<
>

UFC 261: Como Jéssica Andrade sonhou em ser Marta, quase jogou no São Paulo e se tornou 'Bate-Estaca' na roça

play
Jéssica 'Bate Estaca' conta sentimento de ter cinturão e brinca: 'Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades' (0:48)

Brasileira mostrou toda sua vontade em voltar ao topo do UFC (0:48)

Jéssica "Bate-Estaca" Andrade tem a chance de fazer história neste sábado, no UFC 261. Se vencer Valentina Schevchenko na disputa do cinturão do peso mosca, ela igualará o feito de Amanda Nunes, a única mulher a conquistar títulos em categorias diferentes no Ultimate.

Tal feito era literalmente inimaginável na cabeça da própria Jéssica há pouco mais de 10 anos, quando a paranaense sequer havia feito alguma aula de arte marcial.

*Conteúdo patrocinado por Sportingbet

"Na verdade, eu nunca imaginei que fosse me tornar lutadora e que ia chegar tão longe na minha vida. Achava que iria me tornar jogadora de futebol e que talvez iria conquistar alguma coisa na minha vida, mas o caminho mudou 'da água para o vinho'. Acho que eu tenho essa grande sorte de quando eu entro em alguma coisa, e dou o meu melhor, eu consigo alcançar meus objetivos. Mas quando eu era criança eu não imaginava que eu iria chegar tão longe", disse Bate-Estaca, de 29 anos, à ESPN.

"Eu falava pra minha mãe 'um dia você vai me ver na televisão, vou fazer participação especial na Malhação', inclusive está reprisando a Malhação que eu participei. Eu falava pra ela assim: 'Eu vou ser a melhor do mundo, igual à Marta, a senhora vai ver, mãe. Eu vou trazer um monte de títulos aqui pra casa'. Mas nunca imaginei que eu ia estar no mundo da luta e ia ter realmente essa oportunidade de ter vários títulos na minha vida, e está aí mais uma chance de trazer esse título de volta para o Brasil e para a minha vida", completou.

"Quem sabe eu consiga fazer muito mais história, ganhar esse título e quem sabe de outras categorias, aí como a gente já tem a Amanda, que é campeã de duas. Quem sabe eu consiga fazer isso também".

Tendo Marta como exemplo, Jéssica Andrade na infância queria ser jogadora de futebol. E ela chegou até a ganhar campeonatos jogando no Paraná.

Já na adolescência, uma proposta para defender o time feminino do São Paulo surgiu, mas Jéssica não foi.

"Quando eu tive oportunidade de jogar futebol de campo, que aí o pessoal do São Paulo queria me contratar, minha mãe não deixou pois eu era menor de idade, estava com 16 para 17 anos, e minha mãe não deixou. Então eu falei 'poxa, vou ter que continuar só no futsal', e aí eu fiquei só jogando futsal, mas ganhei muitos campeonatos. Campeonatos menores, mas de futsal, e fiquei nisso".

Até que um dia ela resolveu, já maior de idade, tentar as artes marciais.

"Comecei a lutar entre 18 e 19 anos. Teve um projeto social na minha escola em 2010, mas foi só uma aula de Judô e o professor me perguntou se eu já lutava, nem era o mestre Paraná, era outro, e respondi que não, não lutava nada, eu brincava com meu irmão dentro de casa, de dar queda um no outro, fazer o outro bater e dizer que chega. Então ele me disse que eu levava jeito e me convidou para treinar Jiu-jitsu, e em 2011 eu comecei a treinar Jiu-jitsu", relembra Jéssica.

play
1:30

Ex-campeã do UFC, 'Bate Estaca' conta a volta que sua vida deu: 'Eu não achava que ia ser lutadora; queria ser como a Marta'

Jéssica ainda falou sobre tentar conquistar dois cinturões do Ultimate

"Eu já estava com 19, entrando na casa dos 20 anos. Eu era muito 'inteligente' na escola, reprovei duas vezes. Não queria sair da escola, era a única diversão que eu tinha. Criança de sítio é difícil. Não queria ficar no sítio porque se não teria que ir trabalhar na roça. Minha diversão era ir para a escola. E deu super certo, comecei a treinar em 2011 e em 2013 o UFC abriu a categoria dos pesos-galos e eu já estava lá dentro do UFC. Fiquei muito feliz".

A infância na roça e a 'origem' do Bate-Estaca

Criada na roça no Paraná, Jéssica Andrade ajudava os pais nas tarefas afropecuárias. E para quem passou a infância carregando sacos de batata e feijão nas costas, pegar uma adversária de 56kg nos ombros e arremessar com tudo no chão é moleza.

O movimento que deu a Jéssica seu apelido de Bate-Estaca é exercitado desde a infância da lutadora.

play
1:54

Jéssica 'Bate Estaca' conta em detalhes como vida na roça a fez ficar forte: ´Faço a queda do saco de batatas'

Ex-campeã do Ultimate falou em exclusividade com a ESPN Brasil

"Desde criança a gente sempre trabalhou na roça, eu e meus irmãos. Minha irmã mais nova que não pegou isso, a caçulinha, que já está morando na cidade. Mas eu e meu irmão pegamos muito isso, de ir para a roça com a mãe, de trabalhar, ela deixar a gente em baixo da árvore quando éramos muito novinhos. Ficarmos lá enquanto ela colhia algodão e mandioca. A infância inteira foi na raça, no sítio, com meu pai plantando milho, soja, feijão, e nós que o ajudávamos a colher. Foi bom pra mim porque foi daí que veio essa força toda, essa garra, essa vontade de crescer e de ser alguém", conta Jéssica.

"Ficou fácil (fazer o Bate-Estaca). O trator passava, tínhamos que encher os balaios de feijão dentro da trilhadora, e quem ficava na parte de retirar os sacos que estavam enchendo sempre era eu. Eu tinha que trocar a manivela do saco que estava enchendo, fechar ele, tirar ele da máquina e deixar para juntarmos os sacos depois. Então essa força para puxar, recolher os sacos, isso me ajudou a ter essa força. Inclusive, quando eu faço as quedas, a gente costuma a falar que é a 'queda do saco de batatas'. Foi essa rotina que me deu essa força nos braços e nos ombros para tirar minha adversária do chão, girar ela e jogar no chão", relembrou.

"Eu chegava da escola 12h mais ou menos, almoçava e já ia para a roça. Quando dava umas 18h ou 19h voltávamos com eles. Mas dia de sábado e domingo, que era o dia de colheita, ficávamos o dia todo. Minha mãe levava o que iríamos comer ao longo do dia e fazíamos tudo por lá mesmo".

A 'treta' com Amanda Nunes

Jéssica Bate-Estaca pode igualar Amanda Nunes como únicas na história a ter cinturão em duas categorias diferentes na história do UFC feminino. Porém, há cerca de 3 anos, as duas tiveram um entrevero que a própria Jéssica admitiu estar errada.

play
2:30

Jéssica 'Bate Estaca' explica sua relação com Amanda Nunes e considera fazer 'superluta' entre brasileiras

Ex-campeã do Ultimate falou em exclusividade com a ESPN Brasil

"Foi resolvido. Eu criei muito uma expectativa por uma amizade com a Amanda, e quando fui lutar com a Tecia (Torres), claro que não tinha comparação, elas são amigas há muito tempo e eu tinha acabado de começar a ter um vínculo com a Amanda. Foi resolvido. Sentamos, conversamos e entendi que a Tecia era muito mais amiga dela do que ela é minha amiga e está tudo bem", explicou.

"Me inspiro muito nela, me orgulho de ver a brasileira que ela se tornou, principalmente agora que ela é mãe. Isso é mais uma inspiração para mim pois também quero ter filhos no futuro. Tudo é questão de conversar. Foi uma coisa boba. Fiquei com “ciúme” de algo que eu tinha nada a ver ficar. Está tudo tranquilo", completou.

Jéssica até cogitou a possibilidade de enfrentar Amanda no futuro.

"Não acho que ela desceria, seria muito difícil. Mas eu tenho vontade de fazer uma “super luta”. Por mais que lá as mulheres sejam maiores e mais forte, não mudar de categoria de vez, mas uma luta por cinturão seria bem legal. Falo muito com meu mestre sobre a possibilidade de ser campeã em três categorias. Pode acontecer. Eu tenho vontade, muita garra e determinação pra fazer acontecer e dar certo. O foco é claro é vencer a Valentina, quem sabe uma revanche. Se não houver revanche, gostaria de tentar uma revanche com a Campeã do 52kg, e do 52kg queria pular para o 61kg".

O aspecto financeiro do UFC

"Eu acho que a mulher não reclama tanto porque demorou muitos anos pra gente conseguir isso que a gente conseguiu no UFC, de ganhar da mesma forma que os homens. Claro que eu não vou ganhar a mesma coisa que o Jon Jones porque minhas lutas não são iguais as dele. Mas eu ganho de acordo com as minhas vitórias, meu desempenho e minha melhoria dentro da organização. Isso é importante porque faz com que as mulheres queiram melhorar e crescer cada vez mais para ganhar mais dinheiro, e isso a gente faz muito bem".

"Acho que não tem tanta essa reclamação porque a gente batalha todos os dias pra ter o que a gente tem hoje. Pra que vamos pedir algo exorbitante, acima da nossa média? Acho que a mulher é muito realista, sabe seu valor. 'Eu mereço ganhar tanto', ela pede e o UFC faz. Comigo é isso que acontece, eu digo quanto eu quero para lutar e o UFC me paga. É onde eu vejo que eu tenho o valor que eu preciso, porque tudo que eu peço eles me dão. Quando eu fui lutar com a Weili Zhang na China, eu pedi para colocarem mais alguém da minha equipe no UFC, e ai contrataram a Karol Rosa. Tudo que eu peço, eu acredito que eu consigo dentro da organização, e porque eu não peço além do que eu preciso. Isso é algo que o UFC observa bastante e que as mulheres também conseguem perceber que somos ouvidas aqui dentro".