Única modalidade que não acontece em Paris, cidade-sede das Olimpíadas, o surfe, que teve a bateria feminina suspensa nas oitavas de final por conta do agito do mar, tem como palco Teahupo’o, no Taiti, maior ilha da Polinésia Francesa. Isso porque a capital da França não tem mar, o que impossibilita a disputa do esporte, que virou olímpico desde Tóquio. A solução então foi alocar o surfe a mais de 15 mil quilômetros.
Teahupo’o recebe provas de surfe todos os anos da World Surf League (WSL). O motivo é que a praia conta com uma onda que é considerada uma das mais perfeitas e perigosas do mundo, já que os tubos que proporcionam quebram em uma bancada de corais rasa e afiada. No entanto, o Comitê Olímpico Internacional (COI) teve um atrito com a população local devido às obras de infraestrutura realizadas na região para a disputa dos Jogos Olímpicos de Paris.
A discussão maior girou entorno da construção de uma torre de alumínio para os juízes, substituindo a construção de madeira usada normalmente pela WSL. Para se ter ideia, taitianos organizaram protestos pacíficos e até criaram um manifesto, assinado por mais de 250 mil pessoas. Contudo, nada adiantou.
As obras realizadas pelo COI danificaram os recifes de corais, que abrigam milhares de espécies marinhas. Além desse problema apontado pelos locais, também há o aspecto religioso.
Em entrevista à ESPN, o surfista Filipe Toledo, o Filipinho, que foi eliminado das Olimpíadas nesta segunda-feira (29) nas oitavas de final, disse que a situação é “delicada”. O atleta brasileiro reforçou que eventos são realizados anualmente no local e que nunca foram registrados acidentes com juízes. Ele também falou sobre a danificação dos corais.
“É muito delicado. Se parar para pensar, a torre está lá há 20 anos. E por qual motivo não usar? Eles (COI) falaram que não está apto para fazer o evento lá, mas já tivemos permissões e fizemos eventos (etapas da WSL) durante todos esses anos. Nunca tivemos problemas”, comentou o brasileiro.
“Acho que a pior parte disso é o efeito que vai causar na nossa fauna e flora dentro do mar. Particularmente, já fui várias vezes lá e o que mais faço é mergulhar, ver, estar presente em ações, preservação. É algo que não queremos que aconteça, a gente não apoia também, mas são autoridades que estão no controle disso. Meu sonho era que não acontecesse esse tipo de construção, esse tipo de danificação com a natureza. Mas são coisas que estão fora do nosso controle. Falei nas redes sociais sobre isso, mas são as autoridades que mandam e, infelizmente, temos que aceitar os fatos”, lamentou Filipinho.
A surfista brasileira Tatiana Weston-Webb, também em entrevista à ESPN, falou que ficou triste com a ação tomada pelo COI.
“ Essa situação é bem sensível mesmo. Acho super errado. Comecei a ir para o Taiti desde 2014 e de lá para cá já vi o quanto mudou aquele lugar. Isso faz o meu coração ficar muito triste. Você quer continuar ver aquele lugar que você cresceu sendo o mesmo até você morrer. Quando vi que iam fazer a torre de alumínio, ninguém entendeu o motivo”.
Em relação as ondas do Taiti, Filipinho também lembrou que já se acidentou no Taiti, durante uma bateria em 2018, enquanto Tatiana Weston-Webb falou dos perigos de surfar na região.
"Peguei uma onda grande, cai e não aconteceu nada. Mas perdi minha prancha e o jet ski teve que me resgatar. Depois voltei para o fundo e pensei: 'Agora estou preparado'. Peguei mais três ondas e tudo certo. Depois peguei uma menor e cai", falou o brasileiro.
"Quando vem o swell fica bem perigoso. Isso porque a bancada é coral e super rasa. Já surfei muitas vezes lá e também já mergulhei, o que dá mais medo ainda. Você vê o tamanho dos corais e o quanto são pontudos. Dá para machucar fácil. Fico com muito medo de surfar lá e sei que as outras atletas também", completou Webb.
