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UFC 253: Anderson Silva e outros rivais contam como é enfrentar Adesanya: 'Como estar dentro de um filme'

Rob Wilkinson estava com sede. Ele estava com fome. Com a garganta seca, o lutador do UFC mal conseguia falar.

O plano de Wilkinson era estar mais pesado - cerca de dois quilos a mais que o normal - para que ele pudesse vencer o estreante Israel Adesanya. Mas Wilkinson não contava com as regras do UFC 221 em Perth, na Austrália.

Ao contrário do procedimento padrão nos Estados Unidos, onde os lutadores têm mais de 30 horas para se recuperar da pesagem para a luta, a comissão atlética da Austrália permite apenas 24 horas ou menos. Os atletas do card, que estava marcado para 11 de fevereiro de 2018, receberam um e-mail sobre isso cerca de três semanas antes da chegada.

Wilkinson ficou preocupado quando recebeu o e-mail. Essa sensação se intensificou durante o corte de peso. E então ele encontrou com Adesanya antes de pesar. Adesanya deu uma olhada para ele e maliciosamente disse o que estava incomodando Wilkinson: tem certeza de que será capaz de se recuperar em apenas 20 horas?

"Izzy disse isso para mim quando estávamos subindo na balança, que tínhamos menos tempo do que o normal", disse o lutador à ESPN. "Você pode ver como eu fiquei abatido. Ele estava falando alto comigo”.

Adesanya sabia o que estava acontecendo. Ele viu a estratégia de Wilkinson - e seus erros - vindo a quilômetros de distância.

Adesanya nocauteou Wilkinson no segundo round daquela luta, iniciando uma sequência de oito vitórias consecutivas no UFC. Neste sábado, ele tentará vencer a nona e, de quebra, defender o título dos médios do UFC contra Paulo Borrachinha na luta principal do UFC 253, em Abu Dhabi.

O plano de jogo de Wilkinson era óbvio. Ele queria esmagar o kickboxer contra a grade, derrubá-lo e cansá-lo. Nada disso funcionou.

"Meu plano era segurá-lo", disse Wilkinson. "Eu estava indo sem parar para a queda, eu estava pressionando ele. Eu estava na luta".

Adesanya pegou Wilkinson com uma joelhada e finalizou com socos. No segundo round, Wilkinson estava exausto - "Eu senti como se meus braços fossem feitos de cimento" - por causa do corte de peso. Adesanya conhecia as vulnerabilidades de Wilkinson antes mesmo de a luta começar.

"Ele estava certo", disse Wilkinson. "Era algo que me preocupava um pouco”.

A ESPN perguntou a sete dos oponentes de Adesanya em todos os esportes de combate o que torna a estrela do UFC diferente dos demais.

Anderson Silva, lutador peso médio do UFC

| Perdeu para Adesanya, que tem sido descrito como a versão mais jovem de Anderson, por decisão unânime no UFC 234, em 10 de fevereiro de 2019 |

Eu consegui mostrar todas as minhas habilidades nas artes marciais dentro do octógono quando lutei contra o Israel. Não parecia que estava contra uma versão mais jovem de mim mesmo. Tenho três versões mais jovens de mim - meus três filhos. Mas o Israel é um lutador incrível. [Algumas das técnicas que fizemos, era] como se eu estivesse dentro de um filme. Éramos os melhores lutadores do mundo. Eu simplesmente aproveitei o momento e coloquei toda minha experiência em artes marciais nessa luta contra o Israel. Foi muito especial para mim.

Eu falei com ele um pouco nos bastidores. Eu disse: "Obrigado por me dar a chance. Aproveite o seu momento. É o seu momento agora. Faça o seu melhor. Não perca o seu foco". Israel é um grande homem. Ele tem uma ótima família. Ele é muito jovem, mas é um bom menino.

Alex Poatan Pereira, campeão dos médios e campeão interino dos meio-pesados do Glory Kickboxing

| Venceu Adesanya por decisão unânime em 2 de abril de 2016, e ele o nocauteou em 4 de março de 2017. Ambas as lutas foram de kickboxing |

A primeira vez que lutei com ele, pensei que não fosse me trazer muitos problemas. Enquanto estava lutando contra ele, percebi que ele era diferente. Ele estava fazendo MMA, e no kickboxing as pessoas olhavam para ele como se ele não fosse um cara muito difícil de lutar. Mas não é nada fácil lutar com ele.

Ele é um lutador muito inteligente. Ele pode se ajustar na luta com frequência. Ele me lembra muito o Anderson Silva, o jeito de lutar - solto e esperto, usando a técnica na hora certa para não gastar muita energia. Adesanya é muito bom em fazer um cara cometer um erro grave e gastar energia desnecessariamente. Ele faz esses ajustes. É mais difícil vencer Adesanya por pontos do que um nocaute. A forma como ele luta torna muito difícil vencê-lo por pontos.

Eu fiz a mesma técnica mais de 30 vezes na segunda luta, uma combinação de gancho de direita e esquerda, e finalmente acertei ele. Na segunda luta, perdi o segundo round contra Adesanya. Eu percebi que estava atrás. Mas então fui capaz de capitalizar com o nocaute. Mas eu estava realmente perdendo a luta antes disso.

Adesanya é um lutador de ponta. Ele é muito inteligente em não ser atingido. Bate, mas não é atingido. Quando as pessoas lutam assim, elas não se comprometem muito. Jon Jones é cara que luta assim, e é muito difícil vencer Jon Jones na decisão. A única maneira é você ir lá e nocauteá-lo, derrubá-lo e conseguir uma finalização. Porque a decisão já é dele. Algumas pessoas têm esse tipo de estilo. Você toma uma decisão e se f***.

Martin Vettori, lutador peso médio do UFC

| Perdeu para Adesanya por decisão dividida no UFC Fight Night: Poirier x Gaethje em 14 de abril de 2018 |

Ele veio para a pesagem e tentou arrancar a camiseta, mas não conseguiu. Ele tentou fazer como Hulk Hogan, mas não conseguiu. Então ele teve que tirar. Foi um show de horrores antes da pesagem. Ele está ciente da guerra mental. Ele está ciente disso, com certeza. Ele sabe que é tudo mental antes de ser físico. Muitas pessoas não gostam, mas ele sabe. Ele vai tentar brincar com você.

Ainda me surpreendia o quanto ele sabia sobre o jogo de trocação e o quão pouco ele conseguiu fazer comigo. Eu assisti àquela luta há pouco tempo. Eu tive a abordagem certa na luta contra o Israel, mas ele sabia muito mais sobre o jogo de trocação. Ele estava muito mais na frente.

Ele podia ler a luta um pouco melhor. Acho que ele estava fintando muito, ele estava tentando me enganar, mas eu não caí nessa. Ele estava tentando armar para mim. Lutar tem muito a ver com criar ritmo para então você poder quebrá-lo; criar padrões para que você possa mudá-los e enganar seu oponente, dizendo que você ainda vai seguir aquele ritmo, mas na verdade mudando. Eu sinto que ele estava fazendo isso e eu nem estava ciente. Mas ele não conseguiu me pegar com nada. Da próxima vez, vou pegá-lo.

Você pensa, ''Ah, ele é um cara magro”. Mas ele é bem equilibrado. Eu cometi um erro nessa luta. Eu quase o derrubei e ele foi capaz de simplesmente ficar de pé de alguma forma. Ele é comprido. Ele é evasivo em geral. Lembro que eu consegui a pegada de um double leg e me preparei para derrubá-lo. Eu pensei, “Ok, preciso de uma fração de segundo, aí vou explodir e derrubá-lo”. Porque eu sabia que a posição era minha. Minhas mãos estavam travadas e ele estava contra a grade – a posição perfeita. Um segundo depois, ele estourou a pegada. Ele simplesmente puxou para cima facilmente. Ele é muito evasivo. Ele não é muito fácil de intimidar também, embora com a estratégia correta você possa pará-lo.

Rob Wilkinson, ex-lutador peso médio do UFC

| Perdeu para Adesanya por nocaute técnico no segundo round no UFC 221, em 11 de fevereiro de 2018 |

Obviamente, ele tem um nível de trocação de elite. Seu senso de distância é muito bom. Treinei algumas vezes com ele depois que lutamos. Ele era bom na defesa de quedas, ele era bom ficar de pé. Mesmo depois de derrubá-lo, ele é muito bom em se levantar. Ele tem sido assim nos treinos também.

Meu plano era segurá-lo. Izzy é um cara grande. Ele tem cerca de 2 metros. Ele tem um longo alcance. Posso ser um dos caras mais pesados com quem ele lutou. Acho que estava pesando 95kg quando estava no octógono com ele. Eu estava tentando derrubá-lo sem parar, estava pressionando ele contra a grade, tentando lutar um pouco de wrestling.

Ele é forte. Sempre fui um peso médio grande. Ele não é só um cara magro. Ele é grande e forte quando você está realmente perto dele. Ele tem pernas grossas e obviamente sabe o que fazer com elas.

Izzy não se cansa. Você viu isso na luta contra o Kelvin Gastelum. No quinto round, ele estava realmente acelerando o ritmo. Foi provavelmente um dos piores cortes de peso que eu já fiz. Indo para o segundo round, eu senti como se meus braços fossem feitos de cimento. Eu estava completamente exausto. Ele estava bem. Fiquei um pouco surpreso no começo do segundo round. Ele veio muito bem, e acho que tentou um chute na minha cabeça, muito rápido, mas eu consegui desviar. Treinando com ele fica evidente por que eles são tão bons fisicamente.

Jason Wilnis, ex-campeão peso médio do Glory Kickboxing

| Derrotou Adesanya em uma luta de kickboxing por decisão unânime em 20 de janeiro de 2017 |

Foi uma luta de cinco rounds e, desde o primeiro minuto, chutei suas pernas. Minha ideia era que ele sentisse nos últimos rounds. Eu continuei chutando-o bem forte, e nos últimos rounds ele parecia que não estava sentindo. Ele ainda estava se movendo como se fosse o primeiro round. Isso foi algo muito único.

Quando eu faço isso com outros caras, eles sentem - vão mostrar que estão feridos. Especialmente em uma luta de cinco rounds. Mas cara, no quarto e no quinto round ele ainda estava se mexendo. Você pode ver que ele era diferente de todos os outros lutadores. Acho que ele tem durabilidade ou estava escondendo - não sei. Com chutes na perna, você consegue esconder. Mas então seu movimento estará mais lento, especialmente quando você chuta e se move. Mas ele não diminuiu o ritmo por um segundo. É algo realmente único.

Ele tem grande alcance. Ele é alto e imprevisível em suas lutas. Às vezes ele está se movendo muito, às vezes ele fica como canhoto. Ele é muito atlético em seus movimentos. Ele é um dos meus exemplos agora de como você pode mudar sua carreira do kickboxing para o MMA e ter sucesso.

Simon Marcus, ex-bicampeão peso médio do Glory Kickboxing

| Venceu Adesanya por decisão dividida no kickboxing em 16 de fevereiro de 2014 |

Foi uma luta de torneio que terminou empatada, então tivemos que ir para o round extra. Eu não tinha me preparado para o torneio tanto quanto poderia. Eu não estava em minhas melhores condições. Depois de três rounds, me lembro de chegar no extra completamente exausto. E eu olhei e o vi acenando para a multidão e cantando com toda essa energia. Eu só me lembro de pensar, ''Esse cara está cheio de energia – ferrou”. Esse foi o momento que mais me lembro daquela luta.

Naquela época, ambos estávamos invictos no kickboxing. Ele vinha de muitas vitórias e estava muito ativo na China. Quando lutei com ele, lembro que era um adversário diferente do que eu estava acostumado a enfrentar na época, em termos de estilo. Lutamos em um ritmo alto. Foi um desafio. Nossa luta foi muito apertada. Eu acabei vencendo, mas foi uma luta muito acirrada e foi para o round extra. Naquele ponto da minha carreira eu estava invicto e esse foi provavelmente o maior desafio até aquele momento.

Adesanya estava no jogo o tempo todo, até no round extra. Ele é muito durável. Ele é um cara focado. Você pode ver que ele incorpora a mentalidade das artes marciais. Ele vai lá e usa seu estilo, sua mente e seu jeito de lutar para realmente dificultar as coisas para você. Eu não diria que ele é indestrutível, mas ele estava na luta o tempo todo.

É bom ver um cara como ele, que estava no circuito de kickboxing, e agora está no topo do UFC, dominando no maior palco do mundo. É lindo vê-lo nos representar por aí.

Brian Minto, ex-desafiante ao título cruzador de boxe da WBO

| Perdeu para Adesanya por decisão dividida em uma luta de boxe em 28 de março de 2015 |

Fui roubado contra ele na Nova Zelândia em um torneio, uma luta de três rounds. Eu e Adesanya lutamos na final. Ganhei dois dos três rounds. Eles nos mandaram de volta aos corners e fizeram com que lutássemos mais um round extra – e eu estava exausto.

Ele é um grande atleta. Não tenho nada contra ele. Ele acabaria comigo em uma briga de rua. Esses caras são ótimos artistas marciais e muito durões. Ele é um cara legal, mas às vezes pode te irritar com o jeito de ser. Adesanya não era o melhor boxeador, mas ele tem habilidade atlética. Tecnicamente, ele tinha muitas falhas. Ele provavelmente poderia ter sido ótimo [no boxe] se aprimorasse suas habilidades. Não achei que ele tivesse poder de nocaute com um soco. Eu já lutei com muitos caras que têm bons socos. Foi uma luta interessante. Mas já lutei contra caras muito melhore.

O que mais se destaca é sua arrogância. Isso me deixou louco. Porque sempre fui respeitoso com meus oponentes. Mas ele é um babaca quando se trata de ser um atleta. Eu acho que ele é. Depois que a campainha tocava, ele subia nas cordas e ficava lá. Eu pensava, ''Que babaca. Por que você desperdiçaria energia para fazer algo assim? “. Isso me irritou. Ele foi respeitoso depois, no entanto.