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NBA: Audiência gigante, trabalho de base e paraíso das estrelas: a Liga é aclamada na China, mas quem será o próximo Yao Ming?

David Stern parecia um turista americano perdido parado do lado de fora do escritório da Televisão Central Chinesa em Pequim por horas em 1989. Três anos antes do Dream Team fazer o mundo se apaixonar pelo basquete, o então comissário da NBA na verdade ajudou a acender a faísca que fez com que a China também se apaixonasse pelo esporte.

Confira no WatchESPN mais sobre a NBA na China.

"Eu estava acompanhando o que estava acontecendo na indústria da mídia, principalmente filmes que estavam entrando na China", disse Stern recentemente à ESPN. "E então, no final dos anos 80, eu fui para Pequim. Há uma história que eles contam sobre o chefe de esportes da China ter me deixado esperando. Eu disse: 'Vou esperar no lobby até que ele nos aceite'. "E ele veio nos conhecer, e concordamos em dar a ele fitas de jogos da NBA, venderíamos o tempo [de publicidade] e compartilharíamos a receita [com a CCTV, a emissora de televisão nacional da China]. E foi aí que a NBA ficou conhecida na China.

"Os torcedores provavelmente gostam do fato de que eu tive que esperar no salão da CCTV. Eu poderia dizer que estava tremendo de frio, mas era verão. ... Era um mercado bom demais para desistir." A NBA ainda não era aquilo que é agora.

Não há dúvida de que a NBA foi de inverno frio para verão quente na China.

O crescimento do basquete na China

O basquete cresceu tanto na China que, 30 anos depois, o país sediou a Copa do Mundo da FIBA ​​2019, um torneio que viu a sequência de 59 jogos sem perder dos EUA cair por terra, em uma derrota por 89 a 79 para a França.

Hoje, a China possui muitas arenas incríveis que podem receber jogos de basquete. Para a Copa do Mundo da FIBA, oito cidades organizaram jogos, incluindo Xangai, Pequim, Guangzhou e Shenzhen. Os milhões de fãs da NBA estão assistindo jogos em seus telefones. Cerca de 18 milhões de fãs acompanham, simultaneamente, Adrian Wojnarowski, da ESPN, para informações sobre trocas e outras notícias. No final de julho, a Tencent e a NBA anunciaram uma extensão de cinco anos de sua parceria até a temporada 2024-25, por cerca de R$ 6,2 bilhões.

"Fortalecidos por nossas capacidades tecnológicas, plataformas interativas e conhecimento de conteúdo, trabalharemos em estreita colaboração com a NBA para envolver ainda mais os fãs na China com emoção esportiva e inovações tecnológicas para elevar a paixão pelo basquete e promover um estilo de vida saudável e ativo", disse Martin Lau, presidente da Tencent.

De fato, nos anos de Stern, os fãs de basquete da China se apaixonaram por Magic Johnson, Larry Bird, Michael Jordan, Allen Iverson, Kobe Bryant, Stephen Curry, LeBron James, Kevin Durant, Kyrie Irving e Klay Thompson. Os fãs da Associação Chinesa de Basquete pagaram a entrada para ver Stephon Marbury e Jimmer Fredette em sua liga nacional. Os jogos da pré-temporada da NBA são disputados na China desde 2004. O programa Jr. da NBA foi lançado em 2015 para a juventude do país. E, mais notavelmente, os fãs chineses viram um deles, Yao Ming, se tornar uma estrela do Houston Rockets e, eventualmente, entrar no Hall da Fama da do esporte.

"Nosso objetivo a longo prazo é fazer com que mais crianças joguem o jogo, experimentando como é fazer parte de um time, uma família, ter colegas de equipe e abraçar essa cultura e todos os valores em torno deste jogo", disse Adam Silver, atual comissãrio da NBA. "Yao está desempenhando um papel significativo nisso."

Um relatório recente da Tencent (com quem a ESPN tem uma parceria de transmissão) afirmou que quase 500 milhões de fãs estão consumindo conteúdo da NBA na China.

"A NBA se tornou a liga mais popular na China", disse Shuangfu Li, co-fundador da Lanxiong Sports, que cobre a NBA na China.

"A NBA fez duas coisas certas. Uma era continuar comercializando as jovens estrelas, de Kobe a LeBron, de Curry a Kyrie, os novos produtos nunca pararam de aparecer. Segundo, em parceria com o Ministério da Educação da China e investindo pesado em programas para crianças e jovens como a NBA Jr., a NBA tem uma base de fãs sólida e crescente. O fuso de 12 horas oferece à NBA um intervalo de tempo perfeito para interagir com jovens fãs e eles têm usado isso e se beneficiado o tempo todo."

"[Stern] foi a primeira pessoa a utilizar diferentes plataformas de mídia para construir um relacionamento com os fãs, e ele fez isso perfeitamente", disse o analista da Tencent e ex-técnico da seleção chinesa Zhang Weiping. "Outra coisa foi o esforço da NBA em ajudar a melhorar o basquete chinês como um todo, incluindo o envio de treinadores da NBA para a China para realizar sessões de treinamento.

O efeito Yao Ming

Nenhuma estrela ou treinador da NBA, no entanto, colaborou para o crescimento da NBA na China mais do que a chegada de Yao Ming.

Yao era uma estrela ainda como adolescente no Shanghai Sharks com média de 38,9 pontos e 20,2 rebotes por jogo durante a temporada 2000-01. O fenômeno de 2,28m fez com que executivos, olheiros e treinadores da NBA babassem quando ele treinou em Chicago antes do draft da NBA em 2002. Os Rockets instantaneamente se tornaram o time favorito da China quando selecionaram Yao com a primeira escolha do draft.

Yao foi o primeiro jogador asiático a ser o número 1 geral, mas seu caminho para os EUA não foi fácil, como lembrou Stern.

"A China não permitiria que ele saísse do país para jogar na NBA", disse Stern. "Lembro-me de me encontrar com o presidente do Shanghai Sharks. E todos estavam tentando receber um pagamento da NBA para permitir que Yao aparecesse. Eu disse: 'Não estamos pagando nada. Se ele quiser vir, ele é bem-vindo. E se não o fizer, tudo bem também.

"Mas, finalmente, eles anunciaram que ele poderia comparecer. Foi um momento bastante emocionante, porque ele se tornou uma ponte [para a China]".

No entanto, no seu primeiro ano, Yao recebeu muito ceticismo da mídia americana que não conhecia seu jogo e não achou que pudesse se adaptar ao atletismo e velocidade da NBA. O gigantesco pivô dos Rockets, na verdade, não pontuou na sua estreia e teve médias de quatro pontos nos seus primeiros sete jogos. Mas Yao finalmente se estabeleceu e foi votado para o NBA All-Star Game de 2003 como titular. Como segundo colocado no prêmio de calouro do ano, Yao teve uma média de 13,5 pontos e 8,2 rebotes por jogo.

Enquanto isso, na China, seus fãs assistiam a todos os jogos com orgulho e se apaixonavam ainda mais pela NBA. Stern disse que os jogos de Yao foram exibidos na CCTV, na Shanghai TV, no Shanghai Media Group e em outros canais.

E o ex-técnico dos Rockets, Jeff Van Gundy, passou a amá-lo dentro e fora da quadra.

"O legado de Yao vai muito além do que ele fez na quadra", disse Van Gundy. "Vindo da China para abrir seu país ... com certeza havia outros jogadores chineses, mas não com a magnitude de Yao. E a humildade e graça com que ele lidou não existiam. Seu senso de humor com colegas de equipe, treinadores e adversários eram únicos.

"O que realmente definiu Yao foi que ele estava genuinamente tão feliz pelo sucesso de seus companheiros de equipe quanto pelo seu próprio. Ele se importava apenas com seus companheiros de equipe e os resultados do jogo. Tinha a confiança de um grande jogador, mas ele era realmente a estrela mais altruísta com quem eu já lidei. Ele era especial."

Yao obteve uma média de 19 pontos, 9,2 rebotes e 1,9 bloqueios durante uma carreira de nove anos na NBA, exclusivamente em Houston. O All-Star oito vezes foi o único jogador internacional a liderar as votações no All-Star. Os fãs de basquete sempre se perguntam o quão bom Yao poderia ter sido se ele não tivesse sido atormentado por lesões nos pés que o limitaram a 486 jogos em apenas oito temporadas.

Mas o Hall da fama do basquete mostrou seu respeito ao admiti-lo em suas portas, no entanto. O Rockets também retirou sua camisa número 11. Van Gundy disse que o único pivô mais dominante que Yao durante sua época era Shaquille O'Neal.

"Aos 2,28m, ele conseguiu marcar com as duas mãos no garrafão ", disse Van Gundy. "Ele podia passar. Ele podia fazer lances livres e era um grande jogador fazendo bloqueios. Então, você pega todas essas coisas e ele era impossível de lidar. Somente porque seu corpo cedeu, ele não venceu campeonatos que estavam em andamento, seu futuro e seus números teriam sido ainda melhores ".

Quem será o próximo Yao Ming?

Hoje, a grande questão nos círculos chineses de basquete é quem será o próximo Yao?

Os ex-grandes nomes da NBA, Wang Zhizhi e Mengke Bateer, da Mongólia, não eram talentosos o suficiente para se tornarem algo próximo do que Yao era. Yi Jianlian foi talvez o jogador mais habilidoso e atlético da China para entrar na NBA, mas não chegou perto de alcançar seu potencial. Também houve outros jogadores chineses que tomaram xícaras de café na NBA, mas não fizeram barulho.

Van Gundy disse que os chineses precisam desenvolver mais jogadores de armação e perímetro para conseguir outro jogador notável na NBA.

Atualmente, não parece haver nenhuma estrela chinesa no horizonte. Com Yao liderando o caminho como presidente da CBA e chefe da equipe nacional chinesa, talvez isso mude. A equipe nacional chinesa até competiu na liga de verão da NBA de 2019. Portanto, embora o próximo Yao possa não estar no futuro próximo, sua ausência não diminuiu o amor da China pela NBA.

"Para desenvolver o próximo Yao Ming, acho que a China precisa se concentrar nos fundamentos, continuar desenvolvendo o treinamento para jovens e seus próprios treinadores", disse Zhang Weiping. "O basquete chinês deve continuar aprendendo com o mundo exterior em todos os níveis. Enquanto isso, ele deve apresentar métodos adequados aos seus próprios atletas".

Silver acrescentou: "Me frustra o fato de não haver jogadores chineses na NBA. Provavelmente há mais basquete sendo jogado na China do que em qualquer outro lugar do mundo. E mais basquete da NBA está sendo assistido na China do que em qualquer outro lugar do mundo também".

Além disso, a China continua sendo um paraíso para ex-estrelas da NBA. Marbury ganhou três títulos da CBA em Pequim e tem uma estátua na capital. LeBron e Curry organizam viagens anuais para a China, assim como Kobe Bryant. Existem até escritórios da NBA em Xangai, Pequim e Hong Kong.

A NBA também continua trabalhando com Yao na construção de centros de treinamento na China. Segundo estimativas da NBA, quase 300 milhões de fãs jogam basquete na China.