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Nathalie Moellhausen, brasileira que competiu com tumor nas Olimpíadas, detalha recuperação: 'Estou fora de perigo'

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Nathalie Moellhausen explica decisão de competir com tumor em Paris: 'O meu sonho nas Olimpíadas era maior do que tudo' (2:35)

Esgrimista brasileira concedeu entrevista exclusiva para a ESPN após a cirurgia (2:35)

Nos últimos dois meses, Paris se tornou a casa do esporte mundial ao receber as Olimpíadas e os Jogos Paralímpicos. No entanto, para uma "brasileira por escolha", a capital da França é sua morada desde 2006, quando saiu da Itália para o país vizinho.

Nathalie Moellhausen nasceu em Milão, filha de pai alemão e mãe ítalo-brasileira, e decidiu representar o Brasil na esgrima em 2014, mesmo após já ter sido campeã mundial por equipes com a seleção italiana. Sua estreia com a bandeira verde e amarela foi nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em 2015, e de lá para cá, foram quase 10 anos conquistando resultados inéditos para a modalidade no país.

Aos 38 anos, Nathalie era uma das grandes esperanças de medalha para o Brasil nas Olimpíadas de Paris. A esgrimista, que foi campeã mundial na espada em 2019, já tinha disputado três Jogos Olímpicos (Londres 2012 ainda pela Itália) e seu melhor resultado tinha sido as quartas de final na Rio 2016. No entanto, sua 4ª participação olímpica não foi nada como o esperado.

A esgrimista brasileira assustou o mundo ao desmaiar durante seu primeiro confronto na capital francesa e acabou eliminada logo na estreia da espada individual feminina. Na saída do Grand Palais (Grande Palácio, em tradução livre para o português), onde a esgrima foi disputada, Nathalie Moellhausen revelou que competiu com um tumor benigno e que convivia com dores crônicas nas costas nos últimos meses. Mesmo assim, foi para o sacríficio e realizaria uma cirurgia após as Olimpíadas.

Depois de um mês da competição e da cirurgia que retirou o tumor, Nathalie Moellhausen concedeu uma entrevista exclusiva para a ESPN e revelou detalhes dos dias e segundos que antecederam o susto em Paris.

"O que me permitiu ir até a competição foi o resultado de uma cirurgia com anestesia geral que eu fiz no domingo anterior às Olimpíadas. Naquele momento, a previsão do médico era a minha não participação nos Jogos Olímpicos caso tivesse a vascularização do meu tumor. A situação estava muito grave e avançada. Quando eu acordei da anestesia geral, aconteceu aquele 1% de chance de poder atrasar a cirurgia (da retirada do tumor) para poder competir nas Olimpíadas."

A 10 dias da estreia em Paris, Nathalie precisou fazer dois procedimentos para receber o aval de seu médico para competir no dia 27 de julho.

"Então, eu fui para a competição porque a ideia de não completar o trabalho seria muito traumático. Na quinta-feira (16), eu fiz a primeira biópsia (retirada de uma amostra de tecido do corpo para análise laboratorial e descobrir se há uma doença no local). Então, no domingo, eu fiz uma arteriografia (procedimento para examinar a gravidade do tumor e se há problemas nas artérias, que transportam o sangue), que pede uma anestesia geral."

"O meu sonho nas Olimpíadas era maior que qualquer coisa"

Esses dois procedimentos possibilitaram constatar qual era a gravidade da doença e se era seguro competir e retirar o tumor após as Olimpíadas. Nathalie permaneceu calma e, com o aval do médico, decidiu ir para pista olímpica pela 4ª vez na carreira.

"O diagnóstico era de um tumor super raro, com apenas dois operados em todo a história da medicina. Quando ele disse que não tinha certeza do que era, você pode imaginar que a cabeça de qualquer pessoa poderia ter reagido mal, mas eu não. O meu sonho nas Olimpíadas era maior do que qualquer coisa. Em nome de todo o trabalho feito para chegar lá, eu segurei. Foi uma loucura."

"Na minha cabeça, até eu desmaiar na pista, a única coisa que eu via era o combate. Em nome daquele objetivo, eu fiz tudo, inclusive treinar depois da anestesia geral no domingo. Eu treinei no hospital e nos dias seguintes para retomar um pouco de força. O dia anterior à competição, a minha situação não estava boa, mas ainda assim eu quis ir para a pista."

Nathalie, que já tinha competido enfrentando essas dores nas costas, relembrou o que passou por sua cabeça durante o combate contra a canadense Ruien Xiao.

"Quando estava quase desmaiando, o meu primeiro pensamento foi na minha sobrinha, que faz esgrima. A gente tinha feito um pacto antes das Olimpíadas. Além disso, eu via que faltava 1'30'' para acabar o combate e estava abaixo por 4 toques. Eu só pensava em recuperar esses quatro toques. Depois, pensei nos meus amigos e familiares que vieram me assistir. A ideia de que a minha sobrinha, que não sabia de nada, me visse desse jeito na pista, foi a maior dor que eu senti."

"A dor da derrota é uma morte"

A jovem Lucia tem apenas 7 anos e já tem uma conexão forte com a tia ilustre. A atleta olímpica acompanha a sobrinha em várias competições nos últimos dois anos e também a leva para as suas disputas, como em Budapeste, quando Nathalie conquistou a medalha de bronze no GP em março.

"Ela também me acompanhou no último estágio de treinamento (antes das Olimpíadas), que eu fiz com o meu time em Marrakech. Ela ficou uma semana com grandes campeões e com um grupo de pessoas incríveis, então, ela ficou nesse meio. Ela se sentiu no paraíso", contou Nathalie.

Depois do combate em Paris, a esgrimista seria levada para o hospital, mas antes se encontrou com a família ainda no Grand Palais. Então, Nathalie Moellhausen viu a sobrinha correndo e a abraçou. Nesse momento, ela escutou: "Tia, sobre o pacto que nós fizemos... não é porque você perdeu que eu não vou cumprir a promessa que eu lhe fiz."

A brasileira de 38 anos, que já tem quatro Olimpíadas no currículo, desabafou relembrando esse episódio.

"Foi um momento muito forte porque para mim ela representa as futuras gerações. Se ela quiser continuar, eu falei que ela tem liberdade para escolher e seguir os seus sonhos. Isso foi muito forte para mim porque era a última imagem que eu queria que as pessoas tivessem de mim na pista."

Relembrando esses dias Dantescos, a esgrimista não esconde que a decisão foi muito complexa e exigiu uma reflexão profunda.

"Às vezes eu me pergunto, eu não sei o que teria sido melhor. Operar naquele dia (da biópsia) e não ir para pista (e competir nas Olimpíadas), assim não teria a grande dor da derrota. A dor da derrota é uma morte. Não tem como. Só vivendo essa situação para saber o que isso significa."

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Nathalie detalha recuperação após retirar tumor que a atrapalhou nas Olimpíadas: 'A criatividade está me salvando'

Esgrimista brasileira concedeu entrevista exclusiva para a ESPN após a cirurgia na base da coluna vertebral

"O que está me salvando é a minha criatividade"

Depois dos Jogos Olímpicos, Nathalie Moellhausen passou pela cirurgia de retirada do tumor no sacro, osso que forma a base coluna vertebral, próxima ao cóccix. A operação complexa durou mais de cinco horas em uma região muito delicada, mas foi um sucesso. Pouco mais de 30 dias depois da operação, a esgrimista revelou como está se sentindo.

"A recuperação está muito boa. A melhor notícia é que eu estou fora de perigo e consigo andar sem dor. Eu estou pesquisando muito e lendo histórias de outras pessoas que passaram por momentos como esse. Como a minha comunicação é através da arte, o mais importante para mim é enriquecer minha alma para criar uma máscara e uma mensagem. Estou produzindo para manter minha esperança. O que está me salvando é a minha criatividade."

Além de atleta, Nathalie Moellhausen também é uma artista e está estudando artes cênicas. Ela utiliza suas máscaras como expressões artísticas, faz performances e se comunica atráves de sua arte.

Sobre os próximos passos, a esgrimista-artista deixa mais uma reflexão, sem pensar ainda nas Olimpíadas de Los Angeles em 2028.

"O futuro começa agora. Sendo uma pessoa que sempre planejou tudo, nesse momento não estou planejando. Agora, a coisa mais importante para mim é poder recuperar toda a energia que eu perdi nesses últimos dois meses. Preciso dar esse tempo para eu me recuperar e poder fazer bons planos.", completou.