<
>

James Harden deveria ter tornado os 76ers imparáveis; em vez disso, foi ele que virou um problema

Contratado para ser a peça-chave na engrenagem do Philadelphia 76ers, James Harden teve atuação apagada nos playoffs e amargou nova eliminação na carreira


No início de março, no palco do Hynes Convention Center, em Boston, para o início da MIT Sloan Sports Analytics Conference, Daryl Morey, o presidente de operações do Philadelphia 76ers, usava blazer azul sobre uma camisa vermelha que continha o rosto de James Harden em seu famoso meme da internet.

“Tive a sorte de me reencontrar com meu Jesus do basquete”.

Ao longo da carreira como executivo, Daryl Morey passou a ser definido por duas coisas: ter ajudado a popularizar as análises em toda a NBA e sua parceria de oito anos com Harden e o Houston Rockets.

Um mês antes, o dirigente havia completado sua odisseia de um ano para voltar a trabalhar com seu pupilo, uma jornada que Morey coroou com uma foto ao lado de um jato particular, ainda na pista, na chegada de Harden.

A legenda: o emoji de um troféu.

“Essa missão que nos foi dada é a razão pela qual todos estão aqui”, disse Morey na entrevista coletiva de apresentação de Harden, alguns dias depois. “[O gerente geral Elton Brand está] aqui para ganhar títulos. [O técnico Doc Rivers] está aqui para ganhar títulos”.

“É um trabalho ainda inacabado para todos nós. Sabíamos que desde o momento em que Ben [Simmons] pediu para ser trocado, isso teria que ser por [um jogador] que que nos permitisse competir em alto nível”.

“Do jeito que esta liga funciona, temos que conseguir jogadores do calibre de James Harden para estar ao lado de Joel Embiid e Tobias Harris. Você não pode vencer sem isso”.

O pensamento de Morey também era uma suposição: que Harden ainda estava em seu mesmo nível de MVP nos tempos em que estiveram juntos em Houston.

Mas está claro que a 'versão MVP' de Harden ficou no passado.

Harden não apareceu no maior jogo da temporada do Philadelphia. Com tudo em aberto para o jogo 6 da semifinal da Conferência Leste contra o Miami Heat, Harden não foi o protagonista de antes e terminou com 11 pontos, 9 assistências e 4 turnovers. Com direito até mesmo às vaias da torcida que lotou o Wells Fargo Center.

Miami acabou fechou a pós-temporada dos 76ers com uma vitória por 99 a 90, fazendo com que a franquia da Filadélfia se despedisse na segunda rodada dos playoffs pela quarta vez em cinco temporadas.

Agora, o Philadelphia 76ers entra em outra offseason cheia de incertezas e com uma dúvida enorme (e potencialmente cara) para responder: existe futuro para Harden e os 76ers?

A parceria Harden e Embiid deve fazer sentido

Harden passou a última década sendo único nas ações ofensivas dentro da elite da NBA. Da temporada 2013-14 até a 2019-20, ele registrou quase 8 mil jogadas individuais, quase 2 mil a mais do que qualquer outro jogador durante esse período.

Harden teve média de 1,1 pontos nessas ações, maior eficiência de toda a liga. Ele fez 734 arremessos de 3 pontos durante no período, mais de 500 a mais do que qualquer outro atleta.

O plano era juntar Harden a Embiid. Sem dúvida criaria uma enorme força ofensiva.

O retorno foi bom no início. Harden acumulou pelo menos 25 pontos em ao menos 50% de arremessos em cada um de seus primeiros quatro jogos como 76er, vencendo todos.

Depois de bater os Knicks no segundo jogo da dupla, quando Harden e Embiid se combinaram para 37 lances livres, o pivô fez um prognostico: "Imparável".

Essas primeiras performances se provaram ser atípicas. Nos últimos 29 jogos de Harden nesta temporada, incluindo os 12 de pós-temporada, conseguiu repetir esses números mais quatro vezes. Em apernas um deles (contra o Milwaukee Bucks, em 29 de março), cravou duas marcas na mesma noite.

A parte subestimada de Harden foi sua explosão, uma combinação que lhe permitiu chegar à cesta à vontade e transformar seu step back em um dos mais indefensáveis da história da NBA.

Mas lesões recorrentes nas últimas duas temporadas acabaram com essa explosão. Em 2019-20, Harden passou por seu marcador em 44,1% das tentativas. Esse percentual caiu para 30,3% na temporada passada e para 29,1% na atual.

A eficiência ofensiva de Harden despencou.

Sua porcentagem efetiva de arremessos caiu abaixo de 50% pela primeira vez desde seu ano de estreia. Entre 71 jogadores que tentaram pelo menos 300 bandejas e enterradas nesta temporada, apenas dois (Harden e RJ Barrett, dos Knicks) acertaram menos de 50%.

Essas questões vieram à tona nos playoffs. Contra duas defesas intensas, Toronto Raptors e Miami Heat, Harden teve performances de brilho ocasional.

Harden acertou 44,2% na zona do garrafão nesta pós-temporada, seu número mais baixo em todos os playoffs em que jogou. Ele fez 32 pontos de quadra e cometeu 29 turnovers contra Miami.

A marca de 0,88 pontos por ação contra o Heat foi seu número mais baixo desde 2014.

Harden marcou mais de 30 pontos uma vez na pós-temporada - na vitória em casa do jogo 4 da Filadélfia sobre Miami - e lutou consistentemente para terminar por dentro. Seus 40,4% de arremessos gerais e 43,8% de arremessos de 2 pontos foram suas notas mais baixas na pós-temporada em oito anos. E ele registrou a maior taxa de rotatividade de sua carreira, tendo uma taxa de uso muito menor do que em qualquer uma de suas prolíficas temporadas em Houston.

O técnico Doc Rivers e os companheiros de Harden tentaram repetidamente reajustar as expectativas à medida que os playoffs continuavam. Harden ainda é um jogador de elite e o único armador 'puro' do elenco.

Quando Philadelphia jogou bem ofensivamente nesses playoffs, Harden foi uma força motriz. Quando ele está na quadra, o ataque dos 76ers chega a 114,7 pontos por 100 posses, o que ficaria confortavelmente entre os cinco primeiros da liga durante a temporada regular.

Quando ele vai para o banco, o desempenho ofensivo cai para 101,5, o que seria facilmente o menor da NBA.

O raciocínio por trás da negociação de Harden, no entanto, era exatamente isso.

Os playoffs de Harden mostram o quão complicado será seu período de potencial free agency, e para todos os lados envolvidos.

A troca por Harden

Morey e os 76ers esperavam que a temporada terminasse de uma maneira diferente do que a passada. Ao contrário disso, acabou chegando o mesmo resultado (apenas com problemas diferentes ao longo do caminho).

A última pós-temporada os 76ers terminou com seu armador All-Star errando um lance chave nos momentos finais do jogo 7 das semifinais da Conferência Leste, em casa contra um time de menor classificação.

A atual pós-temporada terminou com seu armador All-Star acertando 4 de 9 chutes e caindo no jogo 6, novamente dentro de casa, para um Miami sem Kyle Lowry pela quarta vez em seis jogos da série.

Existem circunstâncias atenuantes, principalmente as lesões de Embiid. Mas essa queda, no entanto, é sobre Harden. Ele era, pela própria previsão de Morey, a peça final do quebra-cabeça, a jogada que tinha que funcionar.

Agora os 76ers correm o risco novamente. Por quê? Por causa da situação incerta do contrato de Harden.

Quando a troca de Harden-Simmons foi concluída, esperava-se que Harden optasse pelo último ano de seu contrato garantido, dando à franquia algum nível de proteção.

Harden, no entanto, não o fez.

Ele começou a temporada esperando conseguir um novo contrato máximo. Nos últimos anos, armadores veteranos, como Lowry, Chris Paul e Mike Conley, estenderam para algo entre 25 e 30 milhões de dólares por temporada (abaixo da opção de Harden, prevista para 47 milhões) e muito aquém dos 270 milhões de dólares que ele pode tentar buscar em um novo contrato de cinco temporadas caso decida ser um agente livre.

E enquanto Chris Paul passa por outra temporada brilhante pelo Phoenix aos 37 anos, Harden é visto pelos executivos como mais adequado para ser comparado a atletas veteranos do que a jogadores dignos de contratos máximos.

Harden ainda pode tentar encontrar essa quantia em outro lugar, mas existem poucas opções, já que a maioria das equipes está se reconstruindo sem o uso de um armador que fará 33 anos em agosto e terá um contrato caro.

A carreira de Harden está repleta de decepções em pós-temporada. Ele desapareceu no jogo 6 nas semifinais da Conferência Oeste, em 2017, fazendo 2 de 11 quando os Rockets foram derrotados pelo San Antonio Spurs.

Harden e os Rockets erraram 27 arremessos de 3 pontos consecutivos no jogo 7 contra Golden State Warriors, nas finais do Oeste de 2018, e depois ainda foram eliminados contra um time dos Warriors já sem lesões na temporada seguinte.

Harden entrou em confronto com vários companheiros de equipe, de Dwight Howard a Chris Paul, passando por Russell Westbrook, Kevin Durant e Kyrie Irving. Sua chegada à Filadélfia foi uma chance de mudar a história. E para uma cidade que se cansou da saga Simmons, simplesmente poder ter Harden na quadra foi o suficiente para lhe render muita boa vontade.

Mas então veio outro playoff fracassado, que culminou com o desaparecimento de Harden em um jogo de eliminação.

O problema, tanto para Harden quanto para os 76ers, é que seu melhor agora já não é o que costumava ser.

Apenas três meses depois de terem se juntado no que parecia ser uma união perfeita e de longo prazo, o futuro para ambos os lados não poderia ser mais sombrio.