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NBA: Por que Stephen Curry pode ser o último dos ídolos de uma única franquia

Nem Stephen Curry conseguia acreditar que estava prestes a superar o recorde do grande Wilt Chamberlain pelo Golden State Warriors.

"Pra ser honesto, isso é surreal", disse Curry após a derrota para o Atlanta Hawks, onde ele ficou 129 pontos atrás do maior pontuador de todos os tempos dos Warriors.

"[Chamberlain tem] muitas cestas. Claro que ele é uma lenda e continua sendo em toda a liga, mas obviamente vestindo o uniforme dos Warriors e estar aqui durante toda minha carreira, é uma loucura. Eu ainda tenho mais alguns pontos para marcar - espero que mais algumas vitórias no processo - mas em geral é só muito doido imaginar”.

"Saber onde tudo começou e o que aconteceu ao longo da minha carreira ... é um marco bastante significativo".

Aos 33 anos, Curry tem um relacionamento especial com o time e com a cidade que poucos jogadores de hoje conseguem ter. Como Curry está no topo da lista de cestinhas de todos os tempos dos Warriors, nós falamos com três grandes jogadores de três épocas diferentes, e todos entendem a responsabilidade que é ser o rosto de uma equipe por toda carreira: Dirk Nowitzki, Reggie Miller e Jerry West.

Passar Chamberlain só consolidou o que a organização sabia há anos.

"Então", disse Miller sobre o Curry. "Ele é o Sr. Warrior. Ele é o Sr. Warrior".

Steph acabou de passar Wilt e se tornou o nº 1 na lista de maiores pontuadores de todos os tempos dos Warriors. Como você acha que o Curry mais mudou o esporte?

Nowitzki (21 temporadas em Dallas; maior cestinha de todos os tempos dos Mavericks): Só de nos convencer que está tudo bem arremessar de qualquer lugar depois que se atravessa meia quadra. Ele meio que foi o primeiro cara a começar com esses arremessos distantes de 3. Agora qualquer um tenta um arremesso do meio da quadra, mas Steph foi o primeiro cara, principalmente saindo do drible, ele simplesmente desce pela quadra, o cronômetro não está nem perto de acabar, e ele arremessa. Na época pensávamos: "O que este cara está fazendo?". Ele era super consistente com isso e agora as pessoas estão obviamente copiando e começando a arremessar de muito longe.

Eu já contei estas histórias, quando assistia aquelas partidas de playoff e o ginásio ali balançando, ele chegava na metade da quadra e eu gritava para a TV: "Arremesse a bola! Tipo: "O que você está esperando?" Eu estou animado. Ele é um dos meus jogadores favoritos de se assistir. Ele definitivamente mudou o jogo na questão dos arremessos.

West (14 temporadas em Los Angeles; 2º maior cestinha de todos os tempos do Lakers): Posso voltar e conferir o primeiro ano com os Lakers quando a linha de 3 pontos começou, e o que eles arremessaram, talvez 200 vezes? Talvez nem tanto assim. Curry dominou este fundamento, através de seu trabalho duro, sua determinação, e novamente, acho que é quem ele é. Depois de passar um tempo com ele, pude perceber que ele trabalha para isso. Sua profissão é muito importante para ele e acho que ele não "envelhece" - até o ponto que os jogadores decidem se aposentar. Não acho que ele envelhece porque não depende de saltos enormes e força, ele depende de finesse, que é grande parte do seu estilo.

Miller (18 temporadas no Indiana; maior cestinha de todos os tempos dos Pacers): Ele é muito parecido com Wilt, Shaq, Jordan e Iverson. Eles mudaram o jogo. Eles mudaram como o jogo é visto e jogado.

Steph somou seus pontos muito mais longe da cesta do que Wilt. Curry é o melhor arremessador de todos os tempos?

Miller: Ele é. Ele é ... Sempre pensei que Drazen Petrovic era - porque jogamos na mesma posição, e eu pude o ver de perto, pensei que ele era o maior arremessador que eu já tinha visto, mas Steph levou o arremesso a outro nível.

Eis o que acontece com a maioria dos arremessadores - eles são como closers na Liga de Beisebol. Somos todos egoístas e todos nós acreditamos que somos os melhores. Então, se você perguntar para Larry Bird, se perguntar a Dirk, se perguntar a Jerry West, Peja, você pode perguntar ao Craig Hodges, Steve Kerr - na época deles, eles lhe vão dizer: "Eu estaria no mesmo patamar de Steph". É assim que nós somos. Somos como os closers. Me dê a bola, cale a boca e deixa que eu acabo com eles. É assim que nós somos. Todos nós sentimos que somos Mariano Rivera.

Nowitzki: Ao longo da história da liga, existiram alguns arremessadores incríveis, mas ele definitivamente tem o arremesso rápido, ele faz o arco bem alto. Ele tem um alcance muito grande. Ele consegue receber o passe e arremessar, mas ele também é o melhor arremessador saindo do drible - se não for o melhor, ele está definitivamente no topo com os melhores. Saindo do drible para mim ele é o melhor; recebendo e arremessando já vimos alguns grandes arremessadores em nossa liga, mas entre todos eu acho que provavelmente temos que o colocar como o número 1.

West: Acho que até agora, sim. Mas você deve se lembrar que ele está criando uma legião de novos arremessadores que vão tentar imitá-lo. Será que eles trabalharão tão duro? Eles serão tão criativos saindo do drible? Eles serão capazes de converter esses arremessos? As pessoas só falam de sua habilidade de converter arremessos atrás de arremessos - isso é impressionante. Mas para mim, talvez a coisa mais notável seja a forma que ele arremessa de qualquer lugar.

O Curry se tornou sinônimo da Bay Area. O que significou para você jogar toda sua carreira com uma franquia?

Miller: É a melhor sensação ter crianças que não nasceram [quando eu jogava] andando pelo aeroporto ou andando pelo centro de Indiana usando a minha camisa. Porque eles não tinham nascido pra me ver jogar. Elas estão ouvindo as histórias de seus pais, que eram crianças e que iam me ver jogar, e nós rimos e choramos juntos. Esse é a relação, isso é o que significa para mim. Me magoa eu nunca tenha ganho um campeonato em Indiana? Sim. Mas eu prefiro o amor daqueles fãs e daquelas crianças acima de qualquer campeonato porque isso é tão eterno quanto aquele anel - a relação que eu tenho com esses fãs. É simplesmente inacreditável em Indiana.

Nowitzki: As pessoas hoje em dia pensando: "Dirk quem? Só se fala em Luka [Doncic]". Não, é incrível. Claro que é uma responsabilidade, tem um pouco de pressão também. Todo mundo sabe que, no fim do jogo, você sabe para onde a bola vai. É divertido, é um desafio, mas também é uma pressão. Em nossa posição - tentando conquistar um campeonato por um tempo, e obviamente Steph já chegou lá, fez isso, e ganhou vários - queríamos dar aquele primeiro campeonato a esta cidade; eles não tinham conseguido um título de basquete aqui. Foi muita pressão. E eu diria que em 2006, eu não lidei bem com a pressão e não estava no meu auge. Eu sempre me lembrava e isso sempre me motivava a corresponder por esta equipe e pela cidade. É super divertido, é uma honra que as pessoas digam: "Dallas Mavericks, isso é Dirk". Isso é super, super especial, mas é claro que vem com algumas responsabilidades, algumas pressões.

West: Para mim, isso significava tudo. Mas não posso dizer que não teria gostado da oportunidade de ser um free agent para descobrir o quanto você vale para uma equipe ou se é o mesmo valor que jogar tanto tempo assim. É muito especial que jogadores atualmente passem toda sua carreira em um único time, porque se você está em um time menor e é um jogador realmente bom, os empresários vão querer te levar para times maiores pra tentar explorar seu nome comercialmente e ganhar muito mais dinheiro para seu jogador. Assim, quando você está em uma equipe que é bem administrada, respeitada, eventualmente os jogadores podem ficar lá para sempre. Mas hoje é simplesmente incrível que a passagem [do Curry] seja tão longa, e estou assumindo que continuará até que ele termine sua carreira.

Alguma vez você já sentiu que poderia sair? Alguma oportunidade para jogar com outras superestrelas?

Miller: Não. E se Michael Jordan tivesse me chamado e tentado me persuadir a ir para Chicago, eu teria dito a ele para ir se f..! "Te vejo na I-65 ou seja lá qual for aquela rodovia. Estarei lá para te ver".

Eu nunca estive perto de ir para qualquer lugar. Me observando, ou outras equipes rondando, como os Knicks, provavelmente. Eu já tinha uma história contra eles, certo? Eu não podia ir pra lá. E se alguma vez existiu um lugar em que eu gostaria de ter jogado, seria para voltar para casa e jogar nos Lakers que é minha cidade natal, e meus mentores Magic, Byron [Scott] e Michael Cooper. Não haviam muitas opções, o que foi bom para mim. Atualmente, alguns desses caras jogam por seis ou sete times, o que é impressionante. Eu, pessoalmente, não tinha isso.

Nowitzki: A primeira vez que realmente estive livre no mercado, acho que foi em 2010, bem antes de ganharmos o campeonato. Eu me lembro que estava na cidade e fui até a casa do Mark (Cuban). Éramos só eu e Mark sentados lá e eu falei: "O que estamos fazendo?". Ele disse: "Vamos insistir". Estávamos muito próximos há uns dois anos e estávamos ficando emocionados pensando nas coisas que passamos e foi uma conversa muito boa. E eu disse: "Escuta, vamos tentar mais quatro anos", e foi obviamente muita sorte que no primeiro ano daquele contrato de quatro anos que assinei, acabamos ganhando o campeonato e obviamente fez com que tudo valesse a pena. Mas essa foi realmente a primeira discussão de um contrato que eu já tive.

Eu nunca tive muitas propostas porque todos sabiam que eu amava Dallas e queria que desse certo. Me lembro que Kobe Bryant me procurou uma vez, obviamente foi uma honra. Acho que foi depois que ganhei o campeonato e meu contrato tinha acabado. Kobe ainda estava jogando em L.A. Conversamos, trocamos mensagens, mas eu disse: " Desculpa, você sabe como é. Dallas é minha cidade, minha casa e seria super estranho vestir um uniforme diferente". Acho que ele entendeu completamente; acho que ele passou a me respeitar mais depois disso.

West: Bem, houve uma ocasião em que eu realmente quis ir embora, com certeza. Olhando para aquela época em particular onde um dono não gostava de mim e escolheu me convencer de que algo que não era verdade não foi só doloroso, mas o mais importante é que me deixou furioso. Eu não queria mais jogar no time, simplesmente por causa deste dono.

E eu amava Los Angeles. Eu amava o clima, os fãs, eu podia ser anônimo aqui porque eu não era um cara que vivia curtindo por aí, eu era assim. Mas com certeza eu teria ido embora. Hoje, você tem empresários para proteger seus direitos e também para te representar de forma honrosa, o que em naquele momento não aconteceu.

O Curry está no 12º ano com os Warriors. Ficar em uma cidade por toda carreira é uma tendência em declínio na NBA?

Nowitzki: Eu estava preparado para viver com o fato de que eu não iria ganhar um título. Um dos meus grandes ídolos é Charles Barkley. Eu o amava - é por isso que na Europa eu usava o número 14 porque ele vestia o número 14 nas Olimpíadas de Barcelona. E eu nunca o admirei menos porque ele não ganhou um campeonato. Acontece que ele enfrentava Michael Jordan o tempo todo. Claro que isso está sempre dentro da cabeça, você pensa: "Cara, e se? E se eu tivesse conseguido isso?" Mas estou feliz que deu certo em Dallas. Estou mesmo. E eu não precisei pensar em sair daqui.

West: Vencer e vencer, tendo sorte, com os mesmos companheiros, tem algo nisso que me agrada muito, pessoalmente. Se você desenvolver um jogador que tenha um nome icônico ou o respeito em seu time [e ele vai embora], é horrível para o time, mas acho que é pior ainda para as pessoas e crianças que idolatram esse jogador. De repente eles vão embora e você fica desnorteado.

Miller: Isso tem mais a ver com eles [Nowitzki e West], não só porque eles têm a lealdade e os fãs, mas porque eles deram títulos aos seus times, o que eu não fiz. Isso é o que me dói: Por mais que eu quisesse dar um título para o Indiana, falhei nessa missão de ganhar um título. E é por isso que estamos falando de tudo isso - são joias sobre a lealdade.