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Por que 169 ex-jogadores da NFL passaram a treinar futebol americano em escolas do ensino médio

Jogar na NFL não era mais uma opção. Então, eles resolveram voltar para a grande base do futebol americano: as escolas.


Eles jogaram futebol americano em seu mais alto nível - alguns por anos, outros por pouco tempo - e quando jogar não era mais uma opção, o esporte os trouxe de volta como treinadores.

Alguns foram levados para o futebol americano universitário, outros foram trabalhar para um ex-treinador de posição ou treinador principal na NFL.

Mas alguns voltaram para os campos que os iniciaram, para o futebol do ensino médio.

*Conteúdo patrocinado por Claro, Mitsubishi Motors, Samsung Galaxy, C6BANK e Magalu

Começando com um banco de dados da NFL que incluía os conhecidos 545 ex-jogadores da NFL que treinaram jovens ou foram preparadores de futebol nas últimas três décadas, a ESPN Research descobriu que 169 ex-jogadores da NFL eram treinadores principais no ensino médio durante a temporada de 2021 e outros 175 eram assistentes no ensino médio.

Também entre eles está Zach Line, que jogou sete temporadas na NFL com Minnesota Vikings e New Orleans Saints antes de se tornar o técnico da Oxford (Michigan) High School, onde ele se formou. Um estudante de 15 anos da escola foi acusado de quatro assassinatos em um tiroteio que matou quatro pessoas e feriu outras sete, incluindo um professor, no começo de dezembro

Um dos jogadores de Line, Tate Myre, do segundo ano, estava entre os assassinados. Line publicou em uma rede social dias depois que Myre "foi e sempre será uma luz para Oxford. É difícil colocar em palavras o que ele significava para mim".

O pior tipo de tristeza que os pais temem, as dificuldades da vida, intercaladas com tristezas e alegrias.

Como disse o ex-quarterback da NFL e atual treinador no ensino médio, Jon Kitna, nas últimas semanas: "Você está em uma posição para ajudar os jovens. Talvez você não esteja pronto para tudo que possa vir até você, mas no final você está lidando com felicidade, dificuldade, necessidades diárias - pois algumas necessidades básicas diárias são tão difíceis bem antes de chegar ao futebol americano. As vitórias são ótimas - todos nós amamos vencer - mas você descobre que há muito mais sobre a vida que tem que ser feito se você realmente quer vencer".

O futebol americano de ensino médio está repleto de ex-jogadores da NFL, desde jogadores Pro Bowl, como o ex-jogador dos Cowboys Jason Witten e o ex-quarterback dos Chargers Philip Rivers, que treinaram suas primeiras temporadas no ensino médio este ano no Texas e no Alabama, respectivamente; até o ex-cornerback dos Dolphins e Chiefs Patrick Surtain, cuja potência nacional na American Heritage High School em Plantation, Flórida, produz anualmente uma lista de potenciais candidatos à 1ª Divisão do College; até aqueles cujas carreiras na NFL foram muito mais curtas do que o esperado antes de encontrarem sua verdadeira vocação no esporte.

E isso é apenas o começo. Nossa pesquisa encontrou mais ex-jogadores da NFL que tinham treinado pelo menos uma temporada em universidades na última década, mas que haviam se demitido, se aposentado do cargo de treinador ou estavam entre empregos de treinador nesta última temporada. Vários tinham entrado nos rankings universitários. É provável também que alguns ex-membros da NFL que atuam como treinadores voluntários em suas escolas de ensino médio locais ou onde eles possam ter um de seus filhos no time.

"O nível de ensino médio não estava no meu radar", disse C.J. Anderson, ex-running back do Denver Broncos. "Se você tivesse me perguntado há alguns anos, eu teria dito que não pensava nisso. Mas então alguém me pediu que tentasse e eu comecei a pensar nisso. E depois que eu pensei, realmente decidi fazer, eu realmente decidi que era uma oportunidade muito boa para deixar passar".

Anderson acabou de terminar sua primeira temporada como treinador da Monte Vista High School em Danville, Califórnia. Ele é um dos mais novos treinadores ex-NFL trabalhando em nível colegial. O exemplo a ser seguido pode ser o treinador da Cherry Creek (Colorado) High School, Dave Logan, que jogou 119 jogos na NFL com Cleveland e Denver. Logan acabou de ganhar seu 300º jogo como treinador de High School em novembro e conquistou seu 10º título estadual no sábado.

Com tantos ex-jogadores da NFL treinando futebol americano no ensino médio, demos uma olhada em algumas de suas histórias, por todo os Estados Unidos.

"Eu amo, sinto que existe uma responsabilidade, tenho 25 crianças no time, que jogam tanto na defesa como no ataque, e os treinamos de todas as maneiras possíveis", disse o ex-jogador da NFL Nick Novak, que treinou Maranatha Christian High School, em San Diego, nesta última temporada. "Tem sido fantástico".

Jon Kitna, Burleson High School

Localização: Burleson, Texas

Currículo na NFL: Contratado como novato pelo Seattle Seahawks em 1996 e passou essa temporada no time de treino; 14 temporadas na NFL com Seattle, Cincinnati, Detroit e Dallas; 29.745 jardas de passe na carreira, 169 touchdowns; 141 jogos na NFL.

Kitna tinha 23 anos quando se formou na Central Washington University. Pensando que a NFL era um tiro no escuro, ele se candidatou ao cargo de treinador principal onde tinha recebido seu diploma do ensino médio: Lincoln High School, em Tacoma, Washington.

"Eu não consegui, mas acho que mesmo assim, logo após a faculdade, eu sabia que queria ser um treinador", disse Kitna. "Só levou um pouco mais de tempo de NFL do que talvez eu esperasse".

Foram necessários 141 jogos da NFL, 14 temporadas como jogador e um prêmio de Comeback Player do Ano, mas em 2012, Kitna, recentemente aposentado, se candidatou novamente a Lincoln e conseguiu seu primeiro emprego como treinador principal. Pouco depois de ter o aval, ele recebeu a confirmação de que estava no caminho certo.

"Na época, acredito que 83% das crianças em nossa escola eram de famílias na linha de pobreza ou abaixo dela", disse Kitna. "Naquele primeiro ano, nós viajamos para treinar 7 contra 7, coisa de um dia, tivemos que dirigir uma hora ou mais para chegar em nosso destino. Levamos 42 crianças naquela viagem, voltamos às 11h30 da noite. Quando voltamos, os ônibus [da cidade] não estavam circulando, nenhuma de nossas crianças dirigia, não havia pais para buscá-los.

"Colocamos todas as crianças nos carros, dividimos o grupo entre os treinadores, e eu estava deixando a última criança em casa à 1h30 da manhã, meu filho [Jordan] dormia no banco da frente, eu estava olhando para ele como um aluno do nono ano, meu filho, e tínhamos deixado todos esses jovens em casa, eu caí em lágrimas. Estes jovens não tinham muita gente em suas vidas que tivesse interesse neles. As luzes estavam apagadas quando eu os deixava em casa, às vezes eles batiam na porta até que alguém os deixasse entrar. Era apenas uma confirmação de que eu queria ajudar, fazer o que pudesse, levá-los para a faculdade, conseguir uma vaga acadêmica, mesmo que o futebol não fosse a carreira deles a longo prazo. Ajudar pessoas a seguir sonhos".

Kitna, que também treinou em uma escola preparatória do Arizona, Waxahachie (Texas) High School e passou um ano como treinador de quarterbacks do Dallas Cowboys, acabou de terminar sua segunda temporada em Burleson. Ele disse que tinha ofertas para permanecer na NFL depois que não foi mantido por Mike McCarthy na equipe dos Cowboys, mas foi no futebol colegial onde ele escolheu trabalhar.

Seu filho mais novo, Jamison, é calouro e todos os seus quatro filhos e sua esposa, Jennifer, estiveram envolvidos em sua carreira de treinador.

"Claro, se eu pudesse treinar Dak Prescott pelo resto de minha vida, talvez eu ficasse na liga", disse Kitna. "Talvez quando meus filhos mais novos terminarem o ensino médio, talvez isso seja algo que eu faça novamente, mas nós realmente gostamos do que fazemos. ... Estes jovens, eles têm muito pela frente... algumas destas crianças têm que atravessar o inferno só para chegar na escola todos os dias. Talvez eles estejam trabalhando para colocar comida na mesa, ou cuidando de seus irmãos porque sua mãe trabalha à noite, ou eles não sabem de onde vem a próxima refeição, e aqui estamos pedindo a eles, além de tudo isso, que se esforcem no campo, que se concentrem nas aulas, que tenham melhores atitudes na escola. Aprendi que é preciso ter compaixão, ter carinho, ajudá-los, apoiá-los. Mas no fim de tudo, quando eles enviarem fotos de seus filhos, convidarem você para o casamento deles. Essa é a parte boa; essa é a maior recompensa".

Reggie White Jr., Milford Mill Academy

Localização: Baltimore, Maryland

Currículo na NFL: 6ª escolha dos Chargers (1992); jogou no Super Bowl XXIX; média de 4,5 sacks na carreira, 6 fumbles forçados; 38 jogos na NFL.

Começando com o nome, porque muitos de seus jogadores também começam lá.

"Eu recebo correspondência o tempo todo pelo Hall of Famer Reggie White, meu pai também, que vive não tão longe de mim", disse White com uma gargalhada. "Eu me pergunto quão importantes eles podem ser, o cara faleceu há algum tempo, mas muitas vezes terei um aluno que diz: 'Treinador, treinador, acabei de pesquisar no Google, mas só o outro Reggie apareceu'."

"Meu pai, Deus abençoe meu pai, ele tem 84 anos, ele vem a todos os jogos e talvez há umas seis semanas estávamos em um jogo fora, ele desceu até a linha lateral durante o jogo e disse: 'Você tem correspondência'. E eu respondi algo como ‘Estou me preparando para chamar uma jogada, Cover 3', mas muito obrigado e provavelmente você pode colocar no banco’. Sim, ele trouxe a entrega na linha lateral."

White, cujo pai trabalhou em uma siderúrgica, está na Milford Mill há 19 temporadas e se formou na escola. Ele ensina Algebra I e liderou uma temporada de 8-1 em 2021 que teve os Millers no 1º lugar antes do playoff em sua região.

"Eu estudei aqui, este sistema escolar, nós aqui nas escolas públicas de Baltimore, somos família e é assim que fui tratado por meus treinadores", disse White. "Isso me fez querer ser a pessoa que ajuda alguém a encontrar seu caminho, a vencer, a chegar à faculdade".

A COVID-19 acabou com os playoffs em 2020 após uma temporada reduzida, e White disse que o fim da temporada/ano letivo de 2021 era mais, por vezes, sobre checar como estava o dia-a-dia dos estudantes e dos jogadores do que sobre exercícios de condicionamento.

White tem 44 jogadores na equipe nesta temporada, e "temos estado um pouco mais próximos do normal". Ele se tornou um dos 25 treinadores ativos em Maryland que venceram 100 jogos ou mais em 2016, mas ele confessa que os anos o fizeram enxergar as coisas de forma diferente.

"Eu tenho o primeiro filho de um garoto que treinei na equipe atualmente, e se você me perguntar o que me traz alegria depois de todos estes anos, eu não consigo mentir - quanto mais jovem eu fosse eu diria que vitórias, eu amava vencer", disse White. "Acho que agora são histórias de sucesso. Eles voltam e me contam, quando eu me perguntava se eles estavam ouvindo, eles ouviram o que eu disse. Não quer dizer que eu ainda não diga que só porque você diz querer algo, não quer dizer que você vai ter, lugares são conquistados de segunda a quinta-feira. Isso é definitivo."

C.J. Anderson, Monte Vista High School

Localização: Danville, Califórnia

Currículo na NFL: Chegou aos Broncos como novato (2013); um Pro Bowl, foi titular no Super Bowl 50; 3.497 jardas corridas na carreira; 71 jogos na NFL.

Depois de sua carreira na NFL, Anderson passou um ano como assistente ofensivo na Universidade da Califórnia antes de Monte Vista chamá-lo. O jogador de 30 anos já havia decidido que seu próximo capítulo seria como treinador, mas se viu em um time universitário.

"Eu fui para o cargo de Adams State [em Alamosa, Colorado], não consegui, mas Aristotle Thompson [treinador de running back na Califórnia] conhecia alguém que tinha recusado o emprego em Monte Vista e ele me perguntou se eu estava interessado", disse Anderson. "E fui embora... quando dei por mim, estava conversando com jogadores que provavelmente foram para casa e pesquisaram quem eu era no Google".

Anderson, que jogou sete temporadas na NFL depois de ser um dos novatos de Denver em 2013, disse que ele evoluiu para um "cara old-school" com uma abordagem old-school sobre condicionamento, esforço e um "amor exigente".

Mas ele abraçou a forma como seus jogadores consomem informações e sua substancial lista de contatos. Ele usou o FaceTime em um tablet ou em seu telefone para ter antigos companheiros de equipe, como Aqib Talib, Demaryius Thomas e o Hall of Famer Champ Bailey, fazendo observações a seus jogadores.

Ele diz que frequentemente se vê repetindo as palavras que uma vez lhe foram ditas por ex-técnicos que ele chama de mentores, tais como Vance Joseph, coordenador defensivo dos Cardinals, Eric Studesville, coordenador co-ofensivo dos Dolphins, ou Gary Kubiak, ex-técnico dos Broncos e Texans.

"Às vezes, se a carreira de um jogador termina e isso está fora de seus planos, pode ser difícil voltar ao esporte e dar mais, mas um jogador como C.J., um cara autodidata que teve uma boa carreira, pode ver o treinamento sob uma ótica diferente, talvez para poder ajudar as crianças, seu futuro é ser treinador", disse Joseph. "Pessoas como C.J., enquanto jogadores, eles farão perguntas, vão pedir explicações. E esses caras fazem de você um treinador melhor, porque você simplesmente não pode aparecer e dizer: 'Porque eu disse isso'. E eu acho que eles se lembram disso quando estão como treinador".

A equipe de Anderson terminou 7-3 e chegou às finais nesta temporada.

"Eu diria para as pessoas, 'Abrace tudo o que vem com isso, relacionamento com seus jogadores, os pais, a comunidade'", disse Anderson. "Meus treinadores na escola mudaram minha vida, em termos de estrutura e disciplina. Se você conseguir que algumas crianças tenham boas lembranças de você daqui a 20 anos, isso será incrível".

Rodney Lossow, South High School

Localização: Minneapolis

Currículo da NFL: 10ª escolha dos Patriots (1988); time de treino dos Patriots, Rams; período com Calgary Stampeders (CFL) e Orlando Thunder (WLAF); 0 jogos na NFL.

Lossow talvez fale por muitos jogadores que descobriram que amam o futebol americano mais do que o futebol americano os amava.

"De certa forma, acho que é como alguns de nós voltam ao futebol americano", disse Lossow. "Serei sincero com você, não estava exatamente amando o futebol americano quando meus dias de atleta terminaram, o aspecto comercial dele, que você concluiu o seu tempo muito antes do que poderia imaginar ou que simplesmente quase nenhuma parte da decisão é sua".

Lossow tem quase três décadas como treinador, primeiro na Roosevelt High School em Minneapolis, depois nos programas de futebol juvenil da região e depois na South High School. Ele anunciou recentemente no jantar de futebol do time que esta temporada, após terminar em 4-5, seria sua última.

"Vou continuar ensinando, vou continuar investindo no esporte", disse Lossow. "Espero que possamos fazer com que as pessoas não tenham que se preocupar de onde virá o próximo dólar ou o próximo capacete, esse é o meu objetivo".

Lossow disse que valorizava e buscava vitórias com tanto empenho quanto qualquer treinador, mas ele disse que sempre tentou ajudar seus jogadores a olhar além do esporte. South está a uma quadra de onde George Floyd foi assassinado em maio de 2020, e muitos dos estudantes, muitos de seus jogadores, foram bastante afetados.

"Existem aqui três de nossas escolas de ensino médio que estão na vizinhança onde ocorreu o assassinato e os protestos que ocorreram em seguida", disse Lossow. "Na época, estávamos todos em Zoom por causa da COVID-19, então eu sabia que nossos jovens estariam nas ruas. Eu queria que eles usassem sua voz para serem ouvidos e queria ouvir de nossos jovens que falassem apenas a verdade".

"Como homem, como treinadores, precisávamos ouvir e realmente nos perguntar: o que você vai fazer em seu projeto? Como você vai fazer mudanças? Era importante para nossos jogadores, nossos estudantes, poder abordar as questões raciais que eles enfrentam, e para nós, como treinadores, nos perguntarmos: 'O que são coisas essenciais e fundamentais que os ajudariam a encontrar seu coração, sua alma e sua identidade?'"

O mais novo dos três filhos de Lossow, Elijah, acaba de terminar sua última temporada, outra razão para o treinador "se afastar". Mas no fim ele se sente confortável com o conhecimento que ele descobriu o que o jogo significa para ele "e o que ele me deu".

"Há alguns anos, perdemos por 73-0 para [Minneapolis] Southwest com um grupo de jovens do segundo ano tentando jogar contra um time maior e mais experiente, e tudo isso só agita sua alma enquanto você está lá e tenta ajudá-los", disse Lossow.

"Mas então você pensa - e eu disse isso também aos meus treinadores - se todo o seu propósito é apenas ganhar partidas de futebol americano, há outros lugares onde você pode treinar. Mas qual é o nosso propósito aqui? Nosso propósito é ajudar estes jovens a crescer. E eu trabalho com dois jovens treinadores que também são jovens incríveis, e disse a mim mesmo: "Quando sentir que é hora de me afastar e os treinadores estiverem prontos, eles vão aceitar e encontrarão seu espaço em tudo isso e manterão seu propósito em coisas maiores do que ganhar uma partida de futebol americano".