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Multiplicando cifras: por que ex-lutadores olímpicos trocaram sonho de medalha pelo MMA

Poucos exemplos nos esportes modernos incorporam a máxima "sem dor, sem ganho", como uma transição do wrestling olímpico para o MMA.

Jordan Burroughs sabe bem disso. O norte-americano que acabou de ganhar seu terceiro ouro nos Jogos Pan-Americanos na categoria até 74kg no começo deste mês entende o 'apelo' de estar no UFC. Aos 31 anos, com um ouro olímpico, três pan-americanos e quatro campeonatos mundiais, ele se concentrou nas prioridades familiares.

Isso não significa que o MMA não tenha passado pela cabeça de um dos lutadores mais condecorados da história dos EUA.

"É claro que penso nisso", disse Burroughs após conquistar o ouro em Lima 2019. "Os lutadores de MMA ganham muito dinheiro. Mas vejo uma luta no UFC e vejo caras como [o ex-wrestler olímpico e atual lutador de MMA] Ben Askren recebendo uma joelhada no queixo e apagando em segundos ... Eu não sei. Eu tenho uma família. Minha esposa não quer que eu seja chutado na cabeça - e ela é a chefe."

Wrestling de nível olímpico, que forneceu bons lutadores para o MMA, é um estilo pronto para o UFC. Sete dos oito atuais campeões do UFC têm um histórico de wrestling. Existem outros caminhos - Ronda Rousey foi medalhista de prata no judô da Olimpíada de 2008 em Pequim antes de se tornar um nome conhecido no UFC e na WWE. No entanto, são os movimentos e a filosofia do wrestling que melhor se traduzem no MMA.

Ainda assim, como a relevância do wrestling tradicional compete com o fascínio da fama e fortuna do MMA, não é incomum para os que estão no meio cogitar a possibilidade de uma mudança.

Medalhistas como o lutador cubano Yoel Romero e os norte-americanos Matt Lindland e Henry Cejudo são lutadores que responderam ao chamado do octógono do UFC e brilharam - apostando que a promessa de um pagamento melhor seria suficiente para compensar os riscos envolvidos.

"A maior diferença é a fisicalidade do MMA. Eu sinto que você quase precisa querer machucar seu oponente para poder competir", disse o técnico de wrestling do Team USA, Bill Zadick. "Talvez eu tivesse pensado nisso quando era jovem. Quanto mais velho você fica, mais difícil se torna."

O UFC faz sua parte e presta atenção nos rankings de wrestling para estrelas em potencial. Esses lutadores são como uma mina de ouro. Segundo uma fonte do UFC, no entanto, a organização procura por atributos como condição física, capacidade de absorver técnicas de outras disciplinas e experiência em competir nos níveis menores até chegar na Olimpíada.

Do ponto de vista do UFC, a disciplina e a dedicação no wrestling facilitam a compreensão de por que tantos dessa disciplina prosperam no MMA.

Uma trajetória como a de Kyle Snyder, que aos 23 anos já tem títulos da NCAA, mundiais e olímpicos na categoria 97kg, poderia ser atraente para o MMA. Ele venceu o seu primeiro pan-americano agora em Lima, e apesar de se ver no MMA algum dia, ele quer levar a sua carreira no wrestling o mais longe possível.

"Wrestlers são muito duros", disse Snyder. "Temos uma cabeça dura e sabemos como sair de situações difíceis. Daniel Cormier e Henry Cejudo provaram que a transição pode ser feita, porque os lutadores sabem como controlar seus oponentes. Sendo assim, por que não tentar?"

Para Jordan Burroughs, o pensamento de ter seu rosto cheio de pontos e desfigurado já é suficiente para uma resposta: "Não, eu estou bem". Mas o medalhista olímpico de 2012 pode se dar ao luxo das opções. Através do Living Medley Fund da USA Wrestling, Burroughs ganhou cerca de R$ 1 milhão - incluindo R$ 500 mil pelo seu ouro em Londres.

Cejudo, que recebeu cerca de R$ 64 mil por seu ouro olímpico em Pequim, ganhou cerca de R$ 400 mil por sua participação no UFC 227 do ano passado - uma vitória na categoria peso mosca sobre Demetrious Johnson.

"Não culpo ninguém que se junta ao UFC", afirmou Zadick. "Muito pelo contrário, fico feliz quando as pessoas se testam e vão bem. No entanto, temos as melhores regras no wrestling olímpico hoje em dia, e temos grandes jovens talentosos que eu adoraria ver continuar competindo neste esporte. Para que isso aconteça, temos que descobrir um jeito de dar mais suporte econômico, assim os wrestlers serão incentivados a continuar conosco.

Com o UFC alcançando o seu ápice e os EUA experimentando uma queda olímpica constante (nove medalhas em 1992 para três em 2008), o Living the Dream foi criado em 2009 com o objetivo de manter os melhores talentos e premiar os medalhistas de ouro US$ 250 mil, prata com US$ 50 mil e bronze com US$ 25 mil.

Os medalhistas nos campeonatos mundiais também teriam benefícios financeiros, e a NCAA fez exceções para atletas como Snyder, um campeão olímpico de 20 anos que normalmente não seria compensado devido ao status de amador.

"Isso é maior do que apenas lutar", disse Cejudo ao The New York Times em 2009. É maior que os 250 mil. Isso vai mudar tudo. Isso vai revolucionar o esporte".

Cejudo, no entanto, não se beneficiaria do fundo. O lutador americano abandonou os planos de se tornar um palestrante motivacional após o anúncio do fundo e colocou a Olimpíada de 2012 em sua mira. Depois de três anos sem competir, ele nem sequer se classificou para os Jogos de Londres.

Seu caminho o levaria para fazer sua estreia no UFC em 2014, e em junho ele se tornou apenas o quarto lutador a ter títulos simultaneamente em duas categorias de peso - mosca e galo - com uma vitória sobre Marlon Moraes. Além das oportunidades financeiras e de marketing, o MMA oferece mais chances. Tirando os Jogos Olímpicos, onde mais um wrestler pode conquistar a independência financeira?

É por isso que o chamado do UFC é muitas vezes forte demais para os lutadores recusarem - Jordan Burroughs é exceção.

"Deixo este torneio [os Jogos Pan-Americanos] com alguns arranhões. Quando você sai de uma luta de MMA, provavelmente será internado ou sairá em uma cadeira de rodas", disse Burroughs. "Wrestling é mais uma forma de arte. Ainda assim, eu amo MMA. Eu assisto e sou apaixonado pelo esporte. Já pensei que meus companheiros tomaram a decisão correta e que, talvez, eu também devesse tentar".

"Mas a verdade é que eu prefiro lutar wrestling contra alguns caras em vez de trocar socos e chutes."