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NBA: por dentro do clube do vinho não oficial dentro da bolha da Disney

Nos dias que antecederam a retomada da NBA na Flórida, o ala do New Orleans Pelicans, JJ Redick, pensou no que levar para a bolha de Orlando que duraria pelo menos cinco semanas. Inicialmente, ele se concentrou apenas nas necessidades básicas. Então, em 8 de julho, quando chegou com os Pelicans no hotel designado, o Yacht Club, Redick analisou seu quarto e as comodidades do hotel.

Um de seus primeiros esforços foi examinar a lista de vinhos.

Redick descobriu rapidamente que a lista oferecia uma coleção homogênea de Napa Valley Cabernet Sauvignon. Bons conhecedores identificam esses vinhos rapidamente e nunca mais olham para trás. E Redick, como muitos na NBA moderna, é um bom conhecedor.

Há um ditado nos grupos de vinho que todas as estradas levam à Borgonha, uma famosa região francesa conhecida por vinhos de produção limitada a partir de pequenos lotes de terra. E é aí que residem os gostos de Redick. É um belo investimento, pois está entre os vinhos mais caros do mundo. Mas, nos últimos anos, depois de várias experiências gastronômicas em belos restaurantes, nas quais o vinho de Borgonha estava lá, Redick se apaixonou.

Em seu hotel em Orlando, Redick não viu nenhum desses vinhos disponíveis ou algo parecido.

"Tudo bem", ele pensou consigo mesmo. "Eu preciso tomar conta disso”.

Redick ligou para seu especialista de vinhos em Nova York e imediatamente pediu que ele enviasse algumas garrafas. Então Redick entrou na Internet para comprar um minibar com 18 garrafas de vinho para o seu quarto - algo para manter as garrafas na temperatura adequada, idealmente em torno de 15 °C

Muitos de seus colegas de NBA estavam fazendo acordos semelhantes.

Quando as 22 equipes da NBA começaram a entrar na bolha, o mesmo aconteceu com o vinho. Afinal, os quase 1.400 jogadores, funcionários e outros membros da bolha da NBA enfrentam longas horas de isolamento em seus respectivos quartos de hotel em um campus restrito. Família e amigos estão longe. Uma pandemia está ocorrendo fora da bolha de Orlando. Um movimento histórico de justiça social continua a se desenrolar. O estresse está lá em cima.

Então, diz Redick, ser capaz de abrir uma garrafa no final do dia e compartilhar um copo à distância com outros jogadores traz algo além da normalidade e conforto.

"Isso fornece uma fuga", diz Redick.


AO LONGO DE 14 DIAS DE 14 HORAS, que começam por volta das 7:30 da manhã, sete dias por semana, aproximadamente 20 caminhões e vans - Amazon, FedEx, UPS, Serviço Postal - entregam entre 700 e 1.200 pacotes de todo o mundo a um salão no Disney World Coronado Springs Resort.

Uma equipe de nove funcionários é encarregada de separar as embalagens e higienizá-las antes de serem liberadas para distribuição. As caixas vão para cada um dos hotéis em vans desinfetadas que podem conter cerca de 200 pacotes cada, dirigidas por motoristas que são testados para o coronavírus diariamente.

Para todos os pacotes que chegam, um tipo se destaca.

"Definitivamente vinho", diz Vernon Peterson, membro da equipe de instalações da NBA em seu 16° ano na liga.

A frequência dos pacotes de vinhos é alta. Há vinho para jogadores, funcionários e repórteres. Os vinhos chegam de vários lugares: sites, lojas físicas, vinícolas e clubes.

"Você consegue perceber quando os vinhos chegam", diz Heather Messer, que, agora em seu 30° ano na liga, lida com administração para eventos da NBA.

Peterson e Messer não estão surpresos. Todo mundo na bolha já está lá há algum tempo, com Messer e Peterson tendo chegado no final de junho.

"Acho que depois que você trabalha é bom relaxar", diz Messer. "É uma coisa relaxante que te lembra de casa."

Durante os longos dias, um dos maiores desafios continua sendo selecionar pacotes que não tenham nenhum endereço além de "NBA" - e muitas caixas com vinho têm esses rótulos.

"Toda vez que ficamos empolgados quando temos uma caixa de vinho que não está etiquetada, pensamos: 'Se ficar aqui por 30 dias, será nossa'", diz Messer, rindo, "mas elas nunca duram mais do que dois dias. Alguém está sempre ligando para dizer: 'Eu pedi vinho. Ele já chegou? ’”.


UM ‘MOVIMENTO DE VINHO’ cresceu na NBA nos últimos anos, com alguns jogadores até começando suas próprias marcas, incluindo o armador do Golden State Warriors, Stephen Curry, e a lenda do Miami Heat, Dwyane Wade. Esse movimento fica ainda mais evidente na bolha.

O ala do Portland Trail Blazers, CJ McCollum, pensa na temperatura de seu quarto de acordo com os vinhos. Ele mantém a temperatura em torno de 15 °C quando está dentro e na faixa de 12 °C quando não está, tudo em um esforço para proteger as 84 garrafas que ele guarda em caixas, longe da luz. Na maior parte, McCollum recebeu seus vinhos de Oregon, onde é membro de várias vinícolas locais.

Ele deu vinho para seus companheiros de Blazers e para o aniversário de Damian Lillard, que a equipe comemorou na bolha. McCollum até ordenou mais seis pacotes que planeja dar para outros jogadores.

"Se você estiver no meu hotel e estiver à beira da piscina, poderá beber comigo", diz McCollum, "portanto, se for durante o dia, provavelmente haverá algo com bolhas. Se for de noite, provavelmente será um pinot”.

Josh Hart, dos Pelicans, pediu um frigobar com cerca de 20 garrafas antes mesmo de ele chegar, e ele já recebeu mais garrafas - preferindo o cabernet de Bordeaux e Napa Valley.

Carmelo Anthony, dos Blazers, um dos amantes de vinho mais experientes da liga, trouxe uma seleção de garrafas do "velho mundo" para a bolha, segundo McCollum - e, segundo fontes, mais garrafas de vinho chegarão para Carmelo, LeBron James, Jimmy Butler, PJ Tucker e outros jogadores.

O Brooklyn Nets forneceu vinho para acompanhar os jantares da equipe, segundo um porta-voz da equipe. Antes do início da disputa, Chris Paul, armador do Oklahoma City Thunder, e Bob Iger, presidente executivo da The Walt Disney Company (dona da ESPN), ajudaram a organizar um jantar e uma degustação de vinhos para o Thunder no Yacht Club, informou uma fonte da equipe para Royce Young, da ESPN. O jantar contou com uma refeição de cinco pratos preparada por um chef após um sommelier narrar a experiência para jogadores e funcionários.

Uma fonte da Associação Nacional de Jogadores de Basquete disse que o sindicato facilitará a entrega de vinhos da Frescobaldi, que representa vários vinhos italianos famosos, como Masseto e Ornellaia, para todos os 22 representantes dos jogadores da NBPA como um presente coletivo para todos compartilharem. A fonte acrescentou que o NBPA também oferecerá o champanhe Cheurlin, a marca pessoal de Isiah Thomas e o champanhe oficial da NBPA, como presente de aniversário para cada jogador que comemorar ais um ano de vida na bolha.

Em sua última viagem à bolha, o proprietário do Milwaukee Bucks, Marc Lasry, surpreendeu sua equipe ao trazer quatro caixas de vinho - duas de pinot noir e duas de chardonnay - da Kistler Vineyards, uma das vinícolas mais famosas do estado da Califórnia. Lasry diz que a entrega foi muito apreciada, principalmente pelo técnico Mike Budenholzer, que ficou 17 anos como assistente de Gregg Popovich – o principal apreciador de vinhos da liga e padrinho dos jantares em equipe.

Lasry planeja levar mais sempre que visitar a bolha.

"Eles ficarão lá por um bom tempo", diz Lasry. "Toda vez que eu for, vou levar umas quatro ou cinco caixas. Eles ficam felizes”.

Na bolha, há passeios organizados por equipes, incluindo boliche, pesca e golfe, todos projetados para ajudar no bem-estar, mas o vinho é diferente, segundo vários jogadores.

"Obviamente, tem que haver um pouco de álcool para que você fique mais relaxado e livre", diz Hart. "Mas o mais importante é que este é um momento desconfortável em termos de não estar com a família, não estar em sua própria casa, em sua própria cama por pelo menos seis, sete semanas”.

McCollum ressalta que os jogadores estão passando horas do dia em seus quartos, geralmente saindo apenas para atividades relacionadas ao basquete ou para testes COVID-19.

"Fora isso, você fica no seu quarto pelo menos metade do dia, incluindo o tempo do sono", diz McCollum. "Você fica muito no seu quarto".

Na bolha, Hart está desprovido de quase todos os confortos de casa. Quando Hart está em casa, o jogador dos Pelicans passeia com seus cães, namorada e família, joga videogame e desfruta de um bom vinho, um hobby que ele começou a ter nos últimos anos, especialmente quando jogava no Lakers. (Em Los Angeles, ele diz, LeBron James e o armador Rajon Rondo sempre traziam vinho para o avião da equipe, e isso ajudou a impulsionar sua nova paixão.)

"Eu tenho meu videogame aqui comigo e pude tomar vinho, então ainda há um senso de normalidade, eu acho", diz Hart. “É algo que me tranquiliza nesse tempo desconfortável”.


À NOITE, os jogadores têm ido para o lounge ou para a área da piscina, onde compartilham garrafas de vinho.

"Você vê algumas equipes sentadas em mesas separadas, e todos estão bebendo vinho ou discutindo coisas sobre vinho", diz McCollum. "Acho que se tornou uma prática mais comum, especialmente associada ao jantar - uma maneira de refletir e relaxar após um longo dia de exercícios”.

Hart e Redick abriram várias garrafas juntos, cuja variedade pode ser vista na nova conta do Instagram de Hart: @jhartcellars. Redick apresentou Hart às maravilhas da Borgonha. Hart é rápido em notar, porém, que Redick está na NBA há mais tempo e pode pagar mais facilmente por esses vinhos.

"Veja, você pode fazer isso", Hart lembra que disse a Redick com uma risada. "Você está na liga há 15 anos, acumulou bons salários. Isso é caro. Ainda estou no meu contrato de novato, meu irmão".

McCollum e Anthony desfrutaram de várias garrafas juntos, incluindo da nova marca de McCollum. Faz tempo que eles visitaram vinícolas do Oregon juntos, participando de degustações de barris e ficando muito tempo depois do horário de encerramento, discutindo o vinho, adivinhando os tipos de solo e safras.

"Ele tem um conhecimento muito, muito bom de vinho, especialmente os europeus, e ele adora essas coisas. Foi bom, porque ele me apresentou vinhos de regiões que não tive a oportunidade de visitar", diz McCollum sobre Anthony.

O vinho une as pessoas na bolha, dizem os jogadores, e à medida que a conversa flui, o mesmo acontece quando o assunto é basquete, o estado do país e o compromisso sem precedentes da NBA.

"Isso é algo que ninguém jamais fez antes", diz Hart sobre a bolha. “Definitivamente ajuda”, completa o jogador dos Pelicans sobre o vinho.