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NBA: Por que alguns técnicos amam o novo estilo casual - e outros nem tanto

Quando o Miami Heat tirou Erik Spoelstra da sala de vídeo e o colocou como assistente técnico do time, havia um problema: Spoelstra não tinha um terno. O código de vestimenta da liga para os treinadores, detalhado em um memorando enviado antes da temporada, exige que cada treinador use uma camisa (ou "suéter") e um terno.

Pat Riley, chefe de Spoelstra e um dos grandes fashionistas de todos os tempos da NBA, emprestou a Spoelstra vários de seus ternos Armani. Riley é mais alto que Spoelstra, com ombros mais largos. “As roupas de Pat eram enormes”, disse Spoelstra. "Era quase como se houvesse chuteiras nos ombros. Eu parecia o cara do vídeo do Talking Heads".

Spoelstra melhorou seu estilo ao longo de duas décadas no banco de Miami, mas não precisou levar nenhum terno à bolha da NBA no Walt Disney World Resort em Orlando, Flórida. A National Basketball Coaches Association (NBCA) fez uma pesquisa entre seus membros e encontrou forte apoio para um visual mais casual em Orlando: camisas polo, calças e tênis. A associação levou suas descobertas aos executivos da liga, que aprovaram o estilo casual para o reinício da NBA, disse Rick Carlisle, treinador do Dallas Mavericks e presidente da NBCA.

Spoelstra está quase com medo de dizer em voz alta, mas prefere o visual da bolha. "Pat ficaria chocado", disse Spoelstra. "Há muito menos em que pensar. Eu me sinto mais solto. O que mais odeio em ternos é usar sapatos sociais". Vários treinadores ecoaram a observação de Spoelstra sobre como a aparência casual simplifica a tomada de decisões - e fazer malas, uma dor de cabeça constante nos tempos atuais.

A vez de Spoelstra marca uma vitória importante para o Time Casual, que sente que está ganhando força na bolha por mudanças mais duradouras. Gregg Popovich, do San Antonio Spurs, o mais velho entre os treinadores, tem se perguntado em voz alta - inclusive em seu papel de treinador do Team USA, onde a aparência do polo rege - por que treinadores em ginásios quentes devem usar ternos. Alguns treinadores a favor do processo estavam cautelosos em proclamar sua lealdade e se posicionar contra um amado mentor para muitos.

Frank Vogel, treinador do Los Angeles Lakers, seguiu o mesmo caminho que Spoelstra, vindo da sala de vídeo. Antes de seu primeiro jogo como assistente de Rick Pitino na Universidade de Kentucky, Vogel estava escrevendo no quadro branco quando Pitino se aproximou. "Você não está usando isso, está?", Pitino perguntou a ele.

Vogel estava usando seu único terno - um presente de formatura de seus pais. Ele disse a Pitino que o usaria para cada jogo e trocou camisas e gravatas para evitar que percebessem. Não funcionou. Ele convidou Vogel para sua casa naquela noite e lhe deu 15 ternos - Armanis e Brionis - além do número do alfaiate, lembrou Vogel.

Vogel permanece no Time Terno. "É a árvore genealógica de Pitino", disse ele. Vogel brincou dizendo que ele quer ser "o Dan Reeves da bolha", uma referência ao ex-técnico de Denver Broncos, New York Giants e Atlanta Falcons na NFL - que muitas vezes usou ternos em um esporte que não combina com ternos.

A associação de treinadores fez pesquisas periódicas, mais recentemente, há duas temporadas, e descobriu que as pessoas ainda preferem ternos a polos, disse Carlisle. O técnico dos Mavs passou dois anos como assistente do New Jersey Nets sob o comando de Chuck Daly, talvez o fashionista mais avançado da história da NBA. Daly tinha um contrato de patrocínio com a Hugo Boss. Em uma viagem, ele convidou Carlisle para uma loja da Hugo Boss para fazer compras. "Foi a coisa mais legal que eu já fiz até hoje", disse Carlisle.

Carlisle nunca foi a um jogo sem gravata (fora da bolha), ele disse: "Se eu fizesse isso, Chuck se reviraria em seu túmulo". Carlisle é talvez a voz mais poderosa do Time Terno. "O legado de caras como Chuck Daly, Pat Riley, Lenny Wilkens é uma grande parte disso", disse ele.

A atenção cuidadosa do falecido Flip Saunders ao estilo foi passada para seu filho Ryan, agora o treinador do Minnesota Timberwolves. "Gosto dos meus ternos", disse Saunders. "Eu aprendi isso com meu pai. Você se sente bem se estiver bem vestido”.

Mas, observando Orlando de longe, Saunders sentiu os movimentos da "rebelião". "Depois de ficar em quarentena e nem vestir jeans por seis meses, estou pensando em algo mais casual", disse ele. "Meu pai teria um ataque".

Outros apoiadores notáveis do visual polo: Brad Stevens, do Boston Celtics; Michael Malone, do Denver Nuggets; Steve Clifford, do Orlando Magic; Mike D'Antoni, do Houston Rockets; James Borrego, do Charlotte Hornets; Luke Walton, do Sacramento Kings; Steve Kerr, do Golden State Warriors; e Scott Brooks, do Washington Wizards. "Eu era contra [polos], mas agora que estou um pouco mais pesado, eu amo!", disse Brooks. A maioria dos treinadores acima disse que apoiaria um eventual mudança de visual definitiva.

"Com todos os treinadores combinando, acho que mantemos a aparência profissional", disse Walton.

Dwane Casey, treinador do Detroit Pistons, gosta de ambos os aspectos e prefere que os treinadores escolham a cada jogo. Brett Brown, treinador dos Philadelphia 76ers, faz parte do Time Casual, mas está aberto a um meio termo. Os Sixers encomendaram camisas personalizadas - não polos - para os playoffs em Orlando, disse ele. "Quando eu era jovem, me importava mais”, disse Brown. “Agora, o terno que estiver mais perto, eu apenas jogo na mala. Existe um verdadeiro desdém por fazer as malas”.

"Eu disse aos meus filhos que seria um treinador melhor se usasse camisas polo", disse Borrego. "Há muito menos decisões a serem tomadas”.

J.B. Bickerstaff - cujo pai, Bernie, foi treinador na NBA por 40 anos - é um tradicionalista. "A história do processo significa alguma coisa", disse ele. Outros adeptos do Time Terno são Nick Nurse, do Toronto Raptors; Lloyd Pierce, do Atlanta Hawks; e Jim Boylen, do Chicago Bulls.

Quin Snyder, treinador do Utah Jazz, citou a questão de as equipes estarem iguais, o que não é incomum nas ligas europeias. Quando Snyder foi assistente do poderoso CSKA Moscou no início desta década, Ettore Messina, então treinador da equipe russa, vestiu toda a equipe técnica com o mesmo terno e gravata para cada jogo. "E Ettore tem muito bom gosto", disse Snyder. (Messina confirmou, por mensagem, que ele realmente tem bom gosto.)

"O que fizemos no CSKA fornece um elemento de profissionalismo e também captura o componente pragmático de não ter que pensar demais", disse Snyder.

Esse sistema impediria que os treinadores mostrassem seus estilos individualmente. (Em um documento enviado às equipes em outubro, a liga detalhou pela primeira vez um código de vestimenta para treinadoras - embora muito breve. "Cada treinadora deve usar trajes profissionais", diz ele. "Sapatos esportivos, sandálias, chinelos e botas são proibidos”.)

Um dos assistentes dos Wolves – que preferiu não identificar - já manifestou preocupação em potencialmente perder sua independência de escolher o que vestir, disse Saunders. Mike Brown, o assistente principal de Kerr e ex-treinador dos Lakers e Cleveland Cavaliers, escolhe todos os elementos de sua roupa para cada jogo e acompanha suas escolhas para que ele não use a mesma roupa duas vezes contra o mesmo adversário, disse ele.

"Eu tenho um processo inteiro", disse Brown. "Gosto de caras capazes de mostrar suas personalidades através da roupa que estão vestindo”.

Mas, como Vogel e Spoelstra, Brown se lembra de ser um jovem assistente com pouco dinheiro. Nos anos 1990, ele procurou acordos na K&G Fashion Superstore, que às vezes oferecia promoções que incluíam terno, camisa e gravata por US$ 99, disse Brown.

A partir de 2008, a associação de treinadores fechou um acordo com a Men's Wearhouse para fornecer ternos aos treinadores. O acordo não se aplicava aos assistentes, embora eles recebessem um desconto - além de sapatos e cintos como parte de acordos menores. (O contrato da Men's Wearhouse expirou após a última temporada, segundo fontes.)

As equipes estarem iguais também é importante. Até vários treinadores do Time Casual admitiram que pode parecer estranho uma equipe cuja comissão está de terno enfrentar uma que está de polo. “Uma comissão parece que está prestes a entrar em um casamento, enquanto a outra parece que está prestes a relaxar”.

Alguns treinadores do Time Casual estão preocupados com camisas que não protegem os braços, fazendo com que sintam frio nas arenas mais geladas da liga. Eles cogitaram a possibilidade de camisas polo com mangas longas.

Há um acordo quase unânime de que a aparência defendida pelo Time Casual faz sentido para o ambiente menos formal em Orlando, que muitos compararam com a G League da NBA - outro evento onde os técnicos usam polo. Alguns defensores do Time Casual podem ter dificuldades em transferir a aparência para jogos normais. Outros não pensam nisso o suficiente para ir atrás do Time Terno e tentar mudar algo.

Mas a bolha de Orlando encorajou o Time Casual. "Talvez essa experiência dê algum impulso", disse Malone.