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Como a NFL reagiu e fez uma temporada completa em meio à pandemia de COVID-19

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Paulo Antunes analisa performance defensiva dos Buccaneers no Super Bowl e elenca atuação entre as melhores da história (5:11)

Equipe de Tampa Bay dominou o Kansas City Chiefs no Super Bowl LV no último domingo (7) (5:11)

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O quarterback do Kansas City Chiefs Patrick Mahomes viu seu barbeiro ser testado para a COVID-19 antes de fazer um corte seguro na véspera de uma partida da NFL. Depois, um jogo de Uno garantiu o entretenimento no final da noite durante a semana pré-Super Bowl.

Ex-QB dos Lions, Matthew Stafford passou uma semana isolado no hotel, viajou de avião para Minneapolis e foi titular em um jogo sem ter treinado sequer uma vez.

Michael Dunn, linha ofensiva dos Browns, se preparou para ser titular nos playoffs treinando no estacionamento do prédio onde mora. Sua namorada fazia as chamadas das jogadas.

E assim foi. Os Broncos transformaram um recebedor em um quarterback às pressas. Sam Darnold, dos Jets, fez sua família passar pelo protocolo da NFL antes de visitá-la no Natal. E treinadores comandaram atividades virtualmente por meses.

Jogadores e comissões técnicas da NFL suspenderam partes de suas vidas para superarem a temporada de 2020, que chegou ao fim com a vitória dos Buccaneers sobre os Chiefs no Super Bowl LV. Eles reprogramaram seus hábitos, suspenderam a noção de competitividade que tinham e aceitaram uma versão ainda mais forte dos protocolos de segurança já estabelecidos em um país que sofre com a pandemia da COVID-19.

E os resultados foram melhores do que qualquer um poderia imaginar. Quando os times chegaram aos centros de treinamento em 28 de julho, os casos do novo coronavírus nos EUA já superavam os 4,3 milhões, e mais de 140 mil pessoas haviam morrido. Muitos questionaram a viabilidade de completar uma temporada cheia, e as preocupações só aumentaram na semana 4, quando um surto da doença atingiu os Titans. Mas, no fim, a NFL adiou apenas cinco de seus 256 jogos de temporada regular, e reagendou outros 10, mas nenhum deles foi cancelado. E como a liga conseguiu isso?


Apoiada por um investimento de mais de 100 milhões de dólares, a NFL e a Associação de Jogadores da NFL criaram um sistema de controle de infecção tão robusto que passou por análises científicas de vários órgãos fora do futebol americano.

A média de 0,076% de casos positivos desde 1º de agosto – 724 infecções em 954.830 testes – ficou muito abaixo dos 6,8% da população geral no mesmo período de tempo. Mesmo enquanto os Estados Unidos viviam sua pior crise sanitária em um século, a NFL viu apenas três de seus funcionários serem hospitalizados – um treinador, um jogador e um árbitro.

O esforço foi exaustivo, mas talvez precise ser repetido de certa forma na próxima temporada, dependendo de como a campanha de vacinação se espalhar pelo país nos próximos meses. Mesmo assim, a pandemia levou uma liga que se mexia lentamente para uma era de inovação que vai impactá-la nos próximos anos.

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Lidando com os riscos

No começo da pandemia, a questão fundamental que rodeava os esportes profissionais era mais se os jogos deveriam acontecer, e não como eles poderiam acontecer. Isso colocaria os jogadores, treinadores e as comunidades em perigo? Poderia absorver os recursos médicos que seriam destinados aos cidadãos mais vulneráveis?

Diretor executivo da Associação de Jogadores, DeMaurice Smith respondeu as questões de um ponto de vista ético e moral. “Não vamos fazer nada a qualquer custo”, ele disse. Allen Sills, um neurocirurgião contratado pela NFL em 2017 para ser chefe da equipe médica principalmente pelos protocolos de concussão, disse que os donos e o comissário Roger Goodell garantiram que “se eu sentisse, a qualquer momento, que era perigoso continuar, eles estariam preparados para agir”. No fim, a NFL possibilitou proteger seus funcionários e membros de uma forma melhor do que teria sido se a temporada fosse cancelada e todos fosse mandados para suas comunidades. Eles estavam motivados, claro, e gastaram milhões de dólares para evitar uma perda de bilhões nas 17 semanas seguintes – os contratos de TV da NFL somaram cerca de 10 bilhões de dólares só em 2020.

Quando sua temporada acabou, Tyler Lockett, dos Seahawks, expressou incerteza sobre a vida sem os protocolos da liga. “Pense em tudo que passamos durante o ano”, ele disse. “Ser testado todos os dias, tentar ficar longe das pessoas o máximo possível, ter cuidado quando viajamos e com o lugar onde estamos. Agora, temos que voltar para casa, de volta para o mundo real. É difícil voltar à realidade quando você esteve longe dela por tanto tempo.” A liga decidiu que não queria, e que não conseguiria, repetir os ambientes de bolha criados pela NBA, WNBA, NFL e MLS. Em vez disso, eles aceitaram que alguns de seus membros seriam infectados e construíram um plano baseado no que os especialistas de saúde pública defendem: testes frequentes, distanciamento físico, rastreamento de contato e isolamento de pessoas infectadas, sempre fazendo mudanças quando necessário.

A liga contratou a BioReference Laboratories Inc., que criou uma rede de 32 sedes de testes e cinco laboratórios ao redor do país para garantir que os testes teriam resultados em até 24 horas. Ela comprou rastreadores eletrônicos, obrigatórios a todos que estavam nas instalações dos times e nos estádios, e analisaram as pessoas que tiveram contato em tempo real para identificar possíveis infecções. Na maioria dos casos, isso era feito em minutos depois de um teste positivo.

Enquanto a liga reorganizava suas estruturas, cada time nomeou uma pessoa responsável pelo controle de infecções. Os times alteraram seus vestiários e academias; times de cidades mais quentes criaram salas de reunião a céu aberto para diminuir o risco de contaminação. E a maior parte dos times dobrou o número de ônibus e, em alguns casos, somaram um outro avião às suas estruturas, tudo para facilitar o distanciamento social durante viagens. Um dos momentos chave aconteceu em setembro, quando a Associação de Jogadores insistiu em testes diários durante a temporada regular para aumentar as chances de identificar todas as infecções e evitar surtos da doença nos times. Jogadores contratados, por exemplo, precisavam apresentar cinco testes negativos antes de se juntarem ao restante de suas novas equipes.

“Se não testarmos todos os dias”, disse Smith, “a temporada não teria acontecido desta forma.

E o processo de administração de quase um milhão de testes feitos com a BioReference não influenciou no acesso público aos exames.

Identificar casos positivos era o primeiro passo. A força tarefa não só rastreou cada infecção, mas também identificou tendências que poderiam levar a comportamentos de risco dos times.

Adaptação na temporada

Quatro outros pontos importantes aconteceram durante a temporada e causaram mudanças drásticas depois do surto nos Titans.

Primeiro, a NFL percebeu que 90% das infecções era visíveis em testes entre dois e cinco dias após a exposição ao vírus. Ela também descobriu que, pelo rastreamento de contato, muitas transmissões aconteceram em menos de 15 minutos de contato. Com essas informações, ela criou uma classificação de contatos de “alto risco” para reduzir a chance de alguém se infectar e espalhar o vírus antes da testagem. Em vez de confiar apenas na distância e no tempo de exposição, o nível de ventilação e o uso ou não de máscaras também passaram a ser critérios de definição do risco dos contatos.

Todos os de alto risco precisavam passar por um isolamento de cinco dias, mesmo sem apresentar sintomas e testar negativo. A mudança fez alguns times perderem jogadores, principalmente na semana 12, quando os Ravens estavam sem 12 atletas contra os Steelers e os Broncos não tinham nenhum de seus quatro principais quaterbacks, mas ela também evitou novas correntes de transmissão. Mais de 40 atletas testaram positivo depois de contatos de alto risco durante os cinco dias de isolamento. Depois, a liga começou a conduzir testes de sequenciamento genético, um processo que permitia aos cientistas entender a estrutura do vírus em cada infecção.

Na prática, isso significava que a liga poderia entender se múltiplas infecções em um time tinham, ou não, a mesma fonte. Em terceiro lugar, a liga elevou seus protocolos e começou a proibir encontros pessoais, começou a obrigar o uso de máscaras durante treinos e que os alimentos distribuídos nos centros de treinamento fossem feitos para consumo fora das instalações dos times. Somando tudo isso, de acordo com um artigo publicado pelo CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças), as estratégias da NFL foram relevantes para além do futebol americano.

Os dados eram ainda mais importantes pelo fato de que quase 40% dos testes positivos da liga foram em casos assintomáticos.

'O virus não cruzou as quatro linhas'

Claro que, para conseguir jogar futebol americano no meio de uma pandemia, é preciso de um pouco de sorte. Neste caso, a NFL teve a vantagem de que os jogos não eram palcos de transmissão do vírus. Nenhuma infecção foi rastreada durante uma partida. A mais provável explicação, de acordo com Sills, é que as interações entre jogadores eram por períodos muito curtos de tempo. Os rastreadores sugerem que cada uma durava até seis segundos. E mesmo somando todas elas, o tempo não era grande o bastante para a transmissão.

O tamanho dos estádios e a circulação de ar neles também ajudou a reduzir os riscos. Tanto que a NFL se sentiu confiante o bastante na ciência e no tamanho de seus estádios para permitir que times recebessem pequenas quantias de torcedores. Na temporada regular, 19 times aceitaram um total de 1.181.066 torcedores. A NFL afirma que nenhum surto foi registrado por conta das torcidas nos estádios por todo o país, mas muitos especialistas criticaram a liberação, argumentando que houve “irresponsabilidade” ao permitir a reunião de milhares de pessoas em jogos: “Ausência de evidência não é evidência de ausência”, foi um dos argumentos usados pelos críticos.

‘Isso tem um impacto em você’

Assim como muitos jogadores, Mahomes tem o hábito de cortar seu cabelo antes dos jogos. Um simples ritual que exige esforço extra em 2020. Antes de fazer o corte, Mahomes garantiu que seu barbeiro fosse testado para a doença, e a barbearia precisava estar fechada para quando o quarterback chegasse. Rituais pós-jogo começaram a desaparecer. Alguns, como a troca de camisas, foram substituídos. Jogadores e treinadores também precisaram lidar com os mesmos sentimentos causados pelo isolamento social de milhões de pessoas ao redor do mundo.

“Mesmo quando eu ficava com meus amigos ou com pessoas diferentes, até mesmo com a minha família, eu tinha que garantir que fosse o mínimo possível”, disse Mahomes. “Isso tem um impacto sobre você. Estamos acostumados a ficar com outras pessoas, a aproveitar o mundo longe do futebol americano, coisas que não são o trabalho e o esforço diário. Então, precisamos encontrar outras formas de fazer isso.”

Em uma noite de dezembro, isso foi resolvido com um baralho de Uno em casa com a esposa, Brittany, e o irmão, Jackson. Depois de descartar o conceito de bolha, a NFL concordou em deixar os jogadores morarem em suas casas e andarem por suas comunidades locais, sempre incentivando condutas que evitassem o risco de contaminação. Jogadores estavam sujeitos a multas se participassem de eventos com mais de três pessoas, por exemplo, quando estavam fora das instalações de seus times. Dez jogadores dos Raiders foram multados entre 15 e 30 mil dólares, cada, por tirarem suas máscaras em um evento de caridade, e o quarterback dos Texans Deshaun Watson foi multado em 7500 dólares por ir à abertura de um restaurante com dezenas de outras pessoas.

Cory Undlin, coordenador defensivo dos Lios que perdeu a semana 16 por ter tido contato de alto risco com uma pessoa infectada, disse que teve uma rotina praticamente igual por 170 dias seguidos: “Chego no prédio e volto para casa. Vivo sozinho. Sempre achei que estaria seguro, mas nunca se sabe.” Histórias parecidas tomaram conta da liga na temporada. Sam Darnold disse que seus pais e sua irmã viajaram de Los Angeles a Nova York para passarem Natal com ele. Antes de vê-los, todos precisaram testar negativo em seus exames.

Matthew Stafford teve um contato de alto risco com uma pessoa que testou positivo na semana 9, obrigando-o a se isolar por cinco dias. Isso significa que ele ficou de terá a sexta em um hotel em Michigan, recebendo comida na porta e sem poder participar dos treinos ou visitar sua esposa e filhas. Se continuasse testando negativo, Stafford poderia pegar um avião particular para Minneapolis, se isolar em hotel lá e voltar ao time no domingo, horas antes de encarar os Vikings.

Na última noite dentro do quarto de hotel em Michigan, Stafford recebeu uma ligação dizendo que uma de suas filhas precisava ir ao hospital depois de cair de uma cadeira alta. A esposa, Kelly, não conseguiu alguém que pudesse ficar em casa com o restante das crianças. Então, Stafford deixou o hotel, pegou seu carro e foi para casa. No caminho, ele ligou para Bob Quinn, general manager do time, para contar o que estava acontecendo e confirmar se, ao entrar em casa, ele estaria rompendo o isolamento e ficaria proibido de jogar contra os Vikings. Quando estava chegando em casa, sua esposa encontrou alguém para ficar com as crianças. Stafford voltou atrás e retornou ao hotel sem quebrar seu isolamento.

'Você não pode jogar com a COVID’

Ligações inesperadas na madrugada se tornaram hábito para general managers e treinadores da NFL. As rotinas de testes mudavam de time para time, mas, no geral, os laboratórios garantiram resultados em até 24 horas – que eram entregues no meio da noite. Em um caso isolado, os Ravens receberam um teste positivo de Dez Bryant horas antes da data limite para deixar o wide receiver fora de uma partida.

“As ligações às 3 da manhã com os resultados dos testes? Aquilo era divertido”, disse Andy Reid, técnico dos Chiefs.

Toda a comunidade da NFL precisou aceitar que alguns jogos teriam vantagens injustas. Os Broncos improvisaram o recebedor calouro Kendall Hinton como quarterback horas antes do jogo contra os Saints na semana 12. Também na semana 12, os Ravens perderam para os Steelers sem o quarterback Lamar Jackson e outros 12 jogadores em uma partida que foi adiada até quarta-feira.

Os Lions ficaram sem o técnico Darrell Bevell e quatro outros auxiliares na derrota para os Buccaneers na semana 16, e os Browns voltaram aos playoffs depois de 19 anos sem o técnico Kevin Stefanski.

Na maior parte dos casos, a NFL recusou pedidos de adiamento de jogos até que jogadores importantes pudessem voltar.

Uma temporada histórica, marcada por grandes decisões e uma revolução que ultrapassou tudo que poderia ser imaginado no mundo do futebol americano em 2020.