Gol de barriga? 20 anos depois, juiz do Fla-Flu de 1995 mantém opinião: 'O gol é do Aílton'

Caio Blois, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.com.br
Há 20 anos, Renato Gaúcho fazia o emblemático gol de barriga

"Vem de novo o Fluzão, pela direita com Ronald, tenta na meia direita, ele joga na ponta para Aílton... Tentou na linha de fundo, procurou, trocou de caneta, apontou, trocou de novo, atirou, entrou... GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL DO FLUMINEEEEENSE. AIIIILLTOOON! Costurou enganando toda a zaga do Flamengo! Aos 41! Aílton, passa a frente de novo! Fluzão 3, Mengão 2!! Haja coração galera!"

Foi assim que José Carlos Araújo, o "Garotinho", um dos maiores narradores do rádio no Rio de Janeiro, narrou o gol do título carioca do Fluminense em 1995. Sem a barriga de Renato? Pois é. No calor do momento, ninguém pensou no desvio. Depois, analisando as imagens com calma e de trás do gol, Renato Gaúcho entrou para a história do clássico mais charmoso do futebol brasileiro. Mas oficialmente, a autoria do gol não é do craque da equipe e sim, do meia Aílton, conforme a súmula do árbitro Leo Feldman.

Exatamente vinte anos depois daquele dia 25 de junho, Feldman mantém seu pensamento.



"Na verdade, a jogada foi toda do Aílton. Ele recebe da direita, dá dois cortes lindos no Charles Guerreiro, um pra cada lado, e bate forte, cruzado. A bola ia em direção ao gol e bateu na barriga do Renato. O Renato é um fanfarrão (risos), encolheu a barriga e tudo", disse Leo Feldman ao ESPN.com.br.

Antes do gol do título no Maracanã, o próprio Renato e Leonardo já tinham balançado as redes para o Tricolor, enquanto Romário e Fabinho tinham marcado para o Flamengo, que entrou em campo como favorito à conquista da taça e foi derrotado justamente no ano de seu centenário. O que entrou para a história, no entanto, foi chute de Aílton e a barriga de Renato Gaúcho.

Um dos argumentos do de Leo Feldman para ratificar o autor do gol é justamente a narração dos radialistas.

"Não teve intenção. No meu entendimento ele não teve intenção de bater com a barriga na bola, a bola que bate nele. Na época, os locutores todos gritaram gol do Aílton, lembro do Penido, Garotinho, todos narraram gol do Aílton. Só depois, com as câmeras de trás, deu pra ver a barriga do Renato. Quando um atacante chuta, a bola bate no zagueiro e entra, de quem é o gol? Do atacante! Foi a mesma coisa que aconteceu", explica o ex-juiz, que é professor de educação física e atualmente dá aulas no Rio de Janeiro.

A história se manteve indecifrada por anos. Até que o próprio Leo Feldman, em um programa de televisão, trouxe os fatos à tona.

"Ninguém sabia dessa história. Um dia eu fui à TVE (hoje TV Brasil) e no programa do Paulo Stein, mostrei a súmula para ele. Aí que começaram a falar disso. Antes, ninguém sabia. Nem o Renato, nem o Aílton", disse.

Na época, Renato Gaúcho garantiu que havia procurado o árbitro, que supostamente teria 24h para modificar a súmula. Fato negado por Feldman, que brincou com o ex-jogador e amigo.

"O Renato não me procurou depois do jogo não. Isso não é verdade, é folclore. Temos uma ótima relação, ele sempre fala que eu deveria usar óculos, que eu sou cego. Tudo brincadeira. É uma grande pessoa e foi um dos grandes jogadores que apitei jogos. Ele tinha medo de mim (risos), ele e o Nélio (ex-jogador do Flamengo). Eu pegava no pé deles por causa do meião arriado e ele nem chegava perto de mim para eu não mandar ele levantar", lembra.

Fluminense FC
Aílton é o
Aílton é o autor oficial do histórico gol de barriga de Renato Gaúcho no Fla-Flu de 1995

A histórica partida não vive apenas no imaginário do torcedor tricolor. Outros personagens, como o próprio Leo, lembram com carinho da partida. Vinte anos depois, ele ainda se recorda de detalhes do jogo.

"Eu lembro bem da torcida do Flamengo cantando 'é campeão' e até de alguns torcedores do Fluminense indo embora. Muita gente não deve ter visto o gol do título. A atmosfera estava diferente. O que me marcou naquele jogo foi o início. Chovia muito e isso modificou completamente o jogo, que ficou mais disputado, o campo estava escorregadio e tornou tudo mais difícil. As expulsões não querem dizer que o jogo foi violento. Foi um jogo disputado. De violento só a entrada do Lira, no Sávio. Aquele carrinho foi criminoso. Poderia ter custado a carreira dele. O importante é que ficou na história", força a memória.

Leo Feldman não tem dúvidas de que aquele foi o grande jogo que apitou em toda a sua carreira.

"Sem dúvidas foi o maior jogo que apitei, até mais do que a final de 2001 (gol do Petkovic). Qualquer final já é difícil de apitar, nessas condições, mais ainda. Os atletas me conheciam, então, era só eu não errar. Final é assim: não pode errar, se não fica marcado. Ainda bem que não fiquei (risos). A final foi um espetáculo digno da grandeza de um Fla-Flu. Um jogaço. Até os flamenguistas reconhecem que esse é um dos mais marcantes, mais importantes, apesar da derrota. Tinham 120 mil pessoas no Maracanã. Ficou na memória do torcedor para sempre. Hoje, quando tem 30 mil, já comemoram. O futebol era diferente e esse jogo está marcado na história. Me sinto honrado por isso, por ter participado e de ser lembrado, 20 anos depois. Fico muito satisfeito e dignificado por ter sido um dos personagens desse grande jogo."

Por fim, o árbitro encerrou toda e qualquer polêmica sobre o autor do gol.

"Tenho convicção no que marquei. O gol é do Aílton e ponto final", afirmou Feldman.

Fluminense FC
Renato Gaúcho marcou, para muitos, o gol mais famoso da história do clássico Fla-Flu, de barriga
Renato Gaúcho marcou, para muitos, o gol mais famoso da história do clássico Fla-Flu, de barriga

Veja análise tática do gol de barriga de Renato Gaúcho
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