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NBA Playoffs - Nem Doncic, nem Trae: Por que Deandre Ayton foi a escolha certa para os Suns no draft de 2018

Com a jogada desenhada e pronta para acontecer, pouco antes de voltar para a quadra, o técnico do Phoenix Suns Monty Williams passou uma última mensagem simples.

"Executem", ele disse. "Se ele jogar, DA, você precisa, tipo, tentar enterrar, ok?"

Williams estava falando com Deandre Ayton, contando para o pivô, que está em seu terceiro ano na NBA, que uma das jogadas que os Suns nunca treinaram era para ele. E era a jogada que decidiram o Jogo 2 das finais da Conferência Oeste de uma forma ou de outra, o tipo de jogada que você deixa nas mãos do grande nome de sua franquia.

Para os Suns, este grande nome costuma ser Devin Booker - ou Chris Paul, quando ele está disponível. Mas parecia certo que em uma noite onde, umas três horas antes do caótico final de partida, as bolinhas foram sorteadas e a loteria do draft de 2021 se tornou oficial, uma antiga primeira escolha do recrutamento tivesse em suas mãos o jogo mais importante dos Suns na década.

O lugar de Ayton na história do draft não é nada comum, longe de ser considerado um bust ou uma escolha ruim, mas também não sendo um dos dois caras que foram selecionados logo atrás dele. Desde que os Suns o chamaram com a primeira escolha geral, Luka Doncic e Trae Young se tornaram superestrelas. A maior parte das análises pós-draft foram feitas sobre a troca entre Doncic e Young, mas a escolha dos Suns continuou sendo uma das pouco comentadas.

Ela recebeu mais atenção na temporada passada quando Ayton foi suspenso por 25 jogos pelo uso de uma substância ilegal, um diurético. Aquilo aconteceu um dia depois de uma rodada dominante de abertura da temporada, com o pivô fazendo 18 pontos, 11 rebotes e 4 tocos na vitória sobre o Sacramento Kings. Os Suns pareciam bons. Ayton também. Mas depois da supensão e de alguns problemas no tornozelo que o atrapalharam, o time não foi mais o mesmo.

A arrancada na bolha foi a fundação de tudo que acontece na atual temporada, inclusive para Ayton. No passado, ele não estava tão comprometido ao trabalho como deveria. Não que fosse preguiçoso ou desmotivado, mas há níveis de desempenho para certas conquistas, e Ayton admite que não estava onde deveria.

"Algumas vezes eu nem vinha nos dias de folga", disse Ayton. "(Monty Williams) falava que eu deveria sentir o cheiro do ginásio, ao menos encostar na bola, e ele instalou em mim isso de querer sempre melhorar minhas habilidades para ser o melhor que posso ser."

Ayton passou a offseason mudando seu comportamento, renovando sua ética de trabalho e se comprometendo a ser um pivô dominante. O aumento da responsabilidade veio com seus colega de time veteranos, entre eles Chris Paul e Jae Crowder, que o ajudaram nesta nova mentalidade.

"Eu poderia ficar falando sobre onde ele estava e onde está agora", disse Williams. "Ele está se tornando um jogador muito dominante, nos dois lados da quadra."

Ayton está mostrando nesta pós-temporada suas versáteis habilidades. Ele assumiu a responsabilidade de marcar a estrela do Los Angeles Lakers Anthony Davis (antes da lesão do ala-pivô), depois o MVP Nikola Jokic e agora o small-ball do LA Clippers. Essa versatilidade criou uma nova dinâmica - o tamanho, a velocidade e agilidade de Ayton apresentam novos problemas para Los Angeles.

E sua produção em quadra tem chamado a atenção. De acordo com o Elias Sports Bureau, nesta pós-temporada, Ayton se tornou o primeiro jogador na era do relógio de 24 segundos (desde 1954-55) a ter um aproveitamento superior a 70% nos arremessos em uma sequência de 12 jogos. Ele teve cinco partidas de 20 pontos e 10 rebotes nestes playoffs, a maior marca de um jogador dos Suns desde 2007.

"Eu nunca me esforcei tanto do começo ao fim do jogo", comentou. "150%. Normalmente são uns 110%, mas, agora, são 150%. E 150% mentalmente, também. O nível de foco e as coisas que você precisa prestar atenção. É muito intenso, cara."

Ayton pode não ser a superestrela para qual o lugar de primeira escolha é reservado. Ele pode não passar uma década indo para o All-Star ou ganhando prêmios, mas é o símbolo de uma virada dos Suns. Um exemplo de construção de elenco, encaixe ideal no esquema de Williams para apoiar Booker, Paul e um exército de arremessadores no perímetro. Ayton não está tentando alcançar um status que valide onde foi draftado, ele só quer melhorar o Phoenix Suns.

"Ele está começando a entender que ter uma função não te limita", disse Williams. "Às vezes, quando você diz para um cara que ele tem uma função, ele acha que não pode fazer mais nada. Mas ele tem uma grande função."

A nuvem do draft de 2018 não segue Ayton. Ele admitiu que já sentiu as críticas no passado, mas deixou tudo isso para trás.

"No fim das contas, somos todos jogadores diferentes", Ayton disse sobre as comparações com Doncic e Young. "Sou um pivô de 2,10m e eles são dois armadores. Não sei como você pode comparar. Mas eu tento dar o máximo de mim. Esse é meu time. Eu domino da melhor forma que posso por esse time e tento levá-lo o mais longe que posso. Além disso, confio no meu trabalho, na minha ética de trabalho."

Ayton é extremamente agradável, animando toda coletiva com muito humor. Há uma inocência em suas respostas, com uma refrescante honestidade e humildade em cada uma delas. Ele disse que o passe de Crowder foi o que venceu o jogo. Admitiu que não sabia se sua cesta havia contado e que demorou para comemorar para não virar alvo de brincadeiras. E ele afastou qualquer ideia de que está jogando por algo que não seja o sucesso de seu time. A validação pessoal vem dele mesmo.

Sua enterrada foi a primeira cesta da vitória na carreira, e ele a dedicou a todos seus colegas de time, treinadores e praticamente todo mundo envolvido na franquia dos Suns, mas "escorregou" em uma coisa ao falar sobre como a jogada aconteceu, se permitindo ter um pouco de crédito.

"O treinador desenhou uma grande jogada e eu estava na melhor posição", disse ele. "Meus companheiros e meus treinadores confiaram em mim."

"E o resto foi minha habilidade atlética. Meu talento."