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Como NBA trabalha para terminar temporada em uma 'bolha' no complexo da Disney

Após dez semanas sem NBA, por conta da pandemia do coronavírus, a ideia de encontrar um lugar que serviria como “bolha”, onde os jogos poderiam ser disputados, deu o próximo passo.

A liga iniciou conversas com a The Walt Disney Company sobre terminar o restante de sua temporada no ESPN Wide World of Sports, um complexo que faz parte da Walt Disney World, em Orlando, Flórida, no final de julho, disse o porta-voz da NBA, Mike Bass, neste sábado.

"A NBA, em conjunto com a National Basketball Players Association, está conversando com a Walt Disney Company sobre o reinício da temporada 2019-20 da NBA no final de julho no complexo ESPN Wide World of Sports, na Flórida, como um local único de eventos para jogos, treinos e moradia", disse Bass. "Nossa prioridade continua sendo a saúde e a segurança de todos os envolvidos, e estamos trabalhando com especialistas em saúde pública e funcionários do governo para garantir que protocolos e proteções médicas apropriadas estejam em vigor".

Ao estudar o conceito de "bolha", a ESPN conversou com várias partes interessadas - treinadores, árbitros e executivos da NBA, especialistas em doenças virais, especialistas em operações de basquete, produtores e diretores de TV, além de funcionários de hotéis e restaurantes - e compararam suas necessidades e preocupações com o que a liga planeja fazer.

Existem desafios logísticos consideráveis na tentativa de terminar a temporada 2019-20. E, embora a situação em torno da COVID-19 esteja em constante evolução, a esperança persiste em eventualmente declarar um campeão nesta temporada. É assim que a tal da bolha da NBA poderia funcionar.

Testes são imprescindíveis

Quando se trata da retomada do basquete, Adam Silver, comissário da NBA, disse que seguirá as orientações do Centro de Controle de Doenças e de consultores de saúde independentes. E a única coisa em que esses especialistas em saúde concordam é que fazer testes é a chave para tudo.

É necessário um teste rápido, simples e confiável. Também deve haver testes públicos disponíveis suficientes para evitar reações contrárias à NBA adquirindo os kits. A liga espera que sejam necessários aproximadamente 15.000 testes, fontes disseram para Adrian Wojnarowski, da ESPN. As equipes receberam um memorando na quinta-feira à noite, aconselhando a não organizar testes de coronavírus para jogadores e funcionários assintomáticos.

A NBA está trabalhando com centros acadêmicos, laboratórios e desenvolvedores de testes médicos para contribuir com os avanços nos testes para o esporte e para a população em geral, mas a capacidade de testes em todo o país ainda está muito aquém do ponto em que os especialistas em saúde consultados pela liga dizem que precisam estar. Até que isso seja resolvido, é improvável que a NBA use esses recursos, fontes da liga revelaram.

"Eu acho que seria preocupante se uma liga esportiva tivesse vários testes disponíveis em um momento em que pessoas que estão em situações de alto risco ainda têm dificuldades para obter esse acesso", disse o Dr. Vivek Murthy, o ex-cirurgião geral que aconselhou a NBA sobre o coronavírus.

Os especialistas diferem em quantas vezes os testes precisariam ser realizados para manter a integridade das bolhas. Anthony Fauci, um membro importante da força-tarefa da Casa Branca contra o coronavírus sugeriu que os esportes possam recomeçar com atletas sendo testados semanalmente, desde que sejam observados de perto.

Pode haver monitoramento diário dos sintomas, mas isso tem uma eficácia limitada, porque portadores assintomáticos podem ser contagiosos antes de mostrar sintomas, vários especialistas disseram à ESPN.

"[Testar todos os dias] seria o ideal", disse Carl Bergstrom, professor de biologia da Universidade de Washington, que acompanha de perto os planos da MLB e da NBA e discutiu a logística com as partes interessadas. "Descubra como testar todo mundo todos os dias e vá a partir daí".

Ainda assim, isso deixaria perguntas sem resposta. Por exemplo, o Centro de Controle de Doenças diz que adultos acima de 65 anos correm maior risco com a COVID-19. A NBA permitiria atividades normais para treinadores como Gregg Popovich (71) e Mike D'Antoni (68)?

Falsos negativos e falsos positivos também apresentam problemas. Um retorno ao jogo precisaria levar em consideração as duas possibilidades e garantir a saúde e o bem-estar dos que estão dentro da bolha.

As respostas dos especialistas em epidemias destacam as complexidades da liga em poder fornecer orientações sobre um plano de retorno ou até a capacidade de delinear uma linha do tempo.

Quanto tempo esse experimento duraria?

Quando a liga foi suspensa, havia 259 jogos da temporada regular restantes no calendário. Se a NBA completasse esses jogos e quatro rodadas de playoffs, estamos falando de uma bolha que duraria, aproximadamente, três meses.

Epidemiologistas e especialistas em doenças infecciosas descreveram a necessidade "de criar camadas de proteção" no retorno. Isso significaria reduzir ao mínimo o número de pessoas envolvidas para reduzir a possibilidade de infecção e propagação do vírus com outras medidas, como verificações diárias da temperatura. Como resultado, esses especialistas recomendam isolar os participantes da bolha de amigos e familiares durante esse período.

Esta foi, em última análise, uma concessão insustentável. Enquanto a liga avalia as opções, fontes disseram que a ideia de colocar jogadores em uma bolha em quarentena sem membros de família foi rapidamente descartada. A esperança é que os avanços nos testes tornem a situação mais volátil.

"Há tantas camadas que teriam que entrar em jogo para que [uma bolha] realmente virasse uma realidade", disse Chris Paul, presidente da Associação Nacional de Jogadores de Basquete, na semana passada. "Teríamos que saber exatamente como isso seria. Há muitas hipóteses por aí".

Uma delas é determinar quanto tempo levaria para os jogadores voltarem à forma física.

Em um cenário em que a NBA tinha oito jogos por dia - usando duas quadras para sediar jogos simultâneos, como acontece na Summer League - a temporada regular poderia ser concluída em 33 dias, quase sem jogos em noites seguidas. Uma pós-temporada completa de quatro rodadas, com dias de folga mínimos, levaria no máximo 55 dias para ser concluída.

Uma estrutura alternativa pode encurtar essa previsão e reduzir o número de pessoas necessárias para que a temporada seja terminada, pulando diretamente para os playoffs – com base na classificação atual. Ter 16 equipes em vez de 30 reduziria quase pela metade o número de pessoas na bolha e potencialmente o tempo fora de casa em mais de um mês.

Um número menor de pessoas também diminuiria, obviamente, o contato entre os times - algo que as autoridades médicas dizem que seria prudente, pois reduziria ainda mais a chance de proliferação do vírus no caso de infecção.

Onde seria a bolha?

O ESPN Wide World of Sports, pertencente ao Walt Disney World, em Orlando, na Flórida, aparece como a principal opção no momento, fontes disseram para Ramona Shelbourne.

O complexo de pouco menos de um quilometro quadrado com três arenas e acomodações amplas permitiria que o jogo fosse retomado limitando a exposição dos envolvidos.

Las Vegas também tem sido considerada, com o MGM Grand como um dos pretendentes a sediar a NBA, disseram fontes a Adrian Wojnarowski. O Showcase da G League foi citado como exemplo.

Nos últimos dois anos, o Showcase foi realizado no Mandalay Bay, da MGM, e acomodou 28 equipes. Sob essa configuração, cinco quadras são colocadas em um centro de convenções - duas para jogos e três para treinos - com todas as equipes permanecendo em hotéis no mesmo teto.

Mas os especialistas recomendam que as equipes sejam colocadas em grupos menores, como forma de proteção extra contra a propagação do vírus. As equipes podem precisar permanecer e jogar em locais separados. Uma complicação potencial para vários locais seria o transporte. Se locomover por ônibus ou outros veículos aumentaria o número de pessoas necessárias na bolha.

Além disso, a realização de um evento desse tamanho em qualquer lugar exigirá a cooperação de governos locais - e possivelmente estaduais -, pois isso poderia criar mais demanda de recursos locais e abrir a porta para que a operação da liga fosse subsidiada no que seria um empreendimento caro e de alto perfil.

Quem ficaria dentro da bolha?

Para reduzir a probabilidade de o vírus “invadir” a bolha, especialistas disseram que a NBA teria que operar com o menor número possível de pessoas dentro dela. Levando em consideração funcionários das equipes, da liga, árbitros, produtores de televisão e gerentes de hotéis, estamos falando de cerca de 1.500 pessoas sendo consideradas "essenciais" para que a temporada regular seja retomada.

Parte do trabalho para determinar o pessoal essencial começou semanas atrás, com as organizações se preparando para a probabilidade de realizar jogos sem fãs. Em um memorando para as equipes em 7 de março, a NBA disse "minimizar o número de funcionários que viajam com a equipe apenas para indivíduos essenciais".

Esse cenário iria ainda mais longe. Consultas com treinadores e executivos levou à redução para 28 pessoas por equipe: 15 vagas na lista de jogadores ativos (excluindo two-way players), técnico principal, três assistentes, três treinadores/fisioterapeutas, um técnico de força, um gerente de equipamentos, um coordenador de logística, um representante da diretoria, um funcionário de relações públicas e um funcionário de segurança. Uma viagem em circunstâncias normais contaria com 40 a 50 pessoas, com esse número subindo para 75 ou mais nos playoffs.

Além das necessidades do time, a equipe de operações do jogo precisaria de acesso.

Teria de haver um conjunto de pessoas operando os cronômetros, marcando, compilando estatísticas em tempo real e se comunicando com os árbitros e com as duas equipes. Há duas razões para estarem fisicamente presentes: precisão e fins de apostas em tempo real. Eles não podem correr o risco de um delay assistindo a uma transmissão propensa a falhas de conexão.

Uma pessoa para ficar nos alto-falantes foi considerada necessária, porque comunica o que está acontecendo na quadra às duas equipes. Essas pessoas são utilizadas na G League Showcase, onde os fãs não estão presentes.

Essas tarefas combinadas exigem sete pessoas para cada jogo. Jogar quatro jogos por dia em duas quadras significaria a necessidade de cerca de 42 pessoas - sete para trabalhar em duas partidas durante os dias, sete para cada partida durante à noite e dois “reservas” para permitir uma rotação de dois dias de trabalho para um dia de folga. Também haveria os famosos gandulas - provavelmente dois para cada equipe por jogo - para lidar com a manutenção da quadra e da área do banco de reservas.

Para disputar o restante da temporada regular e playoffs, um árbitro disse à ESPN que a liga precisaria de 36 a 38 árbitros. Isso representa três árbitros para a média de oito jogos disputados durante a temporada regular, além de contar com equipes extras para folgas e em caso de lesão. O uso de vários locais aumentaria esse número.

Vários produtores de televisão acreditam que os jogos podem ser televisionados com até cinco câmeras tripuladas. E entre turnos de operadores de câmera e outras pessoas, seriam necessárias entre 20 e 25 pessoas para a transmissão das partidas. Seria necessário haver caminhões de produção no local para dar suporte às transmissões, mas é possível que eles possam ser alojados fora de onde as partidas estariam sendo realizadas - e, portanto, mantidos separados daqueles que jogavam e treinavam neles.

Todo jogo da NBA também tem médicos de emergência e uma ambulância à disposição. A forma como essas pessoas se encaixariam na bolha é incerta, pois ela potencialmente representa uma pressão sobre os recursos de saúde.

Funcionários essenciais de suporte

As equipes da NBA geralmente ficam em hotéis cinco estrelas com serviço de luxo 24 horas por dia, onde podem pedir refeições especializadas para atender às necessidades dos jogadores. Se eles fizerem isso para 1.100 a 1.200 pessoas - a parte de funcionários essenciais da NBA -, seriam necessários entre 300 e 350 trabalhadores, de acordo com um gerente de um hotel que hospeda equipes da NBA.

Se fossem feitas concessões - por exemplo, os quartos arrumados diariamente, mas limpos semanalmente - esse número poderia cair em 20%. Se tivermos refeições padrão em vez de refeições personalizadas, poderia cair mais 10%.

As equipes podem precisar ficar em hotéis diferentes, ou pelo menos em andares separados, impactando novamente o número de pessoas dentro de uma bolha.

Para ser claro: isso exigiria um trabalho sem precedentes em um período de tempo apertado e incerto para construir o caminho de NBA rumo ao retorno das partidas ao vivo.

Mas esta é uma situação sem precedentes. E se a NBA quiser voltar nesta temporada, essa pode ser sua melhor aposta. Por enquanto, a NBA não tem um plano de retorno ao jogo e permanece vaga por design, disseram fontes. Existem muitas perguntas que permanecem sem respostas.

Até que a NBA tenha essa certeza, continuará esperando e ver se pode retornar. Todos os outros também.