. Ao invés disso, outro(a) jogador(a) com um contrato com a Asics e com o mesmo tamanho de tênis, que Duval se recusou a dizer o nome para que não cause nenhum problema em seu contrato, dá alguns tênis e outros equipamentos para a tenista.
Os gigantescos e incertos custos
Os jogadores são responsáveis por pagar seus próprios transportes para e durante os torneios. Isso serve para a comissão técnica que o jogador é responsável, incluindo treinadores e médicos. As acomodações são garantidas ou subsidiadas para os jogadores em majors e challengers da ATP e WTA, mas, em torneios menores, com o ITF tour, a responsabilidade é inteira dos jogadores, principalmente por suas acomodações.
Pospisil acabou a temporada de 2022 na 98º colocação e conseguiu garantir acesso ao Australian Open, algo que pode ser um grande diferencial financeiro nesta temporada.
Mas Pospisil estimou que vai gastar algo próximo de U$30 mil (R$164 mil) no ano, com viagens para si mesmo, técnico e fisioterapeuta. O jogador gostaria de levar seu personal trainer para Australia, mas seria um acréscimo considerável em suas despesas. Permaneceu na classe ecônomica e o trio vai compartilhar um apartamento no Airbnb porque é mais barato do que ficar em hotéis individuais.
Ele fez um "pedido educado" e conseguiu a hospedagem por seis dias, durante o torneio. Se ele permanecer no campeonato, terá que achar outro lugar para ficar com o seu time.
É claro que Pospisil sabe que ele vai ganhar algum dinheiro, não importa o que irá acontecer. Para outros, isso não é dado. Jamie Loeb, que terminou na 265ª colocação, não tem certeza se consegue a classificação por ranking no tonreio de Melbourne. Loeb saberá alguns dias antes de sair de sua casa, em New York, fazendo a viagem ser mais custosa ainda.
"Isso é difícil de planejar com base no prêmio de campeão, localidade, os pontos, entender se isso vai ser benéfico ou não pelo número de pontos. Há muito de desconhecido e é exaustivo.", comentou Loeb em Novembro.
Ultimamente, Loeb, 27 anos, está longe das colocações que dão acesso ao qualifying e ela começou a temporada no evento ITF, na Califórnia. Ela venceu o título e ganhou U$3.935 (R$20 mil), menos de U$14 mil (R$71 mil) se tivesse chegado ao Australian Open e perdido na primeira rodada. Mas conseguiu 50 pontos no ranking com este sucesso. Um jogador ganha apenas 40 pontos por vencer as três partidas de qualificatória e chegar na parte principal do torneio.
Loeb normalmente esteve em torneios de nível ITF, em 2022, e quase em todos ela teve as mesmas questões: Onde e quanto vai custar para ficar aqui ou ali? Será que o ranking dela garante a presença dela no campeonato ou precisa de um qualificatório? Qual a premiação em dinheiro? Quantos pontos pode ganhar?
Para guardar dinheiro, particularmente aos eventos em que não há acomodação, Loeb permanece com famílias anfitriãs em alguns campeonatos e compartilha quartos com alguns outros jogadores. Às vezes isso gera um mal estar e momentos complicados quando precisam jogar entre si. Ela não tem mais seu próprio apartamento. Vive na casa dos seus pais quando não está rodando o mundo.
A jogadora já venceu dez títulos do ITF Tour durante sua carreira, com a maioria, incluindo o evento na California, chegando na casa dos U$25 mil (R$163 mil reais). Mas disse que isso é, normalmente, mal lido.
"As pessoas acham que se você vence um torneio e recebe U$25 mil (R$163 mil reais), é isso que você ganha, mas eu sempre falo que é um erro gigantesco", comentou Loeb: "Este tanto de dinheiro é dividido por todos, mais taxação, mais os custos durante o torneio. Na maioria das vezes você perde dinheiro nestes campeonatos, mesmo se você ganha, a não ser que você fique na casa de alguém ou não leve seu técnico para os torneios."
Como Pannu, Loeb frequentemente viaja sozinha e faz sua própria logística de tudo, principalmente o extra-quadra. Ou seja, isso implica em planejar e agendar quadras para praticar seu jogo, transporte, acomodação, preparar e comprar comida de qualidade, visando manter seu preparo físico.
Nos eventos menores, coisas simples como bolas de tênis para praticar e água não são distribuidas. Por isso os jogadores são responsáveis em pensar nisso também.
Também há um problema relacionado ao convênio médico. WTA e ATP oferecem dois tipos de planos de saúde aos jogadores, que se diferenciam em seus rankings, com diferentes categorias de cuidados médicos. Enquanto o custo pago anual é menor para jogadores em rankings mais baixos, cada pagamento médico cresce dramaticamente, de acordo com os jogadores. A WTA se recusou a dar valores, mas Duval disse que os valores quase triplicam.
Como resultado, vários jogadores fora do primeiro plano procuram outros planos de sáude. Duval e Loeb têm seu próprio plano de saúde. Outros jogadores estadunidenses continuam no convênio médico dos pais até os 26 anos. Pannu, que representa a Nova Zelândia, mas fica em Atlanta, pagava algo próximo de U$400 (R$2.200) por mês, mas decidiu que não consegue pagar este valor e hoje está sem plano de saúde. Ele não nega os pensamentos persistentes de "E se?" que ocasionalmente tomam sua mente.
Pannu disse que ele iria "implorar" para nenhuma ambulância ser chamada caso ele sofresse alguma contusão séria durante uma partida.
Ex-finalista do US Open juvenil, Tornado Alicia Black foi manchete em 2017 por criar uma 'vaquinha' para os custos de sua cirurgia no quadril, já que seu plano de saúde não cobria o procedimento cirúrgico. Para jogadores como Duval e Loeb, há questões sobre o que faria se precisasse de uma emergência médica em um país estrangeiro com seus convênios atuais.
"Eu sei que alguns médicos não serão tão bons porque estão com o meu plano de saúde", comentou Loeb: "E talvez eu não tenha o melhor tratamento que eu poderia".
O efeito no desempenho dos jogadores
Com tudo isso acontecendo nso bastidores, pode ser difícil para um jogador estar em seu melhor no momento que precisa jogar uma partida.
"É um constante fardo", comentou o tenista Noah Rubin, que recentemente fez uma pausa no mundo do tênis profissional: "Se você não tem o dinheiro o bastate para ter um time ou jogar de uma maneira confortável, então você não está preparado para bater de frente contra os atletas que tem tudo isso. Nesse sentido, você provavelmente perderá a partida, o que significa que não fará mais dinheiro e esse ciclo vicioso continua.
Rubin, campeão de Wimbledon junior 2014, chegou a ser número 125 do ranking mundial, em 2018. Depois de lidar com várias contusões durante sua carreira, o jogador de 26 anos não conseguiu melhorar sua classificação e se manter nos eventos menores. Fez a decisão de pausar sua carreira no tênis, mesmo que temporária, em setembro, e agora joga Pickleball (outro esporte).
"Quando eu estava jogando neste nível, aos 17 anos, me deu um pequeno caroço no ombro", comentou Rubin: "Eu dizia: 'Não pode ser isso, como eu consigo passar por isso?' Acho que foi uma pressão boa, mas quando você não está indo bem, e isso aconteceu nos últimos anos, isso passa a se tornar uma pressão que você não gostaria de ter como jogador de tênis... Então neste ano eu pensei: "Por que estou aqui? jogando por, literalmente, U$6 (R$30)? Isso é bom para mim, como pessoa? Eu posso chegar naquele nível que joguei sem perder minha cabeça?"
Rubin sabia que uma cirurgia no punho estava se encaminhado e foi outro fator para sua decisão. Uma longa ausência da competição pode ser financeiramente destrutiva para muitos que já estão se rastejando.
Duval, de 27 anos, entende o dilema. Ela nunca conseguiu jogar uma temporada inteira. Ficou próxima do top 100, em 2014, e parecia ser uma promessa do esporte, mas ficou fora por conta de um diagnóstico de Linfoma de Hodgkin e teve que fazer tratamento. Desde de sua recuperação, ela teve vários problemas com seus joelhos e jogou apenas 55 torneios desde 2018.
Para ganhar dinheiro, ela treina algumas pessoas, trabalhou internamente na WTA, criou ilustrações para a USTA e, mais recentemente, se tornou comentarista em uma canal de tênis. Além disso, se graduou na Indiana East University, com um apoio da WTA. O estresse para conseguir se sustentar.
"É difícil entrar em um torneio sabendo que caso você não consiga chegar às semifinais ou finais, você com certeza perdeu dinheiro naquela semana", comentou Duval: "Isso, definitivamente adiciona uma nova camada de estresse em seu subconsciente e estas coisas se manifestam no momento em que você joga."
A grande barreira para entrar
O problema financeiro do tênis começa cedo. Jeremy Gibbens-Schneider, um antigo jogador da NCAA e júnior canadense, que agora tem uma academia de tênis em Ottawa, mantém vivido seus momentos de estresse como jovem.
"Quando eu tinha 15 ou 16 anos, eu conhecia uma técnica em Toronto, de alto desempenho, que era extremamente transparente e as pessoas a julgavam por isso", comentou Schneider, que agora tem 26 anos: Mas eu aprecio a honestidade que ela tinha. O primeiro encontro dela com os pais destas pessoas normalmente começa com 'a criança quer isso, queremos que ele vá consiga uma bolsa de estudos ou jogue internacionalmente...' e a primeira questão dela era: 'vocês tem acesso à milhares de dólares por ano?'"
Enquanto Gibbens-Schneider não queria assustar as perspectivas familiares, ele conversa com ela e tentava ser realista com a situação, sobre os custos e expectativas com seu trabalho.
"Uma criança que quer jogar no melhor nível precisa de U$80 a U$100 mil (R$420 mil a R$519 mil) por ano", comentou Gibbens-Schneider: "Os torneios são caros, especialmente se começarem a investir, ali com 14 a 16 anos, quando os eventos do ITF começam... Há um pouco de choque, especialmente no começo."
O técnico ajuda com formas de buscar mais dinheiro, encorajando os atletas a conversar com comércios locais e ver se podem ajudá-los no patrocínio. Gibbens-Schneider disse que já viu atletas chegarem a cobrir 50% de seus custos assim.
Nos Estados Unidos da América há várias academias de tênis e muitas delas oferecem escolas. Uma matrícula anual, na IMG Academy, na Flórida, a melhor do conhecimento comum, é U$88.900 (R$455 mil) para quem está quase no colegial. Não há bolsas de estudo e há poucas maneiras de financiar este curso.
Não há um guia para isso, muito menos avisos ou conselhos disponíveis para os jovens atletas sobre levantar dinheiro para seu sonho caro.
Olivia Lincer, de 18 anos, começou a jogar em nível internacional aos 13 anos, em 2018. Ela jogou os torneios da USTA, mas seu pai, Magic, que é também seu treinador, tem sua própria academia em Connecticut, disse que não acreditava que ela aguentaria estas competições. Eles tiveram a decisão de jogar no circuito júnior ITF, mas isso não resolveria muitos problemas.
"Este circuito é obviamente mais sério e mais competitivo. Os objetivos são diferentes porque eles tentam alcançar o ranking que os permite chegar no junior do Grand Slam", comentou Magic Lincer: "Isso aconteceu e foi uma grande experiência, mas, de novo, chega a um pouco que os juniors viajam e vivem da mesma maneira que os profissionais fazem, tirando o fato que não ganham uma moeda por isso."
Durante sua carreira no juniores, Lincer venceu quatro títulos simples e dois em duplas. Ela chegou ao número 65 do ranking, em 2022, conseguindo seu melhor resultado no Wimbledon, em julho, na terceira rodada. Mas não há premiação em dinheiro.
Como cidadã estadunidense e polonesa, Lincer mudou sua representação nacional em 2022. Terminou o ano como número 575 e jogará na Universidade Central Florida, em 2023. Conseguiu uma bolsa de estudos e também receberá um certo valor dela para que apareça em alguns torneiso em seu primeiro ano como profissional.
Recentemente a NCAA permite alguns acordos com relação a nome e imagem dos jogadores, ajudando nestes pontos com os tenistas, mesmo que algumas restrições de estrangeiros acabam por impactar no quanto ganham. Para Lincer, é uma oportunidade e tanto, já que pôde conhecer o nível de elite do juniores e vai largar a vida que tinha, sem correr risco de problemas financeiros.
"Os rankings de juniores e resultados que conseguem dizem mais sobre o financeiro e de quem consegue manter o alto nível com a ajuda que possui", comentou Martin Blackman, diretor geral do desenvolvimento de jogadores: "Então nós fazemos 70% da seleção com base nos rankings e resultados, mas os outros 30% vem com recomendações da comissão de treinadores."
Mesmo que este sistema esteja longe da perfeição, ainda dá oportunidade para os jogadores norte-americanos, como classificatórias para o US Open e outros que existem no território, coisa que vários outros jogadores pelo mundo não tem acesso. Pannu não tinha este tipo de oportunidade em seu país, na Nova Zelândia, por conta da falta de eventos que existia.
O esporte talvez tenha perdido a próxima Williams ou Federer simplesmente por conta do dinheiro?
"Eu sei que isso acontece o tempo inteiro", respondeu Pospisil a esta questão: "O número de histórias que você ouve durante os anos de jogadores que eram incrivelmente talentosos e pararam de jogar são incontáveis. E não estou me referindo nem mesmo aos que param antes mesmo de você perceber seu incrível talento. Sim, 100%, isto está acontecendo neste momento."
O ponto de mudança: a pandemia
Para os jogadores que mal estavam viajando, a ausência prolongada do circuito em 2020 e a incerteza sobre quando ele voltaria foi um desafio terrível. Patrick Mouratoglou, ex-treinador de Serena Williams, publicou uma carta aberta sobre a situação nas mídias sociais.
"O que acontece quando os jogadores são forçados a sair do trabalho por um período indefinido de tempo? Bem, eles não são pagos", escreveu Mouratoglou: "Alguns deles estão desistindo de seus sonhos e estão chamando isso de carreira. Tem sido assim por muito tempo. Embora tenhamos eliminado a supremacia masculina há muito estabelecida no campo financeiro, o tênis mantém um dos níveis mais extremos de desigualdade em qualquer esporte. A questão é: o tênis precisa deles para sobreviver. Não funciona apenas com os grandes jogadores. O circuito pode acabar."
Djokovic, que era presidente do conselho de jogadores da ATP, pediu para que os grandes jogadores contribuissem para um fundo financeiro criado para ajudar os jogadores de rankings mais baixos. Dominic Thiem criticou abertamente esta ideia, questionando o profissionalismo e a ética de trabalho nesta situação, preferindo dar seu dinheiro "à pessoas e organizações que realmente precisem."
Seus comentários provocaram mal estar e aprofundaram a conversa. Ines Ibbou, então classificada como número 620 no mundo, postou uma resposta em vídeo a Thiem, em sua conta Instagram, na qual ela compartilhou sua realidade como jogadora de tênis profissional da Argélia, lutando contra os recursos limitados que tem.
"Eu fico pensando, Dominic, como é ter seu técnico nos torneios, com um fisioterapeuta, personal treiner, psicólogo e uma comissão técnica inteira ao seu dispor?", ela perguntou em vídeo.
Venus Williams e Nick Kyrgios estavam entre os jogadores que a elogiaram por ter falado.
Qual o próximo passo?
No US Open 2020, o primeiro Grand Slam jogado, Djokovic e Pospisil anunciaram que fariam a Associação dos Jogadores de Tênis Profissionais (PTPA) para ajudar estas disparidades financeiras e inequalidades do esporte, para garantir que os interesses e jogadores consigam ser representados simultaneamente.
Na falta do apoio público do torneio feminino no circuito e sem uma visão compartilhada clara e imediata, a reação inicial às notícias foi mista e parecia haver mais perguntas do que respostas. Mas agora, mais de dois anos depois, a organização anunciou seu comitê executivo inaugural, composto de quatro homens, incluindo Djokovic e Pospisil, e quatro mulheres, mais notavelmente a atual nº 2 do mundo, Ons Jabeur. Desde então, a organização também contratou Ahmad Nassar, ex-presidente da NFL Players Inc., como seu diretor executivo e espera começar a causar impacto em 2023.
Apenas cinco meses no trabalho, Nassar contou à ESPN que conversou com "centenas" de jogadores, homens e mulheres, para entender suas maiores preocupações.
"Os jogadores estão frustrados. Eles querem ser bem pagos", comentou Nassar: "Mas então eles tem um super poder que ninguém tem porque são jogadores. Wimbledon, US Open, Australian Open, fazem um grande trabalho monetizando este evento mas acho que isso tem crescimento. Se você dizer: "olha, os jogadores precisam de ajuda para que isso realmente desenvolva" e, em troca disso, você vai colocar uam porcentagem disso. Mas isso não tem acontecido. É um exemplo de coisa que ajuda a diminuir a diferença, ajudando os jogadores também. O problema é que todo mundo, hoje, tenta crescer individualmente."
O salário base tem sido discutido como possibilidade de solução, mas ainda não é claro de onde o dinheiro vem. Mas, não há alguém comandando este ponto. Há várias organizações, incluindo ATP, WTA, ITF, vários Grands Slams que operam independentemente, com sua própria marca, patrocínio, direitos e acordos.
Os outros jogadores disseram à ESPN sobre sugerir uma mudança na distribuição da premiação dos eventos, especialmente em grandes torneios, na ideia de melhorar a premiação para aqueles que perdem nas primeiras rodadas.
"Djokovic [ou quem vencê-lo] não liga por este U$500 mil (R$2,8 milhões) a mais ou um milhão", comentou Rubin: "Mas se você colocar esse milhão no qualificatório, já é uma mudança para aqueles que estão nestes torneios."
Ao invés do salário tradicional, Nassar pontuou trazer patrocínios de licença aos jogadores, tal como jogos de vídeo game. Junto com várias outras oportunidades de negócio, isso pode criar uma maneira maior de fazer direito. Ajudar jogadores a criar e segurar patrocinadores, maximizando suas marcas pessoas e isso gerará um efeito cascata aos campeonatos.
Por agora, nestes primeiros dias da temporada 2023, as questões se mantém as mesmas e será um novo ano de preocupação e incertezas financeiras.
"Há centenas, se não milhares de jogadores profissionais de tênis que estão na mesma posição", comentou Pannu: "Financeiramente é extremamente difícil. Mas, às vezes dinheiro não é a questão mais importante. E eu acho que este é o entendimento de todos que estão na mesma posição que eu. Eu gostaria de entender que fiz tudo que eu poderia para tentar conquistar meus sonhos e se acontecer, aconteceu. Se não acontecer, não aconteceu. Eu vou lidar com isso."
