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Na contramão do futebol, comitê paralímpico orienta atletas a manterem quarentena e leva esporte a deficientes

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Ao mesmo tempo em que o futebol brasileiro está retomando ou tratando a retomada das atividades, os atletas paralímpicos avançam no cumprimento rigoroso de medidas de segurança à saúde e isolamento social, seguindo recomendações preparadas especifiamente para eles pelo Comitê Paralímpico Brasileiro.

Há pouco mais de 10 dias, o CPB lançou seu próprio protocolo para a volta aos treinamentos, mas o documento é preventivo. A ideia do comitê é convencer os atletas a manterem o distanciamento social e ficarem em casa.

“Ao lançar o protocolo, não estamos estimulando a prática. O documento por si só não é suficiente para a retomada. Deve ser avaliado com as autoridades locais. Cada microrregião enfrenta uma situação. A nossa orientação geral é para os atletas continuarem em quarentena, mas, aqueles que moram em regiões onde há possibilidade de sair e querem sair, terão o protocolo como referência”, diz Jonas Freire, diretor-técnico adjunto do CPB, em entrevista para o ESPN.com.br.

Aos 43 anos e com larga experiência trabalhando com o desporto paralímpico (está na segunda passagem no CPB), Freire recorda que alguns atletas também têm atenção especial por fazerem parte do grupo de risco.

Segundo o site do comitê, os mais suscetíveis a complicações são os lesionados medulares, pessoas com enfermidades neurológicas e/ou pulmonares, paralisados cerebrais e imunossuprimidos.

Freire explica que o protocolo não será um documento “engessado”. Prevê tantas modificações quanto forem necessárias. “Estamos aprendendo dia a dia com o vírus, com resultados divulgados. É uma nova realidade”.

Os cuidados são justificados pelos riscos e também pela realidade no universo paralímpico. O foco é totalmente diferente da discussão que vemos no futebol. Vale lembrar que em diferentes Estados muitas agremiações estão ávidas pela volta dos Estaduais.

A segurança dos atletas paralímpicos e a qualidade dos treinamentos à distância estão sempre em discussão. O impacto causado pelo novo coronavírus foi grande. Além de privá-los dos treinamentos no centro paralímpico, em São Paulo, ou em suas cidades, adiou a 16ª edição dos Jogos Paralímpicos, em Tóquio.

A competição estava programada para ocorrer entre o final de agosto e início de setembro deste ano. A previsão agora é que aconteça no mesmo período em 2021. Com vagas em aberto, não havia um número fechado de atletas que formariam a delegação brasileira.

É possível prever que cerca de 200 nomes foram impactados, tendo como base a participação nacional nos Jogos Paralímpicos de Londres (183 atletas), em 2012, e da China (188 atletas), em 2008, as duas edições antes da disputa em “casa”, no Rio, quatro anos atrás. No último Pan-Americano foram enviados 337 atletas para Lima, em 2019.

Além do universo da competição, o número de impactados é incalculável. Somente no centro olímpico costumam circular por lá cerca de 2.000 pessoas diariamente, além de 600 crianças que frequentam as escolinhas do Centro de Formação. Todos eles foram afetados em suas rotinas, pois as atividades no local foram suspensas em 16 de março.

“Nós tivemos dois momentos: antes do anúncio [do adiamento dos Jogos] e pós-anúncio. Antes foi muito estressante. A gente estava impossibilitado de treinar e fazer a manutenção para os Jogos. Todos queriam, mesmo correndo riscos, pela ansiedade gerado ao ver que alguns concorrentes continuavam treinando. Após o adiamento oficial, os atletas conseguiram relaxar, programar as atividades necessárias com calma e dentro de uma nova programação. Fluiu melhor”, diz Freire.

O CPB conta com um “comitê de crise” multidisciplinar (saúde, esporte, psicologia etc.) justamente para planejar as atividades e as ações nesse momento. Freire diz que as reuniões são semanais.

Até aqui, os atletas não têm apresentando quadros de ansiedade ou depressão pela incerteza gerada pela COVID-19. Reportagem da ESPN mostrou que o futebol de base estava com essa dificuldade.

Ainda dentro das medidas tomadas durante a quarentena, o CPB ampliou o olhar para a comunidade e lançou uma plataforma online focada em ajudar pessoas com deficiência.

“É o ‘Movimente-se’. Foi pensada para estimular a prática esportiva para esse grupo de pessoas. A ampla gama de canais e aplicativos não oferecem recursos para cadeirantes ou quem têm dificuldades visuais, auditivas etc., por exemplo. O retorno tem sido gratificante”, diz Freire.

Já para atletas de alta performance do desporto paralímpico o caminho é outra plataforma.

“Como encerramos as atividades em 16 de março, foi pensado um projeto de acompanhamento à distância. Dar suporte, estabelecer uma rotina de atividades, manter uma disciplina, um controle de nutrição, físico etc. São diversos profissionais envolvidos controlando os efeitos do que chamamos de destreinamento. A quarentena implica em mudança de espaço, falta de material, por exemplo. Os efeitos estão na mudança da composição corporal do atleta, por exemplo. Nosso maior problema é com a turma da natação. Não tem como fazer sem piscina”, diz Freire.

Na dificuldade, Jonas Freire disse que o que mais o surpreendeu foi a capacidade dos atletas paralímpicos se manterem motivados e de superarem os obstáculos da COVID-19.

“Posso listar esforço, vontade, enfim, é um capítulo novo nessa longa história de superação. Pra mim, foi o momento de perceber o quanto esses atletas têm potencial de superação e é por isso que são grandes campeões. É o potencial de transpor dificuldades”, diz Freire.