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Conheça Rayssa, a 'ex-Fadinha' de 11 anos, que é esperança de medalha do Brasil no skate olímpico

Rayssa Leal gosta de duas coisas: andar de skate e quebrar recordes. Aos 11 anos, a skatista, que, daqui um ano, tem tudo para ser a atleta mais mais jovem da delegação brasileira na Olimpíada de Tóquio, já tem noção do feito que pode realizar.

"Penso nisso toda hora", contou ela ao ESPN.com.br, diretamente de Los Angeles. Rayssa está na Califórnia para disputar mais uma etapa do circuito mundial da Street League. As finais serão no próximo domingo, dia 28.

Há pouco menos de dois meses, Rayssa tornou-se a atleta mais jovem a subir no pódio de uma etapa do circuito, na Inglaterra. Algo com que ela está acostumada desde seu primeiro campeonato conquistado. Em 2015, aos 7 anos, bateu garotas de 10 para ser campeão de street em Blumenau, Santa Catarina.

Em Londres, ela ficou na terceira posição, atrás da campeã Pâmela Rosa, também brasileira, e da australiana Hayley Wilson. E logo à frente de Leticia Bufoni, quatro vezes campeã mundial da modalidade. No ranking nacional da temporada 2018 do circuito brasileiro, Pâmela foi a primeira, e Rayssa, a segunda.

Não faz muito tempo, Rayssa chorou ao ser apresentado a Letícia Bufoni em um programa de TV. Hoje, já termina competições à frente dela. "Ela ainda é um ídolo, apesar de hoje ser também minha amiga", conta Rayssa, com naturalidade.

Já do apelido "Fadinha", que a fez famosa em 2015, ela diz não ser mais muito fã. Foi fantasiada de Sininho, personagem de Peter Pan, que ela apareceu nos seus primeiros vídeos que viralizaram. Daí, veio o apelido.

"Eu não gosto muito, mas pode me chamar", disse ela, muito educada, antes de explicar como surgiu a alcunha.

"As meninas da minha classe desfilaram no 7 de setembro vestidas de fada. Mas, logo depois, eu ia andar. Meu pai levou o skate, minha mãe levou a meia e eu andei daquele jeito mesmo", explica. "Não foi pensado, mas todo mundo achou legal", diz ela.

É por meio de um ranking olímpico, que soma pontos dos eventos listados pela confederação mundial da modalidade (OWSR) que serão definidos os skatistas que estarão em Tóquio no próximo ano.

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Se o período de classificação terminasse hoje, Pâmela, que lidera o circuito, Letícia, a terceira, e Rayssa, quinta, estariam nos Jogos. A pontuação que vai definir a delegação será computada até 30 de junho do ano que vem.

Se classificada, Rayssa, cujo aniversário é em 4 de janeiro, terá 12 anos durante a Olimpíada do próximo ano. Ela é aposta alta da Confederação Brasileira de Skate (CBSk). O vice-presidente da entidade, Sandro Dias, o Mineirinho, se derrete ao falar da atleta.

"Gosto muito dela. Acho que é atleta que mais tem chance de medalha. Eu brinco com o pai dela: cuida da minha 'ídola'", conta o dirigente.

"O legal é que ela se diverte. Ela tem carisma, tem tudo que precisa para ser a próxima estrela", acredita.

SKATE DE PRESENTE

O skate entrou na vida de Rayssa por meio de Mateus, um amigo de seu pai Haroldo Leal, 38, há cerca de cinco anos.

"Ela deu um skate bem simplezinho de presente para ela, quando ela tinha seis anos. E ela se encantou", conta o pai. O problema é que Haroldo e Lilian Leal, a mãe, não tinham tempo de levar a menina à pista da cidade de Imperatriz, no Maranhão onde a família ainda mora. Mateus, então, se ofereceu para a tarefa.

"O primeiro lugar que eu andei foi na cozinha de casa", conta Rayssa. "Foi automático, amor à primeira vista. Demorei para cair. O pessoal na pista dizia que eu evoluía muito rápido e eu fui treinando mais", conta.

Inicialmente, ninguém achava que a brincadeira viraria algo sério. Cinco anos depois, a vida da família Leal gira em torno do skate. Rayssa tem hoje patrocinadores como Nike, Stronger Trucks e BV.

O pai hoje vive de gerenciar a carreira da filha. Sua mãe viaja com ela para as competições - além de ajudar a filha nos treinamentos diários, de pelo menos duas horas.

"Ela vê as manobras e passa para a Rayssa ir treinando", conta Haroldo.

FICHA NÃO CAIU

Haroldo pede para nem falar muito do orgulho que sente da filha. "Se eu começo a falar, já choro", confessa. "Mas não só pelo sucesso que ela tem no esporte. É principalmente pela pessoa que ela é", diz ele.

"Ainda não caiu a ficha para mim de que ela pode disputar a Olimpíada", diz Haroldo.

Rayssa vai à escola em Imperatriz. Quando falta, por conta de uma competição, tem aulas em jornada dupla para pegar o conteúdo perdido. Gosta de estudar português, matemática e geografia. Nas últimas provas, tirou 8,5 de português e 9 de matemática.

Entre os colegas de classe, é a única que já viajou ao exterior. Mas, com as amigas, gosta de conversar sobre "coisas aleatórias", como diz, e mexer nas redes sociais Instagram e no Tik Tok.

Mas a brincadeira favorita de Rayssa é mesmo o skate.

"Para mim, competir é brincar", diz ela. "Eu vou andar até os 72 anos. Depois, faço outra coisa", disse, entre risos, demonstrando um humor bastante refinado para a idade.

Mas os pais sabem que isso pode mudar no futuro.

"A gente se prepara para o dia em que ela não vai querer mais andar. Encaramos com naturalidade. A gente não força nada", jura.

"Só que, olhando hoje, não acho que isso vai acntecer. O skate é a vida dela. Ela chora se não pode ir para a pista", revela.

Se decidir aposentar as rodinhas, ela talvez migre para o futebol. Em sua cidade, ela treina em uma escolinha do Grêmio, embora seja corintiana e fã do goleiro Cássio. E leva jeito, jura o pai.

Ao se despedir de Rayssa, o autor desta reportagem, que pretende cobrir a Olimpíada do ano que vem, disse a ela:

"Tomara que a gente se encontre em Tóquio".

"A gente vai, você vai ver!", afirmou Rayssa, mostrando uma enorme confiança.

Que talvez só seja menor que o seu talento.

COMO SERÃO DEFINIDAS AS VAGAS EM TÓQUIO-2020?

Ao todo, haverá 80 vagas para skatistas nos jogos, sendo 40 vagas por gênero, divididas em 20 para a modalidade park e outras 20 para o street.

Para cada modalidade e gênero, uma vaga será para Japão (país-sede), totalizando quatro. Outras três vagas vão para os medalhistas dos Mundiais de cada categoria a serem realizados entre o final de 2019 e início de 2020.

As 16 vagas restantes em cada evento serão repartidas via ranking olímpico, sendo obrigatória a representatividade de todos os continentes - pelo menos um atleta por continente - e respeitando o limite de três atletas por país em cada categoria.