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NBA: como relacionamento entre chefão da liga e 'sindicalista' Chris Paul ajuda nos bastidores

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Ao falar com jogadores, treinadores, executivos, árbitros e até mesmo agentes nas últimas semanas, toda essa demonstração de apoio a Adam Silver revela uma notável relação construída após anos como comissário da NBA.

Sob sua liderança, a liga e seus parceiros ficaram mais ricos. Silver expandiu o suporte a jogadores que usam suas vozes e plataformas para defender causas sociais e trabalhou para abrir conversas e expandir recursos para problemas de saúde mental.

Nesse tempo incerto e cheio de pressão, a moeda que Silver desenvolveu pode ser valiosa. Isso parece ser bastante real com os jogadores, enquanto Silver terá de fechar dois acordos com o sindicato nos próximos meses que podem testar os limites desse relacionamento.

Ele não tem se preparado para esse exato momento, mas está se preparando para algum grande momento. Silver é conhecido por ser um homem de palavra e que tem compaixão, mas também é advogado e um negociador experiente. É difícil ser os dois, especialmente como uma figura pública.

Primeiro, Silver precisa fazer um acordo com os jogadores para terminar a temporada no complexo da Disney em Orlando. Isso provavelmente incluirá sacrifícios pessoais e riscos à saúde, além de perdas salariais. Em seguida, eles terão que discutir sobre a próxima temporada, o que poderia exigir uma renegociação parcial ou completa do acordo coletivo por conta da receita reduzida.

Ter que abordar esses dois assuntos em uma janela de tempo tão pequena pode ser a maior tarefa de qualquer comissário da história da liga. Ele terá que fazer isso de uma maneira que satisfaça seus chefes, os 30 proprietários. E ele terá que fazer isso enquanto evita reações negativas de jogadores por conta das reduções em seus contratos já garantidos. Tudo isso durante uma pandemia.

No centro desse empreendimento está o relacionamento que Silver mantém com o presidente do sindicato, o armador do Oklahoma City Thunder, Chris Paul. Essa parceria se desenvolveu ao longo de quase 15 anos de trabalho em diferentes níveis nos bastidores.

Silver, Paul e a diretora executiva do sindicato, Michele Roberts, organizaram uma extensão de CBA cansativa, mas relativamente pacífica depois de meses de negociações em 2016. Em um momento de assinatura para ambos, Paul ganhou concessões para os grandes astros e Silver evitou uma greve. Considerando que duas das três CBAs anteriores montadas pelo comissário David Stern envolveram locautes, esse foi um feito importante.

Na época, essa foi a maior conquista conjunta de Paul e Silver, mas dificilmente a primeira. Em 2006, quando Paul era um jogador em seu segundo ano e Silver acabara de ser promovido a vice-comissário, o jovem armador ligou para Silver para registrar uma reclamação sobre as bolas de couro sintético que haviam sido introduzidas. Silver mais tarde desempenhou um papel-chave em se livrar da bola.

Anos depois, em 2013, quando Silver foi nomeado como o próximo comissário da liga e Paul foi eleito para o conselho executivo do sindicato, eles trabalharam juntos para obter a aprovação da bandagem kinesio para uso depois que a liga a proibiu inicialmente, o que irritou os jogadores.

Então, no verão passado, quando Paul ligou para Silver para sugerir a implementação do Elam Ending no All-Star Game, as conversas que produziam mudanças entre esses dois intermediários se tornaram rotina. Quando Silver ligou para Paul no dia em que Kobe Bryant morreu para consultá-lo sobre se os jogos deveriam acontecer, isso apenas mostrou como a relação deles havia se tornado profunda.

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Enquanto a crise causada pelo coronavírus persiste, Paul e Silver têm estado em contato constantemente. Paul disse recentemente a Royce Young, da ESPN, que ele garante que vários jogadores estejam envolvidos nas conversas com Silver durante a suspensão – não apenas ele.

Mas, como em tantas outras ocasiões na última década, Paul e Silver estão na linha de frente do possível recomeço da NBA.

Quando Roberts disse à ESPN na semana passada que os jogadores talvez nem votassem em um plano de retorno, essa declaração pegou alguns agentes de surpresa e os deixou revisando o estatuto do sindicato, que não exige tal votação.

Não é que Roberts, que recentemente tem mantido ligações com todas as equipes para fornecer informações e receber feedback, esteja tentando apressar o processo. O que aconteceu foi que Silver garantiu que Paul e Roberts tivessem um lugar na mesa enquanto tudo isso se desenrola. Recentemente, o sindicato formou um comitê de jogadores, liderado por Paul, que tem Kyle Lowry, Dwight Powell, Russell Westbrook e Jayson Tatum como membros, para continuar a consultar Silver e alguns de seus principais funcionários à medida que o processo se desenrola. Desta forma, o sindicato, em alguns aspectos, votou ao longo do caminho.

Um exemplo é a preferência do sindicato em permitir que membros da família do jogador entrem na “bolha”, coisa que a liga tratou como uma prioridade enquanto pensava nos próximos passos.

Isso contrasta com o que aconteceu em negociações semelhantes, como a da Major League Baseball (MLB), em que a negociação de propostas para um modelo de retorno ao jogo foi complicada. É possível que as negociações da NBA possam mudar dessa maneira a qualquer momento - especialmente quando questões de salário começarem a ser discutidas – mas o fato de Silver ter incluído o sindicato nas discussões pode dar a ele uma chance maior de chegar a um acordo, apesar da natureza desagradável do assunto.

Ao fazer uma ligação com vários jogadores há algumas semanas, Silver ouviu preocupações relacionadas ao vírus e prometeu pedir às equipes que não pressionassem os jogadores a retornarem às instalações depois que isso foi levantado como uma preocupação. Mas ele também foi franco sobre a posição financeira da liga, preparando todos para o que está por vir.

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A liga tem o direito de cancelar os 259 jogos restantes da temporada regular, potencialmente eliminando mais de US $ 600 milhões em salários (os jogadores já estão com seus salários pagos para se preparar para isso). No entanto, apesar de ter esse martelo delineado no atual acordo trabalhista, Silver precisa fazer com que o sindicato concorde com questões não levantadas pelo acordo atual: jogar no verão, entrar em quarentena por semanas e adicionar alguns jogos de playoff para os quais não existe uma estrutura salarial definida.

Uma grande razão pela qual Silver tem sido tão popular é porque a NBA teve um grande crescimento de receita durante seu mandato, após o acordo de direitos de TV de US$ 24 bilhões que ele negociou em seus primeiros meses no cargo em 2014.

Quando a NBA fez esse acordo, os novatos ganhavam no mínimo US$ 500 mil e a maioria dos jogadores veteranos ganhavam pelo menos US$ 1,4 milhão. Hoje, o mínimo para um novato é de US$ 900 mil e os jogadores mais veteranos ganham pelo menos US$ 2,5 milhões. Em 2014, apenas duas estrelas já haviam ganhado mais de US$ 30 milhões em uma temporada: Michael Jordan (duas vezes) e Kobe Bryant (uma vez). Nesta temporada, 20 jogadores têm acordos que lhe renderão mais de US$ 30 milhões.

No mesmo período, os valores médios das franquias aumentaram de US$ 630 milhões para US$ 2,1 bilhões, segundo a Forbes. Três equipes foram vendidas por mais de US $ 2 bilhões e os proprietários viram seu poder de empréstimo subir de US$ 175 milhões para US$ 325 milhões.

Mas agora vem o ponto principal de como gerenciar o dinheiro que sai em vez de entrar. A liga pode ter que reformular a maneira como as equipes compartilham receita entre si e como os jogadores compartilham dinheiro com os proprietários. Silver pode simplesmente ter que dizer não a algumas pessoas. Ele pode ter que lidar com jogadores e seus familiares com resultados positivos para o coronavírus por causa de uma tentativa de terminar a temporada.

Este é um território desconhecido e um teste de fogo para a maneira de fazer negócios de Silver. Quando a próxima temporada chegar, se os relacionamentos que o comissário da NBA cultivou com todas as partes saírem ilesos, será um pequeno milagre.