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'A presença de Kobe foi sentida': O All-Star Game da NBA mostrou a verdadeira força do basquete

CHICAGO - Talvez ninguém na história recente tenha se importado tanto em vencer o All-Star Game da NBA como Kobe Bryant. A reformulação do formato e a lembrança de Kobe criaram um jogo na noite de domingo no United Center que deixariam a lenda do basquete orgulhosa.

Tecnicamente, o Time LeBron foi o vencedor sobre o Time Giannis por 157 a 155, e 500 mil dólares foram doados para as duas instituições de caridade escolhidas pelos capitães do Jogo das Estrelas. O último herói foi Anthony Davis, nascido em Chicago, que acertou o lance livre da vitória.

Mas quem venceu mesmo a partida foi o espírito competitivo que Kobe representava. Apesar de tudo que aconteceu durante esta difícil temporada da NBA, este confronto relembrou a grandeza do basquete da liga.

Como o falecido David Stern costumava dizer quando a liga passava por problemas: "A grandeza do jogo sempre irá nos carregar."

Este All-Star Game foi grande. O novo sistema de pontuação criou um quarto período com mais intensidade do que vimos nas últimas décadas do evento.

LeBron James roubou a bola de Giannis Antetokounmpo. Antetokounmpo respondeu com tocos em James, um deles foi crucial, quando o grego 'pregou' o rival e criou uma das revisões mais intensas que já vimos. Kyle Lowry entrava na frente de adversários para levar faltas ofensivas. Chris Paul, que levou a ideia de uma 'pontuação alvo' para a liga há alguns meses, estava em todos os lugares - enterrando pontes e liderando uma virada. Joel Embiid estava tentando, sozinho, fazer renascer o jogo dentro do garrafão.

E, claro, na jogada final, quando LeBron, que passou a temporada toda tentando garantir a felicidade de Anthony Davis para manter o colega de time no Los Angeles Lakers, abriu mão do último arremesso e fez o passe para Davis levar falta e fechar a o All-Star na linha do lance livre.

"Com certeza sentimos a presença dele (Kobe). Ele estava aqui", disse LeBron depois do jogo.

Tributos tomaram conta da noite em Chicago. Desde as camisas que relembravam os números que Kobe e Gianna usavam, até cerimônias antes e no intervalo da partida.

Mas a verdadeira homenagem aconteceu dentro de quadra, e ninguém abraçou tanto a disputa como o MVP Kawhi Leonard e o próprio Chris Paul.

No Final de Semana das Estrelas de 2012, em Orlando, Kawhi ainda era um calouro quando encontrou Kobe em uma festa da Nike. Ele usou a ocasião para fazer perguntas sobre treinos na offseason e outras estratégias. Anos depois, após o último jogo de Kobe em San Antonio, Gregg Popovich chamou a lenda para um momento em particular. Ele queria que Kobe ficasse de olho em Kawhi e ajudasse a guiar o ainda jovem ala agora que eles não eram mais rivais - afinal, o treinador dos Spurs sabia da importância de Bryant para Leonard.

Se Kobe é quem mais se aproximou à mentalidade de Michael Jordan, é possível que Kawhi assuma o bastão. Os dois têm em comum uma mistura de competitividade e garra que apenas 1% de 1% dos grandes atletas do mundo possuem.

Então, para um jogador que redefiniu o que é o descanso durante a temporada regular e normalmente se pouparia de um All-Star Game - no ano passado, ele ficou 18 minutos em quadra, a menor marca entre os titulares do último Jogo das Estrelas -, domingo foi a forma que Kawhi encontrou de homenagear seu maior exemplo no basquete.

"Eu entrei, acertei meus dois primeiros arremessos... Foi quando falei para mim mesmo que tentaria vencer o MVP", contou Kawhi. "É muito especial. Eu tinha uma relação com ele. Palavras não explicam como estou feliz. Vou poder colocar o troféu na minha sala e ver o nome de Kobe lá. Significa muito para mim. Ele é uma grande inspiração na minha vida."

Kawhi jogou para vencer e quebrar recordes. Entre as homenagens, ele fez 25 pontos só no primeiro tempo, 30 no total, mais que qualquer outro jogador. Também acertou oito bolas de três, uma a menos que o recorde do All- Star Game - que pertence a Paul George, seu colega de LA Clippers.

Kobe, como sabemos, venceu o MVP quatro vezes, uma das razões que motivaram a NBA a colocar seu nome no troféu.

No primeiro All-Star Game de Bryant, em Nova York-1990, ele deixou claro que levaria a sério. Os veteranos, alguns que nem gostaram muito de ver um reserva dos Lakers ser escolhido pelos fãs para a partida, não concordaram muito com a mentalidade de Kobe naquela partida festiva.

Ele tratou o jogo como se fosse um duelo particular contra Jordan, como se fosse a grande estrela do time do Oeste, arremessando em 10 das 11 primeiras vezes que teve a posse da bola. Kobe também mandou um 'tchauzinho' para Karl Malone no terceiro quarto daquele confronto, quando o então ícone do Utah Jazz tentou fazer um bloqueio para evitar que Kobe atacasse Jordan na defesa. Malone não gostou muito.

George Karl, técnico do Oeste, deixou Kobe no banco durante todo o último período - uma forma de trote na jovem estrela e de garantir que ele não levaria o MVP, irritando ainda mais os veteranos. Kobe já tinha 18 pontos. Bryant nunca perdoou Karl. Na verdade, chegou a dizer que usou isso como motivação para enfrentar os times do treinador - especialmente nas três vezes que os Lakers de Kobe venceram os Nuggets de Karl nos playoffs.

Chris Paul, outro contemporâneo de Kobe, tem o mesmo espírito competitivo e fez valer a pena a chance que teve de homenagear o amigo no All-Star de domingo. Foram sete bolas de três e 23 pontos para CP3, que foi agressivo na defesa como costuma fazer nos jogos mais importantes da temporada. Sua liderança ajudou a liderar a virada do Time LeBron no último quarto.

"Para nós, ainda é surreal", disse Paul. "A melhor forma de homenagear Kobe, Gigi e todos os envolvidos era jogando como jogamos."

O nível de comprometimento neste All-Star foi alto o bastante para entregar o MVP para vários jogadores. Antetokounmpo fez 25 pontos, LeBron marcou 23, e Embiid terminou com 22. Qualquer um deles poderia ter terminado com o troféu que leva o nome de Kobe.

Mas, desta vez, foi diferente, com o luto que toma conta da liga.

"Fazer algo de diferente seria não ser civilizado", disse LeBron. "É um momento lindo, um dia lindo, e a presença dele foi sentida aqui em Chicago. Então, vamos aproveitar."