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NFL: Como o Furacão Katrina mudou a vida de Leonard Fournette, colega de Tom Brady nos Buccaneers

Leonard Fournette é, hoje, um dos grandes nomes da NFL. Mas antes disso, ele precisou superar a catástrofe causada pelo Katrina ao lado da família.


As luzes apagaram, as águas da enchente estavam subindo, e Leonard Fournette, então com 10 anos de idade, e sua família tiveram que chegar rapidamente ao viaduto da Avenida Claiborne na I-10, em Nova Orleans, durante o furacão Katrina.

O Grand Palace Hotel na Canal Street, onde eles escolheram se esconder do Katrina, um dos furacões mais catastróficos que atingiu os Estados Unidos, havia pegado fogo. Fournette estava com seus pais, Lory e Leonard Pai; sua avó, Lorraine Tyler; suas irmãs LaNata e LaTae e seu irmão mais novo, Lanard.

"A água estava tão alta que não podíamos carregar nossos avós pela água, porque a água estava até o pescoço", disse Fournette à ESPN.

"Um grande amigo do meu pai roubou um barco, e nós colocamos nossos pais e avós no barco e os levamos para a ponte de lá. ... Eu não sei de onde ele tirou aquele barco, sendo honesto".

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Algumas coisas que Fournette, agora com 26 anos, viu ainda assombram até hoje - coisas na água que ele não consegue esquecer - o peso de tudo aquilo em que ele ainda se agarra, com cada passo e cada corrida, mesmo agora como um dos melhores running backs da NFL e tentando superar uma lesão para ajudar a levar o Tampa Bay Buccaneers a um segundo Super Bowl consecutivo.

Só que este ano, ele está fazendo isso usando a camisa 7, uma homenagem para o 7º Distrito de Nova Orleans e para a cidade que ele tanto ama, e o time da cidade, o New Orleans Saints.

"Isso o formou", disse Lory à ESPN.

"Sou apenas uma amostra de onde eu venho", disse Fournette. "Então, é claro que vou levar isso comigo".

Durante quatro noites, ele e sua família dormiram com um lençol encharcado de chuva naquela ponte e rezaram. O que Lory mais se lembra? Eclesiastes 11:1. Diz: "Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás".

Eles fizeram viagens à casa da cunhada de Lory e ao Circle Food Store no fundo da rampa da Avenida St. Bernard, onde procuraram comida e fórmula para bebês. Eles encontraram uma churrasqueira e cozinharam para vários sobreviventes, apesar de Lory não ter comido. Ela não conseguia.

"Se não fosse por nossa fé, acho que teríamos tido um colapso nervoso", disse Lory. "Foi horrível".

Dentro do Superdome - lar dos Saints - o sobrinho de Lory, que tinha acabado de se alistar na Força Aérea, passou a noite acordado cuidando da mãe de Lory, das duas irmãs, de seus maridos e de seu outro sobrinho enquanto dormiam.

A família foi forçada a se mudar para um abrigo a 870 quilômetros em Portland, Texas, perto de Corpus Christi, por um ano, enquanto o pai e o avô de Fournette construíam sua nova casa em Slidell, Louisiana - que fica a cerca de 48 quilômetros de Nova Orleans. Das 1,5 milhões de pessoas que fugiram de suas casas na região da Costa do Golfo, cerca de 600.000 foram evacuadas, a maioria de Louisiana, e não puderam voltar para suas casas, de acordo com o Center for American Progress.

O tratamento médico que deram a Fournette, desenvolvido para ajudá-lo e a outros sobreviventes expostos a vários agentes patogênicos e doenças comuns em desastres naturais, fez com que ele vomitasse durante dias.

"Tivemos que tomar as vacinas para nos proteger e a maioria de nós ficou doente durante as duas primeiras semanas de escola", disse Fournette.

"Foi traumático. De verdade", disse Lory. "Você simplesmente não pode tomar as coisas como certas. Você realmente tem que agradecer pelas pessoas, pela água, pelas luzes, por um teto sobre sua cabeça. Você só tem que estar grato. Acho que isso realmente o impactou".

"Tivemos que crescer mais rápido"

Fournette atribui ao futebol americano por ser uma das poucas constantes em sua vida, o ajudando a superar as dificuldades provocadas pelo Katrina e passando sua infância no 7º Distrito, um dos bairros mais perigosos dos Estados Unidos.

"Era como um porto seguro", disse Cyril Crutchfield, técnico de Fournette na St. Augustine High School. "Essa era a única situação normal que aqueles jovens tinham".

É assim para muitas das crianças que, como ele, cresceram jogando futebol americano no Goretti Playground e mais tarde no Hart Park, onde a primeira coisa que eles aprendem não foram handoffs, receber passes ou tackle: aprenderam como se jogar no chão no caso de um acontecer um tiroteio.

"Essa é a primeira simulação que fazemos nos treinos", disse Crutchfield. "De vez em quando, tínhamos tiroteio, então a primeira coisa que fazemos - como na escola, uma simulação de tiroteio - tínhamos um exercício de tiroteio".

Em 2019, aconteceram 4.516 casos de crimes violentos entre os 394.498 residentes em Nova Orleans, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo FBI, fazendo dela uma das cidades metropolitanas mais violentas dos EUA. De acordo com a Comissão do Crime Metropolitano, 50% dos crimes violentos de Nova Orleans nos últimos três anos aconteceram no 5º e 7º distritos.

"Tivemos que crescer mais rápido do que qualquer um", disse Fournette. "Não é normal para uma criança da minha idade [ver isso]. Crescer no 7º Distrito - estamos acostumados com assassinatos, acostumados com homens sendo mortos - coisas assim. Tipo você testemunhar isso, [bem] diante de seus olhos. ... Tivemos a polícia perseguindo pessoas em nossos treinos. Tivemos que nos abaixar. Acontecia todo tipo de coisa."

Aquelas experiências não o endureceram, e seus prêmios e reconhecimento no futebol não o mudaram, mesmo quando todos da família Manning ao rapper Lil' Wayne foram ver ele jogar como o jogador nº 1 do colegial no estado de Louisiana antes de ser o nº 1 da ESPN no país. Ele se importava mais em conduzir seu time do que com títulos individuais.

Em 2013, Fournette impressionou o Greater New Orleans Quarterback Club quando, no meio de seu discurso aceitando o prêmio de Jogador do Ano, ele levou o troféu para Eugene Wells, um quarterback da rival East Jefferson High School que conduziu seu time a conquistar um campeonato estadual.

"Ele lhe deu o prêmio e disse: 'Você merece mais do que eu'", lembrou Crutchfield. "Ele ficou chocado. Quem faz isso?"

"Ele leva a cidade com ele"

Sem dúvida, Fournette teve a sorte de conseguir sobreviver. Mas ele não se esqueceu de casa, onde sua família ainda vive. As visitas são frequentes. Toda vez, as crianças pedem para conhecê-lo. Cria um burburinho na cidade.

"Assim que ele chega em Nova Orleans, é: 'Treinador, treinador, Fournette está em casa? Fournette está em casa?'" disse Crutchfield. "Parece que em qualquer lugar que eu vá, a primeira coisa [que ouço] é, 'Eu vou ser o próximo Leonard Fournette'".

"Isso traz esperança a eles", disse Crutchfield. "Ele é o coração não só da cidade, mas do estado da Louisiana".

Além disso, acrescentou o amigo Kenny Chenier, que produziu um documentário sobre Fournette na época do Ensino Médio: "Ele é do bairro deles, por assim dizer. Eles o olham como: 'Uau. Se ele consegue, talvez eu consiga'. Existe muito esse vínculo".

Fournette realiza lá um camp de futebol americano que atrai de 300 a 400 crianças. Crutchfield se lembra de dois anos atrás, cada campista recebeu um drone. Mas, mais importante ainda, ele tem sido generoso com seu tempo. Os mais próximos a ele sentem que ele tem muita inteligência emocional e empatia.

"Ele ama sua cidade natal, é o herói da cidade". Ele leva a cidade com ele", disse Chenier. "Ele sempre fala sobre a cidade, sempre fala sobre o 7º Distrito, tudo o que está por trás da mudança de número. Ele está muito envolvido com a cidade, mesmo estando fora há algum tempo entre Jacksonville e Tampa Bay".

Após o furacão Ida este ano, Fournette doou 50 mil dólares (R$ 287 mil) para os esforços de reconstrução no estado de Louisiana, que o amigo e companheiro de equipe Tom Brady igualou. A NFL Foundation contribuiu com 25 mil dólares (R$ 143 mil) e os Buccaneers com 15 mil dólares (R$ 86 mil). Ele encorajou outros a fazerem o mesmo, seja através de doações ou gift cards.

"No fim das contas, o que não nos mata nos fortalece", disse Fournette. "Foi assim que fomos criados lá".

Ele também doou 56.000 refeições às famílias necessitadas de Nova Orleans no auge da pandemia da COVID-19 e 50 mil dólares quando o furacão Harvey devastou Houston.

"Isso é o que Leonard tem de bom. Mesmo estando na Flórida por seu trabalho, ele nunca perde o contato com o que está acontecendo em casa. Ele nunca perde de vista a plataforma que ele tem", disse Chenier. "[Ele tem] noção de onde as pessoas têm necessidades e o que está acontecendo. É onde está seu coração. ... Ele dá uma ajuda imensa".