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NBA: A química vencedora do Miami Heat o levou até as finais da Conferência Leste

Durante o hiato da NBA provocado pela pandemia de coronavírus, o novato do Miami Heat, Tyler Herro, resolveu arriscar um novo penteado de cabelo. A foto do ala de tranças logo viralizou, dividindo opiniões entre os que gostaram e aqueles que resolveram tirar sarro do estilo do jovem de 20 anos, apontando até um caso de apropriação da cultura negra.

Enquanto isso, praticamente todos os seus companheiros de equipe reagiram com alto astral ao novo look de Herro, uma espécie de xodó do líder da franquia da Flórida, Jimmy Butler.

Com a conquista surpreendente de vaga para as finais de Conferência em cima do Milwaukee Bucks, a primeira postagem de Butler nas redes sociais após a classificação foi uma foto de Herro com uma bandana, uma legenda jocosa e a clássica #tylertuesday – postada às terças-feiras no Instagram de Jimmy com uma foto ou vídeo do rookie. É a sua versão particular do “taco tuesday” de LeBron James, superestrela do Los Angeles Lakers.

Nos comentários há sempre reações engraçadas do novato, dizendo o quanto “odeia” o mentor por fazer isso e até revelando que já foi obrigado a buscar donuts durante uma #tylertuesday. Há também comentários divertidos dos demais colegas, que aparecem uns nos feeds dos outros com registros de jogos e em momentos de descontração fora do trabalho.

As brincadeiras nas redes sociais entre os companheiros de equipe ilustram bem o clima entre os atletas do Miami Heat. E isso se reflete em quadra.

Após apenas um ano de reconstrução, o time está de novo entre a elite do basquete.

A cultura da franquia dirigida pelo legendário presidente Pat Riley consiste exatamente em priorizar duas coisas. O agora e o coletivo. Antes do início desta temporada, nove atletas do elenco acabaram dispensados, em um movimento agressivo. Esse tudo ou nada pode dar errado – nos últimos cinco anos o Heat sequer avançou aos playoffs em três – ou render frutos imediatos, como é o caso atual.

Quem assiste aos jogos entende como é possível que, na última vitória contra o Bucks, time com mais vitórias na NBA em 2019-2020 e até então favorito ao título, os principais cestinhas da noite (Jimmy Butler e Goran Dragic) tenham anotado somente 17 pontos cada um. Isto acontece porque concentrar jogadas cruciais em um só atleta vai contra a tal cultura do Miami Heat.

Embora o líder seja Jimmy Butler, durante os playoffs ficou claro que o encaixe das peças é muito mais importante para fazer a engrenagem girar do que criar funções táticas individuais.

Qualquer um em quadra pode ser o destaque do dia. Duncan Robinson, com o segundo melhor aproveitamento do perímetro da liga; Jae Crowder, com sua defesa exemplar e 22 bolas de 3 pontos durante a série contra o Bucks; Bam Adebayo fechando o garrafão e arrematando 60 rebotes; o cerebral armador esloveno Goran Dragic abrindo caminho e acertando arremessos contestados; o novato Tyler Herro, que não se omite em disparar bolas difíceis com uma frieza inabalável no crunch time sem se importar se as últimas não caíram; o experiente Andre Iguodala vindo do banco comandar a segunda unidade; o sólido reserva Kelly Onynyk fazendo um trabalho crucial que não aparece nas estatísticas... e até o veterano Udonis Haslem tem sua função, mesmo sem atuar: fortalecer o psicológico de seus camaradas.

É preciso muita confiança para garantir que a bola continue rodando até chegar no companheiro mais bem posicionado, independentemente de quem seja.

E é por isso que a tal química é o ponto forte deste grupo.

Embora as origens e vivências de cada um sejam distintas, o denominador comum é a vontade de provar do que são capazes. A franquia que ganhou seu último título com LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh em 2013, hoje encara as finais da Conferência Leste reformulada, com atletas vindos da liga de desenvolvimento, não draftados, saídos de faculdades nada badaladas, desacreditados...

A ascensão de Jimmy Butler é um notório caso de trabalho duro recompensado. Abandonado quando bebê pelo pai, expulso de casa pela mãe aos 13 anos por ela “não gostar de sua aparência”, jogou no basquete universitário em Marquette, uma faculdade sem muita tradição. A vaga foi conquistada após Butler enviar a carta de inscrição de um aparelho de fax instalado em um McDonalds. Rankeado como o 73º ala-armador do Texas, acabou selecionado na última escolha do primeiro round do draft de 2011 pelo Chicago Bulls. Desde então, foi eleito o jogador que mais evoluiu em 2015, 5x All Star, 4x no time ideal de defesa, assinou um contrato máximo com o Heat por U$ 142 milhões, e agora tenta novamente contrariar as estatísticas vencendo o título da NBA.

Há quem alegue que a competitividade ferrenha o torne um mau companheiro de equipe – especialmente após a passagem pelo Minessota Timberwolves, há dois anos. Em Miami, o encaixe foi perfeito com outros jogadores dispostos a tudo para vencer.

Tyler Herro sabe bem como é ser retratado como vilão. Antes de ser selecionado na 13ª escolha do último draft, jogou na NCAA pela tradicional Universidade de Kentucky, formadora de All-Stars como Anthony Davis, DeMarcus Cousins, Karl-Anthony Towns e o amigo Bam Adebayo. Para isso, escolheu quebrar o compromisso prévio com a Universidade de Wisconsin, onde cresceu. Isso enfureceu a comunidade local. Herro sofreu até ameaças de morte. Era comum que a casa onde morava com a família acordasse pichada, repleta de ovos, papel higiênico e bilhetes maldosos – alguns desejando lesões dignas de filme de terror ao atleta de 18 anos. Os fãs passaram a levar para os jogos cobras de pelúcia com seu rosto. Tudo isso fez com que o calouro se acostumasse com a pressão. E transformasse isso em confiança, no melhor estilo “Vocês me odeiam agora? Vou fazê-los me odiarem ainda mais depois da partida”. A preparação mental começou na infância, com uma relação conturbada com seu pai e técnico, Chris Herro – que não desejava bom jogo para o filho antes das partidas a fim de endurecê-lo.

Já o processo de Duncan Robinson foi oposto. Ele não tinha confiança alguma em si próprio. Aliás, a síndrome do impostor o acompanhou até a NBA. Ele não achava que era bom o suficiente. Durante a adolescência, o desempenho era mediano. Robinson estreou como titular apenas no penúltimo ano do colégio e a única oferta para jogador de basquete universitário foi em uma faculdade da terceira divisão (Williams College). Depois de ganhar um título, chamou a atenção da Universidade de Michigan e conseguiu uma transferência. Sua média modesta de nove pontos por jogo não lhe rendeu uma escolha no draft de 2018. Mas ele recebeu um convite para jogar a Summer League com o Miami Heat. Lá, quebrou inúmeros recordes de arremessos e assinou um two-way contract, atuando a maior parte do ano com o Sioux Falls Skyforce, afiliado do Miami Heat na liga de desenvolvimento. Quando finalmente conquistou uma vaga entre os titulares, foi um desafio desmistificar a ideia de que algum outro companheiro era mais capacitado do que ele para arremessar bolas importantes. Ele é um dos únicos cinco jogadores vindos da Division III a chegar à NBA – e nesta temporada está entre os dez melhores em bolas de 3 pontos tentadas (606) e aproveitamento (44.6%) .

O técnico Erik Spoelstra conhece bem o sentimento da insegurança: ele passou de coordenador de vídeo do Miami Heat para treinador doze anos atrás. Durante anos carregou o estigma de só ter levado a equipe a dois títulos (2012 e 2013) por ter um dos melhores trios da história.

Bam Adebayo passou de reserva para All-Star, um dos melhores defensores da liga, aumentou todos os seus números e quase venceu o prêmio de jogador que mais evoluiu na temporada. Batizado de Edrice, ganhou o apelido, que os fãs pensam ser nome, com um ano de idade, quando a mãe o viu virando uma mesinha de café e logo pensou no personagem dos Flinstones, Bam Bam, caracterizado pela força. Logo depois de ser draftado, em 2017, Spoelstra disse que não ousava estabelecer um limite para Bam. Hoje, todos sabem: não existe um teto. Adebayo já é uma das superestrelas da NBA.

O calouro Kendrick Nunn ganhou uma chance de ouro com o Heat. Seu currículo é manchado por uma acusação de agressão física e psicológica à ex-namorada nos tempos universitários. À época, foi expulso da Universidade de Illinois, ficou um ano afastado até a Universidade de Oakland recrutá-lo. Pelo histórico, acabou não sendo draftado. Com a franquia da Flórida, foi o segundo calouro da temporada com mais pontos por jogo, atrás apenas do ROY Ja Morant, do Memphis Grizzlies.

No Miami Heat, as ferramentas para o crescimento pessoal de todos foram concedidas. O ritmo no complexo de treinamento da franquia é semelhante ao militar. Há um acompanhamento de perto da rotina dos atletas. O percentual de gordura é medido toda semana, os horários são rígidos, os exercícios passados são semelhantes aos aplicados no exército, e há um controle regrado do que é ou não permitido, além de testes obrigatórios de condicionamento físico notoriamente desafiadores.

Se a aposta está dando certo é porque todos no Miami Heat estão exatamente na mesma página. Seja na sede de vencer ou na disposição em pagar absurdos US$ 20 dólares em uma xícara de café feita com a prensa francesa de Jimmy Butler levada para a bolha da Disney.

Fãs, rivais, imprensa, estatísticas, apostadores não ouviram o recado que vinha sendo dado pelos integrantes do Miami Heat antes mesmo da temporada começar. Ao avançar para as finais da Conferência Leste, Butler garantiu que as melhores performances do time ainda estão por vir. Agora, estão todos atentos.