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'Eu vim para devolver a emoção ao UFC', diz Michel Pereira, o paraense voador

Durou menos de dois minutos, mas valeu quase R$ 200 mil (US$ 50 mil).

Teve saltos, jogo de pernas, caminhadas na grade, "superman punches" e terminou com uma joelhada voadora, seguida de um direto de direita. Nocaute. Tudo em 1m47s de luta.

Enquanto o veterano inglês Danny Roberts caía no chão, o brasileiro Michel Pereira, 25, se apresentava ao mundo. De cima da grade, para concluir com chave de ouro, o paraense voador ainda gritou: "Tucumã!", sua terra natal, distante 589 km da Capital do Estado, Belém.

"Eu ainda estava aquecendo, pegando o clima da luta", disse ao ESPN.com.br o lutador que recebeu o bônus de melhor performance da noite no UFC Fight Night 152 em Rochester, estado de Nova York, no mês de maio.

Para quem está disposto a "devolver a emoção de volta ao UFC", o brasileiro de 25 anos não poderia ter começado melhor. Na pré-luta, com passos de break, ele já tinha levantado a arena. "Eu posso até perder, mas uma luta minha nunca vai ser chata", garante.

Uma rápida pesquisa pelo nome dele na internet trará diversos vídeos que o corroboram. A movimentação dele tem quês do lendário boxeador Sugar Ray Leonard, provocações à la Jon Jones e guardas baixas provocativas ao melhor estilo Spider.

"Quando o Anderson Silva ia lutar, ou Lyoto Machida, você sempre pensava: 'o que será que eles vão fazer?'. Eu cresci vendo isso e quero trazer isso de volta para o MMA", diz.

"Quero ser showman. Hoje, os caras se esquecem disso, esquecem de tentar agradar o público que luta caro para assistir às lutas. Só pensam em ganhar", diz.

"Quando ganhei a luta (contra Roberts), o locutor veio me cumprimentar e disse 'pô, tava todo dormindo até a sua luta'. A minha foi a a quarta ou quinta. Tava chato, o negócio", disse. "Luta minha, ninguém vai vaiar", assegura.

"Eu quero ser aquele cara que faz as pessoas se reunirem quando tem luta, fazer com que amem o MMA novamente."

ESCOLA DA VIDA

Com 22 vitórias, nove derrotas e duas lutas sem resultado, o lutador que tem passagens pelo XFC e Jungle Fight, entre outros, chorou no caminho do vestiário até o octógono, em 18 de maio.

"Era um sonho realizado. Mas meu sonho mesmo vai se realizar no dia em que o Bruce Buffer anunciar o meu nome", revela.

Por trás do desejo de ouvir o locutor mais famoso dos mundo dos esportes de combate dizer seu nome, vem embutido um outro: estar em um card principal de um grande evento da organização, já que Buffer só anuncia as principais lutas dos maiores eventos.

"Meu empresário comentou que luto novam,ente em julho ou agosto. Não sei se em Chicago ou São Paulo", disse. Até o momento, ainda não há confirmação por parte da organização.

A luta e a vitória espetacular de Pereira foram um cala-boca para muita gente, diz o lutador.

"Muitos falavam 'será que vai dar certo?'", conta ele. Até dá para entender. Michel entra nos ringues e sobe nas grades, dá saltos mortais, ginga como capoeirista e faz até passos que parecem ser de de dança.

"Dança, tem mesmo!", conta ele. "Gosto muito de free step, zumba, rebolation, hip hop. Levo muito 'golpe de dança' para as lutas", diz ele. Já Capoeira, ele praticamente não treinou, embora tenha arriscado martelos, rabos de arraia e meias-luas, movimentos típicos da arte marcial afro-brasileira.

"Fiz duas aulas, só, mas admiro muito, quero conhecer mais", afirma.

"Você se constrói aos poucos, e tudo que você passa na vida é o que forma você", diz. "Tenho muita história por trás".

Faixa preta de jiu-jitsu, ele tem também treinamento em caratê, boxe, grappling, muay thai, wrestling, submission e tae-kwon-do. Mas até mais do que isso, Michel Pereira se construiu vivendo.

Aos 12, ele teve de decidir: ou ficava em Tucumã com os primos e o tio Renê Collares, com quem treinava caratê, ou se mudava com a mãe Therezinha Lima para Manaus, no Estado vizinho do Amazonas.

Michel ficou.

De Tucumã para Belém, Rio de Janeiro, Belém de novo, São Paulo, Japão, até chegar a Michigan, no gelado norte dos EUA, onde mora há pouco mais de um mês e treina com a equipe Scorpion Fighting System.

"Já passei fome e dormi em casa sem porta e janela num calor desgraçado", relembra-se. "No Japão, eu treinava às 4h da manhã, num frio danado. Mas era melhor do que os momentos difíceis que passei em São Paulo, por falta de recursos", diz.

Hoje, ele, que tem Anderson Silva como ídolo ("não só como atleta", faz questão de frisar), já pode pelo menos sonhar em enfrentar grandes nomes do esporte.

"(Eu queria enfrentar) o Connor McGregor ou o Israel Adesanya, que são os que dão mais show, atualmente", diz ele.

"Sem dúvida, vou longe. Sei que sou capaz, minha história não foi ganhada, não", afirma.

Se depender da autoconfiança, e da vontade de dar espetáculo, certamente estamos diante de um futuro detentor de cinturão.