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A redenção do Great 8: como Alex Ovechkin e os Capitals exorcizaram seus demônios

Enquanto eu assistia Washington eliminar Pittsburgh pelas semifinais da conferência leste, um amigo me perguntou: o Alex Ovechkin é o maior jogador russo de hockey de todos os tempos?

A resposta imediata foi “não”.

A lista de nomes logo começou a ser traçada em minha cabeça: Sergei Fedorov. Pavel Bure. Igor Larionov. Alexei Kovalev. Alex Mogilny.

Dois nomes, no entanto, se despontaram nesse exercício mental: Pavel Datsyuk e Evgeni Malkin. Nomes recentes, de jogadores ainda em atividade, e que eu tive o prazer de assistir por tantas e tantas vezes.

Para ser sincero, não sou fã destes comparativos de “quem foi melhor” ou até mesmo de “qual o melhor jogador russo de todos os tempos”. É injusto listar nomes porque, na minha opinião, independente das posições, sempre estaremos rebaixando um jogador em detrimento de outro. Quem viu – mesmo que por meros vídeos de Youtube – esses caras jogando, sabe o quão especiais eles foram dentro do gelo.

E para Datsyuk, Malkin e Ovechkin a mesma regra se aplica. Os três são jogadores extremamente especiais.

O “Mago” Dastyuk teve o caminho mais inconveniente dos três. Escolha de 6ª rodada dos Red Wings em 1998, migrou para os Estados Unidos apenas em 2001. A transição, no entanto, foi rápida e ele logo se tornou peça insubstituível de Detroit. Três Selkes, quatro Lady Bings, 113 pontos em 157 jogos de playoffs, 918 pontos em 953 jogos de temporada regular. Deixei o mais importante por último: Datsyuk conquistou duas Stanley Cups.

Evgeni Malkin e Sidney Crosby formaram uma das duas duplas mais vitoriosas deste século, ao lado de Jonathan Toews e Patrick Kane. Malkin já venceu um Hart, dois Art Ross, um Calder e um Conn Smythe, 165 pontos em 158 jogos de playoffs, 930 pontos em 784 jogos de temporada regular. A combinação de seus 1,93m e seu senso de hockey fazem de Malkin um dos jogadores mais dominantes da NHL até hoje. Novamente, deixei o mais importante por último: Malkin conquistou três Stanley Cups.

Enfim, chegamos a Alex Ovechkin. As credenciais de Ovechkin são indiscutíveis. Três Harts, três Ted Lindsays, um Art Ross, um Calder e sete, SETE Maurice Richards. 105 pontos, 54 gols em 109 jogos de playoffs, 1122 pontos em 1003 jogos de temporada regular, incluindo 607 gols, o que o coloca entre os únicos 20 jogadores a chegarem na marca dos 600 gols. Atualmente, Ovechkin é o 19º na história da NHL em gols marcados, e contando.

Pela última vez, deixei o mais importante por último: Ovechkin nunca ganhou uma Stanley Cup. Sequer chegou a jogar em uma final de Stanley Cup.

Por enquanto.

Pela primeira vez em sua carreira, o Great 8 disputará uma final de conferência. 13 anos depois de estrear na NHL, em sua décima aparição nos playoffs, Ovechkin e os Capitals finalmente conseguiram superar o fantasma da segunda rodada dos playoffs da conferência leste.

É indiscutível que Ovechkin é um dos melhores jogadores do mundo, um dos maiores símbolos globais da NHL e do hockey. Mas independente de seus números, premiações e credenciais, Ovechkin também é marcado como o jogador estelar que nunca conseguiu liderar sua franquia a levantar uma Stanley Cup.

Ovechkin, obviamente, não joga sozinho. Colocar toda a culpa dos seguidos fracassos de Washington em suas costas é injusto e incorreto.

A ligação, no entanto, é inevitável porque Ovechkin é o rosto da franquia dos Capitals. Não de hoje, ou ontem. De toda a história da franquia. Ao falarmos dos Capitals, pensamos em Ovechkin. Ao falarmos de Ovechkin pensamos nos Capitals.

Washington não tem um histórico de pós-temporada desapontante somente na era Ovi. O único título de conferência foi conquistado em 1998, apenas para os Caps serem varridos pelos Red Wings de Steve Yzerman nas finais da Stanley Cup.

Os três troféus Presidente do clube foram vencidos na era Ovi. Oito dos 11 títulos de divisão foram vencidos na era Ovi. Ovechkin é o líder de pontos da franquia por uma larga margem de quase 300 pontos. Nicklas Backstrom, companheiro fiel e inseparável do russo, é o terceiro, a apenas 26 pontos de ocupar a segunda posição. Quando falamos de gols, Ovechkin lidera com uma folga de 135 tentos. Backstrom lidera a franquia em assistências com 590. O segundo é Ovi, com 515.

Os números provam e acentuam ainda mais a importância que Alex Ovechkin tem para a franquia. Mesmo chegando às finais em 98, esta é a melhor chance da história de Washington de ganhar uma Stanley Cup.

E para a surpresa de muitos, há de se destacar. Os Capitals passaram por uma transformação severa desde a última temporada. Perderam, literalmente, metade da defesa em uma offseason. Karl Alzner foi para Montreal, Nate Schmidt foi para Vegas e Kevin Shattenkirk foi para NY. Marcus Johansson foi trocado para New Jersey, Justin William foi para Carolina, Daniel Winnik foi para Minnesota.

Não suficiente, Braden Holtby teve a pior temporada regular de sua carreira, disparado, entrando nos playoffs como reserva. O General Manager do time, Brian MacLellan, reconhecia que a janela do time para vencer estava aberta até o ano passado. Por isso as diversas aquisições dos Capitals nas trade deadlines desta década, incluindo Shattenkirk, Curtis Glencross e Martin Erat. Este ano, o time tentaria uma estratégia mais conservadora: sem gastar barbaridades, dando mais espaço para os jogadores jovens que a franquia desenvolve.

Pela primeira vez em muito tempo, Washington entrou nos playoffs sem pressão ou expectativas, mesmo tendo vencido a disputadíssima divisão Metropolitana. Mesmo com Ovechkin vencendo o Maurice Richard com 49 gols. Mesmo com John Carlson liderando os defensores da liga em pontos com 68.

Os Capitals não criavam expectativas pelo seguido histórico de fracassos, de desapontamentos.

E pela primeira vez em 20 anos, os comandados de Barry Trotz estão voltando às finais do leste.

Foram duas eliminações seguidas para o Pittsburgh Penguins de Crosby, incluindo uma derrota no jogo sete em 2017. Antes disso, três eliminações consecutivas para os Rangers também em sete jogos. Em 2011, a eliminação veio contra os Bolts, em uma varrida nas semifinais de conferência. Em 2010, eliminados em sete jogos para os Canadiens. Em 2009, eliminados em sete jogos para os Penguins, e em 2008, em outros sete jogos para os Flyers.

Desde 1995, Washington enfrentou Pittsburgh em oito séries de playoffs. Esta foi a primeira vitória dos Caps.

E justamente desta vez são os Capitals que estão comemorando. Ovechkin finalmente disputará uma final de conferência. Um batalhão de demônios que atormentavam Washington foi exorcizado, junto com algumas toneladas que foram retiradas das costas de Ovi.

O russo, que sempre foi comparado a Crosby e colocado abaixo do canadense em conquistas, teve o seu momento de glória ao eliminar os Penguins em seis jogos. Não foi contra qualquer time, mas contra os atuais bicampeões, o time que provou ser invencível nas duas últimas pós-temporadas.

Foi contra o time que todos consideravam ser o favorito do confronto. “Penguins e Capitals, de novo? Quantos jogos Pittsburgh vai levar para ganhar o confronto? ”.

E mesmo após seguidos fracassos, após seguidas críticas, Ovechkin provou que ele continua sendo um dos melhores jogadores de hockey do mundo, e também que sua fome por conquistar uma Stanley Cup nunca esteve tão grande.

Esse time de Washington pode não ser o mais forte dos últimos anos no papel, e realmente não é. Pouco importa. É deste time que lembraremos daqui a alguns anos. O time que quebrou a maldição da franquia, venceu os Penguins e enfim levou Ovechkin às finais de conferência.

Ainda assim, por mais assustador que isso pareça, os Capitals estão apenas na metade do caminho até o prêmio final. A zica foi espantada, mas Ovechkin e seus companheiros ainda precisam fazer mais para finalmente elevar Washington ao patamar de “vencedores”. E quem sabe, com um título, possamos refletir novamente sobre a possibilidade de Ovechkin ser o maior russo de todos os tempos.