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Como Josh Allen calou os críticos para liderar temporada histórica dos Bills e entrar na briga pelo MVP da NFL

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Quando foi o exato momento em que você percebeu que Josh Allen te fez parecer um idiota? Quantos passes brilhantes ele teve que fazer para você questionar sua posição quando se trata de prever o sucesso de um quarterback da NFL? Porque, caro leitor, a maioria de nós não chegou até aqui facilmente.

Demorou algum tempo para que eu vestisse de bom grado esse terno de palhaço que Allen está me fazendo vestir. Mas venho em paz, à beira dos playoffs da NFL, pronto para assumir minha vergonha.

Este é um espaço seguro, se você estiver pronto para fazer o mesmo. Porque há muitos de nós lá fora. O Football Outsiders o chamou de "piada" e disse que "todas as evidências que temos sobre Allen o levam a ser um fracasso". Troy Aikman disse que seria difícil imaginá-lo melhorando sua precisão, que ele nunca tinha visto igual isso em 17 anos estudando o jogo. O analista principal do Pro Football Focus zombou dele por ter perdido a rede nos treinos do Senior Bowl. Um editor do ProFootballTalk brincou que Roger Staubach era mais preciso, mesmo aos 76 anos. Até Dan Orlovsky, da ESPN, expressou ceticismo de que Allen seria capaz de processar as coisas com rapidez suficiente para se tornar um ‘franchise QB’.

Nunca escrevi um texto longo expondo minha crença de que o QB do Buffalo Bills seria um fracasso, mas acreditava bem no fundo da minha alma. Eu ri quando vi seus números em Wyoming. Eu ri quando ele foi draftado à frente de Lamar Jackson. O sorriso bobo de Allen, sua mecânica desajeitada, sua ingenuidade quando se tratava de escrever coisas ofensivas no Twitter - nada disso gritava “franchise quarterback”. Seus primeiros dois anos na NFL (pior da liga em porcentagem de passes completos; 25° em rating) fizeram pouco para me convencer do contrário. Portanto, nesta temporada, mesmo depois de acabar com os Dolphins lançando para 415 jardas e quatro touchdowns em uma vitória por 31-28 na semana 2, havia uma (grande) parte de mim que ainda não estava pronta para admitir que Allen poderia, de fato, ser um talento geracional.

Até que o que começou como uma onda de calor simplesmente se tornou o novo normal para Josh Allen. Depois de vê-lo passar para 415 jardas e três touchdowns contra os Seahawks em uma vitória na semana 9 - enquanto completava 82% de seus passes - comecei a me perguntar para qual universo alternativo eu havia sido teletransportado. Afinal, estamos falando de um cara que completava apenas 56% dos passes em Wyoming. Como calouro na NFL, ele piorou, completando 53%.

Mas neste ano, Allen acertou 69,2% de seus passes, a 25ª melhor temporada na história da NFL, em seu caminho para estabelecer um recorde dos Bills para jardas aéreas. Sabe quem nunca teve uma temporada em que completou pelo menos 69,2% de seus passes? Tom Brady. Peyton Manning. Os únicos jogadores à frente de Allen (81,7) no QBR este ano? Aaron Rodgers (84,4) e Patrick Mahomes (82,9).

Então, enquanto os Bills se preparavam para sediar seu primeiro jogo de playoff desde 1996 e com Allen ganhando argumentos para o prêmio de MVP, decidi embarcar em uma missão de averiguação para pelo menos começar a entender como eu - e, em minha defesa, tantos outros - fui tão mal na avaliação de Allen. Foi um excesso de confiança na análise? Foi apenas arrogância? Ou ele é a prova de que você pode, de fato, melhorar sua precisão de passe, desmascarando uma lenda urbana de longa data da NFL, que diz que isso não é possível.

Como Josh Allen se tornou o Capitão América para os torcedores de Buffalo em três anos?


Jordan Palmer que eu – e, por lógica, você - entenda algo: a ideia de que você não pode melhorar a precisão de um quarterback por meio de treinamento é falsa.

Palmer jogou quatro temporadas na NFL, fez apenas 18 passes na carreira e, até recentemente, era conhecido principalmente como o irmão mais jovem e menos talentoso de Carson Palmer. Mas depois que sua carreira de jogador terminou em 2014, ele se reinventou como um guru para jovens quarterbacks, e Allen está entre eles. Eles passaram os últimos três anos trabalhando juntos, Allen fazendo milhares de passes enquanto Palmer olhava, essencialmente um Yoda da Califórnia comandando sua própria academia Jedi. (Joe Burrow e Sam Darnold também contam com Palmer como mentor.)

A prova está nos números: depois de ficar em último lugar na NFL em porcentagem de passes completos em suas duas primeiras temporadas (55,8% em 2019), Allen este ano saltou para os cinco primeiros, ao lado de quarterbacks como Rodgers, Drew Brees e Deshaun Watson. Ele é apenas o quarto QB nos últimos 20 anos a aumentar sua porcentagem de passes completos em pelo menos 10 pontos percentuais de uma temporada para a outra.

Palmer é rápido em desviar o crédito pela melhora dramática de Allen, dizendo que os treinadores da equipe dos Bills, como o coordenador ofensivo Brian Daboll e o técnico de quarterbacks Ken Dorsey, merecem a maior parte dos elogios. Mas Palmer também vai confessar que viu potencial para um grande salto para Allen durante a incomum off season.

"Certamente, eu esperava grandes coisas este ano", diz Palmer. "Mas até eu estou surpreso com o quão consistente ele está sendo e com a quantidade de passes perfeitos que ele está fazendo. Ele terá pelo menos dois ou três passes em um jogo onde, se ele errar só um pouco, pode acabar com o outro time. Mas ele está acertando todos”.

O potencial de Allen para transformar seu braço – que mais parecia um canhão - em uma máquina de precisão sempre esteve lá, Palmer diz, mas a chave para destravá-lo estava na verdade em seus pés, não na parte superior do corpo. "Ele mudou drasticamente a base", diz Palmer. "Ele costumava saltar para cima e para baixo na ponta dos pés, com uma base estreita, o que o fazia perder o passo quando ia fazer o passe. Há um efeito cascata quando você faz isso. Agora ele aprendeu a jogar com uma base muito melhor. Quando você joga com os dois pés no chão, você cria mais energia e tem mais equilíbrio”.

Nesta época, temos uma compreensão muito melhor de como as coisas funcionam, graças aos avanços da tecnologia. Claro, um guru de quarterback com 20 anos de experiência pode ser capaz de assistir aos treinos na off season e fazer ajustes sutis no estilo de um quarterback, mas hoje em dia esse mesmo treinador também pode olhar para seu iPad e ler - graças a um microchip implantado dentro a bola - a velocidade, a taxa de rotação e a integridade de uma espiral em segundos.

Palmer hesita um pouco em falar sobre o outro aspecto que ele acha que estimulou o progresso de Allen neste ano, porque ele não quer que pareça insensível, mas não há dúvida em sua mente que as restrições de viagens causadas pela COVID-19 forçaram seus clientes (Allen entre eles) a viver em uma bolha que eles nunca vão experimentar novamente.

"Pense assim", diz Palmer. "Eles não foram às OTAs, o que é uma perda de tempo para muitos caras. Se você é alguém como Drew Brees, é melhor ficar em casa com seu treinador pessoal. Não havia casamentos para ir. Eles não tinham torneios de golfe de caridade. Ninguém fazia comerciais. Ninguém ia para Vegas no fim de semana. Ninguém fez nada disso por conta da COVID”.


Nem todo mundo errou quando se trata de Allen, é claro. Algumas pessoas se destacaram e se orgulharam de suas primeiras análises de Allen, e agora estão desfrutando de uma volta olímpica. Eu decidi chamar o maior defensor de Allen que eu conheço - meu colega da ESPN, Mel Kiper Jr., que classificou Allen como o melhor QB da classe durante o processo do draft - e deixá-lo acabar comigo. “Suas análises não estavam no nível que vocês desejam”, diz Kiper. "Mas é por isso que os chamo de estatísticos. Para mim, é preciso olhar mais a fundo. É por isso que chamo de análise preguiçosa. Sempre usei números, mas são só uma ferramenta”.

Então, por que tantos de nós nos prendemos às falhas de Allen quando Kiper não pode evitar ser influenciado por seus pontos fortes?

“Ele estava tentando fazer algo acontecer naqueles jogos ruins”, diz Kiper. "Sim, ele foi descuidado com sua mecânica, mas também não fez os passes fáceis de 5 jardas que não ajudariam em nada o time”.

Também não sabíamos que Allen havia perdido quatro jogadores do calibre da NFL que haviam se formado no ano anterior. Eles podem não ter sido escolhidos na primeira rodada, mas no oeste da montanha, o talento de primeira linha não chega com todas as classes de recrutamento da mesma forma que acontece na SEC.

No final do ano, Allen machucou o ombro e teve que perder dois jogos contra rivais de Mountain West, perdendo a oportunidade de melhorar um pouco suas estatísticas. Apesar de saber que era provável que fosse uma escolha de primeira rodada, Allen insistiu em retornar para o jogo do Wyoming contra Central Michigan no Idaho Potato Bowl. Em seu melhor jogo da temporada em termos de QBR (89,8), ele lançou três touchdowns e levou seu time à vitória.

"Ele não desistiu do time, não desistiu do ano", diz Kiper. "Lembre-se, ninguém mais lhe ofereceu uma bolsa de estudos. Então, ele tinha um sentimento de lealdade para com Wyoming e seus companheiros de equipe. E você vê a mesma coisa agora em Buffalo. Aqueles caras naquele vestiário o amam. Ele inspira esse tipo de lealdade”.

Kiper é o primeiro a reconhecer que um dos maiores fatores no desenvolvimento de um jogador é a estabilidade da franquia que acaba ficando com ele, mas ainda é algo que não damos a devida importância. Allen estava totalmente confuso em 2018, quando quatro quarterbacks foram selecionados nas primeiras 10 escolhas. E se ele tivesse sido escolhido por Cleveland como o número 1 geral (ou n°4) e treinado por Hue Jackson e Freddie Kitchens? E se ele tivesse ido para os Jets de Todd Bowles e, mais recentemente, Adam Gase? Allen teria mudado essas franquias, salvado aqueles treinadores de seus empregos? Ou será que o ritmo constante da má administração e do drama nessas franquias teria sobrecarregado seu desenvolvimento?

“Muito crédito deve ir para [o coordenador ofensivo] Brian Daboll”, diz Kiper. "Brian deu a Josh a confiança, a liberdade para sair e comandar o time da maneira que ele enxerga ser a melhor, em conjunto com as jogadas que ele está chamando. Ele trabalhou para transformar Josh em um quarterback que pode soltar o braço, mas também ser paciente o suficiente para manter as correntes se movendo. Acho que Daboll vai conseguir um emprego de treinador principal por causa do que fez com Josh”.


Brian Daboll não mede palavras quando se trata de Josh Allen.

Ele o ama. Tipo, ele realmente o ama.

Quando a avó de Allen morreu em novembro, pouco antes do jogo de Buffalo contra Seattle, ele estava emocionalmente destruído. Ele decidiu jogar de qualquer maneira. Depois do jogo, que marcou sem dúvida o melhor desempenho de sua carreira, ele foi para o vestiário, ansioso para encontrar Daboll. Quando ele finalmente o fez, ele caiu nos braços de seu treinador. Ambos soluçaram.

Justo dizer que é uma relação mais do que simplesmente “esse cara vai me tornar técnico principal em algum lugar”.

"Eu conheço seus pais e sua família. Eu sei como ele foi criado, e você simplesmente não consegue não torcer por ele", Daboll me diz, no final da temporada, quando eu ligo para perguntar se ele poderia explicar como ele e Allen se tornaram mais próximos do que apenas colegas de trabalho. "Passamos muito tempo juntos nos últimos três anos e ele significa muito mais para mim do que apenas um quarterback. O relacionamento que construímos é algo especial e sempre será. Eu só me importo com a pessoa. Sou muito grato por poder treiná-lo, mas também por poder chamá-lo de amigo”.

Daboll diz que, durante todo esse tempo, ele nunca acreditou que Allen não era preciso. Claro, seus números em Wyoming podiam sugerir isso, mas seus treinos com os Bills não. Quando lhe pediram para passar a bola, ele a colocou nos lugares corretos. Houve momentos em que ele precisava entender quando usar força e quando usar toque, mas ele dificilmente é o primeiro QB a possuir um braço tão forte assim. (John Elway foi atormentado por essa questão durante anos.) Ao longo de três anos com Daboll e um grupo relativamente consistente de recebedores em Buffalo, Allen aprendeu quando desacelerar e quando usar seu talento.

"Essa é uma narrativa que existia, mas há uma diferença entre a porcentagem de conclusão de passes e precisão", diz Daboll.

Os Bills - com Allen constantemente pressionando o pé no acelerador - evoluíram para um dos times mais agressivos e divertidos da NFL. Eles passam a bola 64% das vezes na primeira descida, de acordo com ESPN Stats & Info, a maior taxa de qualquer equipe com uma campanha positiva nos últimos 20 anos. Eles se alinharam com quatro wide receivers 155 vezes este ano, segunda maior marca da liga. Em 43% de suas jogadas, os Bills tinham alguém se movimentando pré-snap, uma estatística que não parece significativa até que você percebe que, em 2019, esse número foi de 25%, segunda marca mais baixa da liga.

Este ano, os Bills contrataram Stefon Diggs (127 recepções e 1.535 jardas), mas Allen está distribuindo a bola para todos. Treze jogadores diferentes receberam pelo menos um passe para touchdown este ano, empatando um recorde da NFL. Como Diggs, Cole Beasley - em seu nono ano na liga - estabeleceu recordes de carreira em recepções (82) e jardas (967). É apenas a segunda vez na história da franquia que dois recebedores superaram 80 recepções na temporada.

"Eu disse a Josh que acho que ele fez três dos melhores passes que eu já vi na minha vida", Beasley me disse após a vitória dos Bills na semana 15 por 49 a 19 sobre Denver. "Quando você está jogando com um cara assim, te motiva a ficar desmarcado em todas as jogadas, porque você sabe que ele vai te encontrar”.

Allen também transformou Daboll em um dos candidatos a treinador principal mais cobiçados da liga, um desenvolvimento que é quase impensável considerando os resultados medianos de Daboll em três passagens anteriores como coordenador ofensivo com Browns, Dolphins e Chiefs. Allen e Daboll não eram a dupla ideal de ninguém em 2018, mas quanto mais perto eles ficavam, mais fazia sentido.

“Do primeiro ao segundo ano, acho que Josh teve nove novos caras jogando em torno dele”, diz Daboll. "Não adicionamos tantos jogadores este ano, além de [Diggs]. Mas estamos constantemente evoluindo o ataque para se adequar ao que ele faz melhor e ao que se sente mais confortável fazendo. Adaptamos tudo para o Josh. E para ser justo, ele tem a sorte de ter o mesmo sistema e crescer nele por três anos. Esse nem sempre é o caso nesta liga. É preciso muito esforço para desenvolver um jovem QB, mas tudo começa com ele”.

Quanto à ideia - repetida com frequência nos últimos três anos - de que Allen significa algo mais para a cidade de Buffalo do que apenas um quarterback, não pude resistir a perguntar a Daboll, alguém que cresceu no oeste de Nova York e fez o ensino médio do lado de Buffalo, sobre isso. Muitos jogadores da NFL veem Buffalo em particular como algo semelhante a uma sentença de prisão na Sibéria, mas Allen abraçou a cidade. Seus companheiros parecem amá-lo, e ele ajudou a arrecadar mais de US $ 1 milhão para um hospital infantil na cidade.

"Vou tirar meu chapéu de treinador por um segundo e colocar meu chapéu de torcedor, se não houver problemas", diz Daboll. "Estou muito feliz por tê-lo aqui. Não apenas por sua produção, mas que modelo inacreditável ele é fora de campo. Ele valoriza esse aspecto. Esse cara é Buffalo. Ele foi feito para este lugar”.

Houve uma carta circulando nas redes sociais nos últimos meses, criada por um membro brincalhão - ou rancoroso - da ‘Bills Mafia’.

O título era: formulário de desculpas a Josh Allen.

Qualquer um que quisesse poderia preencher seu próprio nome, admitindo que errou com Allen, marcando uma caixa com o motivo pelo qual você, bem, errou. Entre as opções:

- Eu não entendo sobre futebol americano. - Eu tive ciúmes de Josh Allen. - A imprensa me disse que ele era ruim. - Só assisti à ESPN. - Não assisti aos jogos reais.

Acabei não preenchendo um desses, mas estava curioso para saber se Allen já havia sido informado sobre o formulário - e se ele estava por trás de alguma de suas performances brilhantes. Baker Mayfield parece tratar os desprezos como oxigênio. Lamar Jackson brincou "Nada mal para um running back" em uma entrevista coletiva após uma partida onde lançou para cinco touchdowns. Josh Allen teve algum prazer em saber que a carta estava lá e os torcedores a estavam usando para responsabilizar a imprensa – como eu?

Acontece que Allen está ciente da existência da carta, embora tenha parecido um pouco envergonhado quando Steve Young, da ESPN, o pressionou sobre isso, curioso para saber se era a fonte de alguma satisfação.

"Isso realmente não me incomoda e nem me emociona", disse Allen em dezembro. "Sou uma pessoa extremamente autodidata. Tenho muita confiança em mim mesmo. Eu me responsabilizo pelos últimos anos, pelos percalços e erros. Eu sei que estava crescendo e aprendendo. Mas a carta de desculpas, o formulário ou como você quiser chamá-lo... acho legal. Foi algo que iniciou conversas”.

É difícil guardar rancor de alguém que deixa passar a chance de esfregar na sua cara a melhor temporada de sua vida, então, gostaria de aproveitar esta oportunidade para perdoar Josh Allen, se ele está ouvindo.

Eu o perdoo por me fazer parecer um idiota.