A história cheia de obstáculos da promessa do futebol americano que já arrancou elogios de Peyton Manning

Hendon Hooker superou dificuldades para se estabelecer como uma das promessas do futuro da NFL


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“Ele é grande, forte e um moleque vencedor”. Estas foram as últimas palavras de um recrutador regional sobre sua avaliação diante do que viu de Hendon Hooker em seus anos no colegial.

Foi coerente, no mínimo. Hendon foi o jogador do estado de North Carolina em 2016, venceu duas vezes o campeonato estadual e foi MVP quando acumulou 2.632 jardas, 28 touchdowns lançados e apenas 5 interceptações, além de 1.236 jardas corridas e 27 touchdowns corridos. Um atleta que capaz de dominar na parte aérea e na corrida.

Hooker vem de uma família de esportistas. Seu pai e seu irmão jogaram pela universidade de North Carolina A&T. Sua mãe é apaixonada por futebol americano universitário e sua irmã sempre esteve à frente nas questões sobre sua representação fora campo. Seu desejo principal era jogar em Clemson, que na época já se mostrava um time excelente e sempre estava nas primeiras posições do campeonato.

Hendon esperava ir para Clemson e ser substituto de Deshaun Watson, como sua figura principal. A equipe foi campeã universitária, em 2016, depois de perder a final no ano anterior, em 2015. Mas, segundo seu pai, “a oferta feita não foi das melhores”, e por isso eles procuraram outro time que fosse coerente com o espaço que Hooker gostaria.

Com este cenário, Hooker e sua família exploraram várias equipes universitárias e, ao todo, foram 12 ofertas de grandes times, mas os negócios nunca faziam sentido para ambos os lados. Por isso, Virginia Tech, universidade do antigo quarterback Michael Vick (famoso nos anos 2000), foi escolhida pela família.

Pela faculdade, Hooker teve apenas dois anos em campo e esteva sempre competindo pela titularidade, sem conseguir consolidar sua posição como titular por várias partidas. Neste período, o quaterback começava no banco e dependia de contusões ou mudanças de sistema para ter sua chance. Nos dois anos ,conseguiu a titularidade, terminando a temporada com a equipe, mas sempre questionado por sua tendência de correr mais do que lançar a bola.

Seu fim em Virginia Tech ainda foi dramático. Em sua última partida, Hooker conta que ficou praticamente o jogo inteiro tremendo e com calafrios, mesmo que no estádio a sensação térmica fosse de 39° C. Depois do jogo, foi descoberto que Hooker estava sofrendo de um déficit de magnésio em seu organismo e seu último jogo vestindo vinho e laraja (cores da universidade de Virginia Tech) acabou desta maneira.

“Eu não sabia o que estava acontecendo. Meu corpo estava realmente muito frio e eu comecei a tremer sem controle algum”, comentou Hooker: “Demorou cerca de 3 horas para eu ficar bem. Disseram para voltar para o campo, porque só tinha eu de quarterback e eu comecei a tentar não tremer de todas as formas possíveis. Eu sabia o que tinha que fazer, mas meu corpo parecia não responder ao que eu tentava fazer. Depois do jogo, eu fui me recuperar e apenas pensava o que estava acontecendo.”

Descontente, cansado de procurar espaço e com todos os problemas causados pela pandemia de Covid-19, Hendon teve tempo para pensar com a sua família e decidiu trocar de equipe.

A era em Tennesseee

Hooker entrou no portal de transferência e aceitou a proposta de Tennessee, para ser quarterback titular da equipe. O técnico da equipe na época, Jeremy Pruitt, esteve atrás de Hendon desde 2015. A família não chegou a considerar a oferta pelo planejamento que foi ofertado, mas a situação era diferente. Pruitt estava disposto a fazer funcionar com Hooker se tornando peça chave da equipe e sendo treinado por Chris Weinke, antigo quarterback de Florida State e vencedor do Heisman.

Então, o quarterback assinou com Tennessee no dia sete de janeiro de 2021.Mas Pruitt acabou demitido logo no dia 18 de janeiro.

O clima voltou a ficar incerto e, novamente, agora sob o comando de Josh Heupel, o Tennessee Volunteers teve outra batalha pela posição de quarterback. Novamente, Hooker perdeu e começou a temporada no banco.

Em 2021, Hooker viu novamente a situação se repetir, mesmo depois de, incansavelmente, procurar não repetir esta situação. O atleta já estava graduado e apenas tinha o esporte como sua prioridade. A situação era desesperadora, mas, com apoio de sua família, ele esperou pacientemente e sua gratificação chegou.

No começo da temporada, o quarterback titular da equipe, Joe Milton, se machucou. Hooker entrou e não deixou nunca mais que esta situação mudasse. Se tornou titular da equipe, chegou a um bowl e conseguiu uma temporada positiva com a equipe. No jogo mais importante do ano, mesmo com a derrota para Purdue, Hooker somou 378 jardas, 5 touchdowns e teve 59 jardas corridas. Tentou de tudo que pode, deixou tudo em campo e isso foi bem visto.

Aos 23 anos, Hooker já estava elegível para o draft. Ao mesmo tempo, poderia solicitar mais um ano para jogar no futebol americano universitário. E mesmo cotado para a terceira rodada do Draft de 2022 da NFL, ele voltou para mais um ano com o Tennessee Volunteers – decisão que foi extremamente questionada.

E o momento para dizer que isso foi uma ótima decisão não poderia ser o melhor. O ataque de Tennessee foi ajustado para tirar o melhor de Hooker e isso tem surtido efeito. Correndo menos, se portando dentro do pocket e com tempo para fazer leituras, o atleta acumula 2.093 jardas em apenas sete partidas jogadas, com um aproveitamento acima dos 70%, lançou 18 touchdowns e apenas uma interceptação.

O jogo de Hooker mudou e isso foi extremamente benéfico para o quarterback. Com mais foco e jogadas extremamente desenhadas para o seu passe e controle de tempo, Hendon consegue explorar seus companheiros em campo e ainda mantém sua posição dentro de campo com um ataque poderoso.

Outro ponto é sua performance individual. Hooker tem sido efetivo e continua extremamente consistente. Desde que vestiu a camisa laranja de Tennessee, o atleta faz pelo menos um touchdown por jogo. Neste temporada, a equipe já venceu quatro outros times que estavam entre os 25 melhores do campeonato e se mantém invicta graças ao desempenho crítico do jogador.

Uma destas vitórias foi contra Alabama, uma das maiores equipes da história do futebol americano universitário, o que fez com que o lendário Peyton Manning, MVP da NFL e vencedor do Super Bowl, o elogiasse e destacasse o quanto seu talento deveria ser muito mais confiado do que duvidado.

“Eu acredito que Tennessee precisa mostrar algo diferente para ganhar de Alabama e Hooker é o mais preparado que temos nos últimos anos para isso”, comentou Manning, que jogou quatro temporadas em Tennessee. “Ele está jogando muito bem. Sua capacidade de decisão é incrível, ele não segura a bola por muito tempo, sabe fazer boas leituras, não fica só correndo e principalmente sabe quando sair do pocket ou permanecer até o último segundo.”

No jogo contra Alabama, Hooker simplesmente lançou 385 jardas, em 21 passes de 30 tentados (70% de aproveitamento), anotou 5 touchdowns e lançou apenas 1 interceptação contra Alabama Crimson Tide. Além disso, correu para 56 jardas, com uma média de 4 por carregada.

Para ter dimensão do feito, isso não ocorria havia 15 anos, e a torcida roubou até a trave de field goal(!) para comemorar. Hooker mostrou que tem habilidade com passes longos e fez seu wide receiver, Jalin Hyatt, ter a melhor semana de sua vida. Mesmo com momentos complicados no segundo tempo, sempre achou um jeito de se comportar melhor no pocket, acertar passes em diferentes níveis do campo e liderar sua equipe ao chute final da partida, que deu a vitória ao seu time.

Depois deste jogo, as atenções, e principalmente o prêmio Heisman, dado ao melhor jogador do universitário estadunidense, estão voltadas para o quarterback dos Vols. Tennessee continua invicto e já alcança a terceira colocação na classificação do College Football. Durante a semana, Hendon aumentou o recorde de jogos seguidos fazendo touchdowns na história da universidade, chegando a 19 partidas, além de ajudar sua equipe a fazer 52 pontos no primeiro tempo, outro recorde que vem das mãos de Hooker.

“Eu tento sempre vir e fazer o jogo inteiro ser proveitoso para todo mundo. Não só no fim, mas toda jogada, todo drive eu tento deixar todos confortáveis”, disse Hendon: “Significa muito para mim chegar a este momento com essa marca. Trabalhei demais para isso, me encorajaram muito e eu estou muito feliz. Eu sempre fui ajudado, o técnico me ajuda e eu estou muito feliz por estar em um lugar tão feliz.”

Tennessee tem 7 vitórias e é a terceira melhor equipe do futebol americano universitário. Por ser da Southeastern Conference (SEC), enfrentará Georgia, que hoje figura como a melhor do campeonato, Kentucky (19ª) e South Carolina Gamecocks, hoje a número 25. O caminho de Hendon até a glória ainda é complicado e exigirá atuações parecidas (ou melhores) contra Crimson Tide.

A expectativa de Hooker para a NFL também é algo que segue crescendo. Sendo cotado para outras rodadas no ano passado, agora os especialistas esperam que o atleta esteja nas primeiras escolhas. Suas leituras, seus lançamentos, capacidade e vontade de vencer são pontos extremamente bem quistos, mas as equipes se preocupam com a sua idade. Hooker fará 25 anos em janeiro e, novamente, é questionado por isso. O atleta é mais velho que Trevor Lawrence, Zach Wilson, Justin Herbert e Mac Jones, todos já na NFL. Isso tem sido extremamente problematizado e é algo que realmente faz diferença em desenvolvimento.

Para o próximo draft, os principais nomes na posição de quarterback são Bryce Young (Alabama), C.J. Stroud (Ohio State) e Will Levis (Kentucky). Todos estes estão performando bem, mas nada surpreendente como o passo que Hendon deu neste temporada. Estas desconfianças parecem retornar como um hábito na vida de Hooker, mas, talvez seja só mais um obstáculo para superar, como fez em sua trajetória até aqui.