Se o Brasil fosse um país que tratasse com respeito seus atletas, Willian Denílson Venâncio Dourado teria um tapete vermelho estendido por onde treina em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, mas não é assim.
Ele é apenas mais um brasileiro que vive do esporte. Ganha cerca de R$ 1.600 mensais, embora seja o segundo maior nome da América do Sul no arremesso de peso. É o mesmo esporte onde reina o catarinense Darlan Romani.
O atleta de 26 anos é um dos 330 profissionais do esporte que tiveram os salários suspensos pela prefeitura em abril, tendo recebido apenas metade em março. O órgão público alega que eles “não produziram durante a pandemia” e “não compareceram aos locais de treinamento” para justificar a decisão de supender os pagamentos.
Para quem não conhece a rica cidade do interior paulista, São José do Rio Preto vive um momento crítico devido ao avanço da COVID-19 na região. Está na fase vermelha, o que obriga o isolamento social e fechamento quase total do comércio.
Willian Dourado acabou virando o porta-voz dessa história.
Para Willian ter um currículo invejável no atletismo não significa ser respeitado. Estamos de falando de um homem tetracampeão dos Jogos Abertos (2015, 2017, 2018 e 2019), tricampeão Estadual (2015, 2016 e 2017), bicampeão sul-americano em (2016 e 2020) e vencedor dos Jogos Regionais desde 2013. Ele tem possibilidade de virar o primeiro nome no arremesso de peso.
Estamos falando de um multicampeão do nosso esporte que recebe mensalmente R$ 1.600, salário fundamental para ele comer, comprar itens básicos e equipamentos para o treino e ainda pagar a faculdade.
Em 2017, Willian alcançou incríveis 20,22 m no arremesso de peso na prova do Circuito da FPA, em Campinas, a segunda melhor marca do esporte no Brasil, e achou que a vida melhoraria a partir de então. Doce ilusão no país que não dá valor aos feitos esportivos e ao valor que o esporte tem na formação e transformação de vidas.
Willian está cansado das promessas que rondam o mundo do esporte olímpico. Com a falta dos salários, está enviando currículo para trabalhar em usinas, empresas e supermercados da cidade que ele tanto ama, e que tanto representou com medalhas e recordes.
Um Anjo na vida de Willian
Incrivelmente, ao saber da dificuldade do arremessador, um ex-atleta entrou na vida do rio-pretense depositando em sua conta todo o salário que a cidade de São José do Rio Preto cancelou.
Sem querer se identificar, o novo apoiador de Willian disse para a reportagem o motivo do nobre gesto.
“Willian é uma pérola do esporte. É muito dedicado ao atletismo e tem chance de levar o nome do Brasil mundo afora. É um talento que não pode ser desperdiçado, muito menos jogado fora. Eu não sou rico, mas tenho a obrigação de ajudá-lo. Isso não é caridade, é obrigação de cidadão”, finalizou o patrocinador anônimo.
Vale reforçar que Willian é apenas um dos 330 profissionais do esporte que estão sem salário em São José do Rio Preto e outros milhares no nosso prometido Brasil Olímpico que, definitivamente, não deu certo.
Resposta da prefeitura
A justificativa da prefeitura para suspender os salários de 330 atletas da cidade foi a COVID-19.
Em nota, o órgão cita que a falta de atividade no período fez com que eles não recebessem. No entanto, é importante informar os atletas receberam metade do mês de março e nada mais depois.
Além disso, durante a fase aguda da pandemia, a recomendação para que as pessoas ficassem em suas casas partiu das autoridades sanitárias (inclusive, internacionais, como a Organização Mundial de Saúde)..
“A Secretaria de Esportes informa que o pagamento dos beneficiários do programa auxílio-atleta precisou ser suspenso por uma questão legal, pois a legislação determina o repasse relativos apenas às atividades já realizadas.
Os atletas e professores beneficiários do programa não têm vínculo direto com a administração municipal. Uma comissão formada pelos representantes dos beneficiários apresentou proposta de retomada à prefeitura, considerando as exigências de distanciamento.
Está em estudo a viabilidade legal da proposição. O número de beneficiários varia mês a mês, de acordo com aulas e calendário de competições, mas no mês de abril, quando foi realizado o último pagamento, cerca de 230 profissionais estavam na folha de pagamento do programa.”
