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Com propósito de 'salvar vidas', professor de jiu-jitsu tirou crianças das drogas e hoje abriga 18 dentro da própria casa

O propósito do professor e faixa preta de jiu-jitsu Eduardo Rodrigues é claro: salvar vidas. De um passado envolvido com drogas na infância vem a motivação do professor – e pai – a liderar o projeto Gaditas, que tira crianças das ruas e de um possível mundo de drogas e violência.

Na Zona Sul de Porto Alegre, Eduardo teve a ideia de dar aulas de jiu-jitsu. A princípio, as classes seriam destinadas para crianças de 10 anos, idade que ele teve o primeiro contato com as drogas. Nas escolas e pelos bairros da cidade, ele divulgava a iniciativa e aos poucos, as crianças foram chegando.

Desde 2009, o projeto vem crescendo. Atualmente, os ‘Gaditas’ são mais de 300 crianças, espalhadas em 4 filiais. Mas algo que Eduardo não esperava aconteceu. De professor, Eduardo virou pai. As aulas de jiu-jitsu sempre foram dadas em sua própria casa que, aos poucos, tornou-se abrigo para as crianças.

Casado com Janaína, Eduardo é pai biológico de Ana Carolina e Maria Eduarda. Mas com eles, vivem mais 18 alunos que podem ser chamados de filhos. O fato de trazerem tantas crianças para casa, porém, causou alguns problemas para o casal.

No final de 2018 o conselho tutelar ameaçou fechar o projeto e recolher as crianças. Mesmo com tudo resolvido, para evitar problemas, Eduardo optou por pedir a guarda das crianças e já conseguiu a de quatro delas: João, Dandara, Jonathas e Peterson. Outras nove estão sendo encaminhadas e Eduardo aguarda por uma resposta.

O projeto não tem nenhum fim lucrativo e Eduardo não recebe nenhuma ajuda financeira para manter a casa, que vive de doações incertas e, recentemente, passou por uma reforma. Mas o ‘pai’, que as crianças afirmam sem medo que ‘mudou a vida’, recebe muito mais do que isso para ter motivação: “Eu escutar isso deles, é o meu salário. Não tem dinheiro que pague”, disse em entrevista para a ESPN.

Os filhos de Eduardo

18 crianças moram com Janaína e Eduardo. Lá, casa, comida, roupa lavada e tatame. Elas vão à escola, ajudam com os serviços domésticos e se saem muito bem nos treinos diários.

Entre elas, está Krigor, de 14 anos. Ele conta que passava fome e que a mãe catava latinhas para tentar sustentar a família. Ele chegou no projeto através do irmão, Harold, de 17 anos.

Harold passava com o primo Lucas em frente ao projeto todos os dias, porque eles recolhiam lixo com uma carroça na rua. Eduardo convidou Lucas primeiro para frequentar as aulas. Ele aceitou e, em seguida, foi atrás de Harold, na época com 9 anos, mas a mãe não permitiu.

“Eu ofereci um rancho [cesta básica] para a mãe dele e ela deixou. Ele veio num dia, gostou e ele trouxe o Krigor no outro dia”, contou Eduardo.

A vida passada de Harold era dura. Ele acordava todos os dias às 5h da manhã, montava a carroça, fazia reciclagem até 7h. Em seguida, a mãe o deixava na escola. No final da aula, ele ia almoçar e passava a tarde toda reciclando novamente. Hoje, Harold vive na Europa graças aos esforços do projeto.

“Ele é um pai para mim. Um cara que mudou minha vida”, disse Krigor. Além da vida dele, mudou também a vida de crianças como a de Josiel. “Ele me ajuda todo dia, sempre me ajudou. Bah, ele é o cara”, disse.

Josiel, de 16 anos, morava com os pais, que se separaram e a vida, como ele mesmo definiu, virou ‘um caos’. O pai saiu de casa e se esqueceu do filho. Ele conta que antes, não tinha nem arroz para comer e hoje, se enxerga como um exemplo para a comunidade.

“Agora eu sou um exemplo onde eu morava. Antes era só ‘bah, aquele guri’, agora as pessoas até me cumprimentam”, conta Josiel, sorrindo.

A vida de Dandara, uma das filhas que Eduardo conseguiu adotar, também mudou. “Ele é tudo. Não tem como explicar o que ele é para mim. Porque ele já fez muita coisa”, disse a campeã brasileira de 15 anos.

Antes de chegar ao projeto, a vida de Dandara se resumia a cuidar do irmão, Enzo, enquanto a mãe ficava fora de casa e, por isso, ela conta que não teve infância. “Estou tendo agora [infância]”, disse Dandara, que completou: “estou tendo uma vida bem melhor. Antes não sei se podia chamar de vida”.

De Porto Alegre para o Brasil

Com muito trabalho e treino, os Gaditas foram duas vezes a melhor equipe infantil da Federação Gaúcha de Jiu-Jitsu. O estado ficou pequeno para eles, que passaram a disputar o Campeonato Brasileiro, cada vez em maior quantidade. Desde 2012, Eduardo levava as crianças para São Paulo, onde acontece o torneio, mas em 2018 foi o boom: ele juntou 44 delas para a disputa.

As crianças foram alojadas na filial de São Paulo e na casa do professor William Diana, faixa marrom responsável pela turma paulista. O resultado foi positivo: 2º lugar na categoria infanto-juvenil e 3º lugar no geral (entre 4 e 15 anos).

Mas não era o suficiente para Eduardo, que neste ano, embarcou para São Paulo com 70 crianças, manteve a colocação no infanto-juvenil e, no geral, subiu para a 2ª colocação.

Eduardo conseguiu transformar crianças sem estrutura, em campeões brasileiros, no tatame e na vida.

Do Brasil para o mundo

Os esforços de Eduardo para revelar suas crianças ultrapassaram a barreira nacional. Durante o ano passado, Harold estava treinando incansavelmente para tentar se destacar fora do Brasil. Ele ganhou uma passagem para os Estados Unidos e foi atrás do visto. Resultado: três vezes negado.

“Ele quase desistiu de tudo, passou o ano todo deprimido sem treinar. Ele treinou o ano todo, foi campeão estadual, top ranking, ganhou a passagem e foi negado o visto”, disse Eduardo.

Mas em dezembro de 2018, uma boa notícia. Jorge Santos, um amigo de Eduardo que mora na Irlanda, o encontrou em um seminário do professor André Galvão, líder da Atos Jiu-Jitsu e equipe pela qual o projeto compete.

“Ele foi até o projeto, conheceu e disse que queria dar a oportunidade de um dos meninos irem para lá e era para eu escolher. Eu escolhi o Harold, um guri que estava lá há anos pagando o preço e começamos a trabalhar para ele ir”, contou o professor.

Harold embarcou para a Europa em maio com a ideia de ficar apenas três meses, estudando e treinando, mas acabou ‘criando raízes’, como definiu Eduardo.

Agora, além da ida de Harold, Krigor, de 14 anos, embarca para a Irlanda em novembro ao lado de Eduardo para ir em busca do título Sul Americano kids. “Ele vai ficar duas semanas e, em janeiro, quero mandar o Josiel para ficar uma temporada”, finalizou o professor.