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O ano do quarterback negro na NFL e a histórica revolução liderada por Mahomes e Lamar

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Mahomes se sente desafiado a melhorar com relação a ano de MVP na NFL (1:58)

Quarterback dos Chiefs teve ano mágico em 2018 (1:58)

O encontro de Lamar Jackson, do Baltimore Ravens, e Russell Wilson, do Seattle Seahawks, há algumas semanas, foi exatamente o tipo de duelo entre quarterbacks que faz da NFL o que ela é.

Mas de uma forma mais profunda e histórica, o confronto colocou o holofote em dois quarterbacks negros (raro), candidatos ao prêmio de MVP (ainda mais raro), e serviu para mostrar como, dia após dia, que o estereótipo de um líder está mudando.

Com o jogo empatado em 13 a 13 no terceiro quarto, os Ravens tinham uma quarta descida para duas jardas na linha de oito dos Seahawks. Foi quando o técnico John Harbaugh mandou o kicker para o campo. Mas Jackson, de 22 anos e em sua segunda temporada, correu para a lateral do campo e tomou uma decisão.

"Você quer arriscar?", pergunta Harbaugh a Jackson em um vídeo publicado em outubro que já tem mais de três milhões de visualizações. "Com certeza, treinador. Vamos arriscar", gritou o quarterback. No lance seguinte, ele recebeu o snap, correu para a direita, cortou para a esquerda e arrancou para o touchdown, liderando os Ravens à vitória por 30 a 16.

"Na minha cabeça, eles são a próxima geração de trabalhadores pelos direitos civis. De certa forma, arriscam suas vidas para mudar o país." Lonnie G. Bunch III, historiador e secretário do Instituto Smithsoniano

O significado daquele momento vai além do jogador de elite que é Jackson, sua noção dentro de campo e inteligência quanto ao esporte (o que ele também havia demonstrado uma semana antes, ao acabar com a invencibilidade do New England Patriots). E também não se tratava de sua confiança natural. O lance mostrou que ele tinha o sinal verde. A fé em um jovem negro na posição de quarterback - posição com sinônimo de liderança e historicamente ligada a homens brancos - foi mostrada ao redor de todo o país.

"Na minha cabeça, eles são a próxima geração de trabalhadores pelos direitos civis. De certa forma, arriscam suas vidas para mudar o país", disse Lonnie G. Bunch III que, em maio, se tornou o primeiro afro-americano secretário nos 173 anos do Instituto Smithsoniano - instituição educacional e de pesquisa fundada e administrada pelo governo dos Estados Unidos. "Eles são confiantes para dar um passo a mais, e isso nunca foi feito antes."

A questão avança de forma lenta, mas nos últimos 50 anos, "a antiga forma como pensávamos sobre as habilidades intelectuais dos afro-americanos ficou para trás", além das consequências que sobravam para os quarterbacks negros, disse o historiador Julian Hayter, que dá aulas de estudos de liderança na Universidade de Richmond. "Esses caras estão de fato criando um caminho para sair do racismo científico."

James “Shack” Harris venceu três títulos de conferência na Universidade de Grambling State. Mas depois de se recusar a trocar de posição, ele só foi selecionado na oitava rodada do Draft de 1969 da NFL. Harris se tornou o primeiro quarterback negro a ser titular em uma abertura de temporada da NFL. O primeiro a começar e vencer um jogo de playoff. O primeiro a jogar e vencer o MVP de um Pro Bowl.

Harris vê a nova ascensão de quarterbacks negros - esta temporada iguala a de 2013 no número de titulares e tem alguns dos principais de toda a liga - como uma evolução para jovens afro-americanos que sonham em fazer qualquer coisa. A posição de quarterback é a "mais singular de todos os esportes nos quesitos de influência e liderança. Temos mais negros participando hoje, mas não acho que isso fez crescer nossa habilidade de liderar", disse Harris. "Nós sabemos liderar desde que nascemos."

Quarterbacks negros raramente recebem uma chance.

Hayter define liderança como um "processo co-criativo baseado na função de alguém". E em momentos de crise, humanos costumam procurar por pessoas com a capacidade particular de tirá-los de tal situação e, "de certa forma, o esporte é uma crise controlada, certo?"

A ideia de que quarterbacks são líderes brancos nasceu junto com o esporte na metade do século 19, ainda como cultura das faculdades da época. Quarterbacks chamam jogadas, direcionam outros jogadores, têm a posse da bola e são os atletas mais visíveis dentro de campo. Mesmo quando o futebol americano foi para o sul dos Estados Unidos e se tornou mais popular, a posição continuou ligada à ideia de intelectualismo. Ser um center, um inside linebacker e, principalmente, o quarterback eram funções de quem sabia pensar, algo "complexo demais para atletas negros".

As conquistas dos negros no século 20 destruíram mitos racistas sobre a superioridade física de homens brancos, e os movimentos pelos direitos civis ajudaram a abrir espaço em uma liga que estava agarrada ao mito de inferioridade intelectual dos negros.

"Há muitas histórias de quarterbacks negros na faculdade que são obrigados a jogar como wide receivers e defensive backs", conta Mark Anthony Neal, chefe do departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Duke. Até Jackson, vencedor do prêmio Heisman, foi criticado por não comandar um ataque "profissional", baseado em ficar no pocket e fazer leituras da defesa. Mas ele acabou com os questionamentos em seu último ano no universitário. Mesmo assim, é difícil imaginar um jogador branco com o talento de Jackson sendo pressionado a mudar de posição.

A questão passou a ser se homens negros, que já lideram suas igrejas, suas faculdades e suas comunidades, "teriam a capacidade de liderar homens e instituições brancas", contou Neal.

A dúvida se torna ainda mais particular quando leva em conta a natureza de improviso da cultura que ajudou a formar líderes negros, principalmente nos esportes.

"Esta mensagem mostra que a liga não temia apenas pelo potencial de liderança destes homens - e como isso iria influenciar os Estados Unidos -, mas também temia a capacidade de improviso destes homens negros", disse Neal. E isso quer dizer que eles podem mudar o jogo de diversas formas que não são intuitivas para quarterbacks brancos.

A improvisação é vista como uma forma criativa de resolver problemas, e está mais presente na vida dos negros que precisam encontrar caminhos. "Como você resolve um problema sem ter os recursos? Em outro contexto, é a mãe, na cozinha, que precisa alimentar uma família de 10 pessoas. E como isso é feito noite após noite, semana após semana, ano após ano?"

No ano passado, o atual MVP da NFL, Patrick Mahomes, do Kansas City Chiefs, lançou um passe sem olhar contra os Ravens que surpreendeu a liga, mas que ele estuda e treina desde os tempos de faculdade.

As pessoas costumam "achar que nossa habilidade de improvisar significa que não sabemos seguir as regras. Não, significa que sabemos jogar dentro delas", explicou Hayter. O jazz não é uma "explosão das regras, é uma compreensão da teoria muscal tão boa que permite uma revolução."

O passe sem olhar de Mahomes e os dribles de Jackson, assim como o que Michael Vick fazia em campo antes deles, são exemplos de uma liderança de improviso, afirma Bunch. "O improviso é a forma como a população negra sobreviveu historicamente. Então, claro, há improviso no esporte. Mas isso também é usado contra eles." Principalmente no futebol americano, onde o improviso é visto como falta de capacidade de processar algo e de tomar decisões como um líder. O modelo tradicional diz que o quarterback fica no pocket e analisa o que a defesa mostra. Mas se os negros "simplesmente aceitassem o que era feito historicamente, não estariam mais vivos."

"Olhem para Patrick Mahomes. Russell Wilson. Esses caras conseguem manter uma jogada viva e mudam a percepção do que um quarterback realmente é. Acho que as pessoas ainda são relutantes ao lidar com isso", comentou Hayter.

Neal menciona o ex-MVP e quarterback do Carolina Panthers, Cam Newton, que usa seu tamanho e força para correr com a bola, como exemplo. Os críticos dizem que "ele se machuca porque não aceita jogar de acordo com este roteiro, certo?", disse Neal. Mas foi exatamente este roteiro que o obrigou a aprender a liderar por improviso: "Se ele não tem um bom jogo terrestre e não tem bons recebedores, como pode resolver o problema? Ele é o atleta mais talentoso em campo. É assim que resolve o problema."

Os esportes raramente são justos, "dependem da percepção e da liderança" para atrair audiência, disse Bunch. E quando se trata de questões raciais ligadas à posição de quarterback, há um certo controle. "E controle depende de medo." Uma das formas como os negros são controlados é dizendo que são inferiores.

"Qualquer negro que cruzou a barreira da liderança teve de enfrentar o medo branco de que algo está sendo tirado deles", diz Bunch.

Por isso o ativismo político de Colin Kaepernick deixa o quarterback fora da liga, apesar de que outras manifestações são tratadas de outra forma. "Líderes são perigosos. Se deixarem as pessoas desconfortáveis, se tornam perigosas", afirma Bunch.

"O quaterback negro é a figura negra masculina mais visível na América pela quantidade de pessoas que veem ele jogar", seguiu Bunch. E isso faz com que as pessoas reconheçam que eles têm habilidades que transcendem qualquer discussão. "Mas eles nunca realmente conseguem transcender, certo? Você não tem a liberdade para ser mediano. Tem que ser uma estrela, ou então nem vai para o campo."

Quando é otimista, ele acha que "todo quarterback negro que lança um touchdown, que assina um autógrafo para uma criança, realmente está mudando a forma como o mundo vê os negros." Quando é pessimista, questiona "quantos de nós vão continuar fazendo o que está sendo feito" para normalizar a liderança negra.

Talvez possamos chegar ao ponto em que até um quarterback negro mediano é parte da liga e da liderança negra. Agora, Bunch diz que "nós ainda estamos derrubando barreiras."