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Assassinato do irmão, depressão no Corinthians e recomeço no São Caetano: a história de Rafinha

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Rafinha, do São Caetano, relembra discriminação: 'Ninguém queria dar oportunidade' (2:44)

O jogador Rafinha, ex-Corinthians, contou a sua história ao repórter Vladimir Bianchini (2:44)

Eu sou de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul.

Meus irmãos e eu fomos criados pela minha mãe. Eu falo que meu pai não é meu pai. Acho que a única coisa que não consegui perdoar foi isso. Hoje eu não tenho mais raiva nem de quem matou meu irmão. Mas a pessoa que diz que é meu pai nos batia muito. Às vezes, minha mãe apanhava no nosso lugar por que entrava na frente para nos proteger.

Minha infância foi assim. Minha mãe não deixou faltar comida, mas foi muito sofrimento.

Comecei jogando futebol aos seis anos. Eu só gostava de jogar bola, o dia todo. Eu comecei na escolinha Bela Vista, do professor Zelão, e fui me desenvolvendo. Aos 13, fui para a cidade de Castilho, em São Paulo. Joguei campeonatos regionais e estava bem nisso. Então, o Tupãzinho (ex-Corinthians) me viu e me levou para a base do São Paulo.

Fiquei dois anos lá, até os meus 16, e cheguei a morar no alojamento. Eu joguei com Breno, Aislan, Éverson - goleiro do Santos hoje - e o Denílson, volante.

Eu não tive muitas oportunidades, mas um fato me prejudicou muito: houve a oportunidade de uma viagem para os Emirados Árabes, e só não fui por que na época meu pai era foragido por ter tentado assassinar a minha mãe com uma faca. Eu não pude viajar por que ele precisava assinar o meu passaporte...

Quando o elenco voltou da viagem, já estava fechado, e eu não tive mais espaço. Nesses dois anos, se joguei dois jogos no São Paulo, foi muito.

Fui passar umas férias na minha cidade e sofri um sequestro-relâmpago na frente de casa. Eles perguntaram se eu morava ali e queriam entrar em casa, mas não deixei. Eles tiraram uma arma calibre 12, colocaram na minha cabeça e me mandaram entrar em um carro, que era um Fusca velho.

Fiquei andando pelas ruas da cidade e me levaram para um matagal. Eles começaram a me bater, eu falava que não tinha dinheiro ainda, por que tinha acabado de começar a jogar bola. Mas eles me disseram que só queriam fazer maldade comigo, por que na época eu estava visado por estar no São Paulo. Acho que era um pouco de inveja.

Só por um milagre eu não morri ali. Quando eles engatilharam a arma na minha cabeça para me matar, eu pensei: "Deus, se você existe, me tira daqui". Do nada, um dos caras me soltou, eu saí correndo e me escondi no mato. Os caras começaram a brigar e não me acharam mais. Foram 13 horas com os bandidos. Foi uma das piores sensações que já tive.

Pouco tempo depois, assassinaram meu irmão. Ele morava em Andradina e voltou para a nossa cidade para fazer uma visita. Armaram uma emboscada para ele: o mataram com 13 tiros na frente da casa da mãe do filho dele.

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1:27

'A depressão estragou a minha carreira; só eu sabia o que estava sentindo', conta Rafinha

O jogador Rafinha, ex-Corinthians, contou a sua história ao repórter Vladimir Bianchini

A gente escuta muita coisa, e até hoje não sabemos as razões. Um moleque assumiu a autoria do crime, mas todo mundo sabe que não foi ele. Eu comecei a ter depressão e síndrome do pânico, não queria sair de casa por que tinha medo. Era o meu irmão quem ajudava em casa.

Eu não queria mais jogar futebol e não voltei mais para o São Paulo. Provavelmente seria dispensado por que não jogava, por mais que o Marcos Vizolli - então técnico do sub-20 - gostasse muito de mim.

As coisas apertaram e recebi um convite para jogar pelo Castilho contra o São Bernardo, em 2006. O treinador do time do ABC na época já tinha me visto em Rio Preto, quando eu tinha ido bem em um treino, mas peguei o ônibus e voltei para casa. Ele falou para eu assinar contrato profissional com o São Bernardo. O Carlos Silva, diretor do São Bernardo à época, me convenceu indo até a minha casa em Mato Grosso do Sul, mas eu não queria. Só aceitei por que as coisas estavam difíceis.

Eu fui morar na casa do Carlos, e eu tinha vergonha de falar sobre depressão. As pessoas tinham preconceito. Eu tinha vergonha de olhar para as pessoas por causa da doença. Ainda assim, decidi ir para o São Bernardo.

Eu assinei um contrato de seis meses como profissional e falei para o fisioterapeuta que seria artilheiro da Copa São Paulo. Muita gente deu risada por que o time nunca tinha passado da primeira fase, e o fisioterapeuta apostou uma chuteira que tinha ganhado do Rogério Ceni.

Eu joguei a Copa São Paulo bem chateado. Minha mãe estava internada e quase morreu. Foi muito difícil jogar assim. Ela saiu do hospital e, no jogo contra o Santos, ela foi me ver e ficou no alambrado. Eu fiquei muito feliz. No jogo contra o Botafogo, eu pude fazer dois gols. Na segunda fase, a gente estava perdendo de 2 a 0, eu fiz três gols e vencemos de virada por 3 a 2. A gente perdeu por besteira na semifinal para o Cruzeiro - eu fiz gol e dei assistências. Fui artilheiro, melhor jogador e revelação daquela competição.

Eu não tinha nem seis meses no São Bernardo. Com três jogos na Copinha, já renovei por cinco anos com o clube. Eu joguei com a cabeça ruim, mas a sorte é que encontrei pessoas que me deram muito apoio, por que eu queria ir embora. Só aguentei para ajudar em casa.


Europa?

O Kia Joorabchian me ligou querendo pagar a multa rescisória e me encontrar em Londres. Ele ia me levar para o Vasco, e seis meses depois eu iria para o Manchester City. Eu tive proposta do PSG e até o Real Madrid B veio atrás de mim. Eu queria ir - foi na mesma época que o Marcelo foi para lá.

Era todo mundo ligando toda hora com propostas, mas fui muito blindado. Não pensava em estourar naquela época. Só queria assinar um contrato melhor para ajudar em casa.

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Rafinha despertou interesse de Grêmio e Inter, mas depressão atrapalhou planos: 'O meu físico sempre foi péssimo'

O jogador Rafinha, ex-Corinthians, contou a sua história ao repórter Vladimir Bianchini

Me colocaram em um avião e eu achei que fosse ver o Kia, mas fui para Belo Horizonte. Eu não queria ir para o Cruzeiro, mas eu ia receber um salário de R$ 30 mil e R$ 1 milhão de luvas.

Assinei contrato com o Cruzeiro e fui apresentado pelo Zezé Perrella aos 18 anos. Eu cheguei em um treino e fiz três gols no coletivo. Eu estava voando, mas não joguei. Não sei o motivo, se foi alguma coisa política... O Nacional-POR queria me levar, mas eu não quis ir. Nisso, o Corinthians me procurou e acertei com eles em novembro de 2007.

Um mês depois, o time caiu para a Série B.

Eu saí do Cruzeiro por que estava naquela febre para jogar. Quando não jogava, eu ficava triste e chorava. O que me fazia esquecer um pouco da depressão era ficar dentro de campo. Eu era muito fanático, não era profissional. Pensando hoje, eu acho que não deveria ter saído do Cruzeiro.

Eu cheguei ao Corinthians, e quando contrataram Mano Menezes, ele deu mais atenção para quem ele pediu de contratação. Também tive lesões e perdi a temporada toda. Tinha muitos altos e baixos. Teve uma vez que fiquei uma semana em casa e não voltei para o clube por que estava muito chateado. E não tive paciência para esperar minha chance por causa da depressão.

Em um jogo contra o Fortaleza, eu entrei bem, mas depois me lesionei. Saí do Corinthians e fui levado pelo empresário Jorge Machado para o Caxias-RS, e estava indo muito bem, o Grêmio e o Internacional me queriam na época!

Eu ficava feliz dentro de campo, mas não conseguia treinar bem por causa da depressão. Não ia muito bem na parte física, eu sempre chegava aos clubes fora de forma, mas jogava pela qualidade técnica. O Caxias foi um dos melhores times em que joguei, e eu gostava muito da torcida, que se apegou muito a mim.

Faltava um jogo para a Série B do Brasileiro e saiu uma matéria que eu iria para o Internacional. Atuei no primeiro tempo, e o treinador me tirou antes do intervalo. A torcida achou que fiz corpo mole e começou a me chamar de "mercenário". Mas eles não sabiam o que se passava. Eu fiquei muito chateado e passei uma semana dentro do apartamento. Eu queria ter subido o time e saí como se fosse "mercenário", escutei muitas coisas...

Como eu não tinha cabeça boa, voltei para casa de avião.

Em 2010, Jorge Machado me ligou para ir ao Inter, mas eu não fui por que não estava com a cabeça boa. Foi aí que as portas passaram a se fechar para mim e virei um andarilho. Joguei no Guarantinguetá e fui para o Santo André na Série B de 2010. Eu fiz partidas boas, mesmo fora de forma. No Santo André, passei uma das situações que mais deixou chateado. Em uma preleção, o diretor do time falou: "Já tomou seu remedinho?".

Era uma brincadeira, mas me magoava muito. Eu tinha mais três anos de contrato, mas não voltei em 2011, porque o clube começou a atrasar salários. Estava quatro meses sem receber e voltei para casa. Passei pelo Juventus e, em 2013, joguei no Mixto-MS, era perto de casa. Em 2015 fui para o São José e depois para um clube da terceira divisão da Alemanha, mas me lesionei e vim embora.


A cura

Em 2013 meu filho nasceu, e foi aí que consegui me curar da depressão. A gente é muito apegado, e ele depende de mim. Minha cabeça mudou, mas as portas estavam fechadas. Eu falava que não era mais daquele jeito, mas a discriminação mudou. Eu ouvia que era jogador para a seleção brasileira. Nem o São Bernardo, que foi o time que eu estourei e que ganhou muito dinheiro comigo, quis me dar uma chance. Falei com o presidente à época.

Em 2017 eu fui para os Estados Unidos, para o Miami United, mas quando cheguei as coisas não eram bem como eu imaginava. Nisso, recebi um convite do Boca Raton FC, um time semiprofissional, e fiquei treinando. Mas o problema é que sofri uma fratura no pé e voltei ao Brasil. Eu não queria mais jogar futebol profissionalmente. Cheguei a montar uma clínica de futebol na minha cidade e fui trabalhando.

Meu filho é muito apegado ao futebol e joga muito bem, é um dom mesmo. Ele me diz que quer jogar e eu peço para ele ter calma e estudar. Ele me pedia para eu voltar a jogar. O chato é que na minha cidade as histórias chegaram até ele, que me perguntou: "Pai, por que as pessoas falam que o senhor era um bom jogador, mas não teve cabeça? O senhor jogava sem cabeça?".

"Não, filho, um dia eu te explico."

Ele me falou: "Então, volta a jogar?".

Deus foi tão bom comigo que o presidente Carlos André Lopes, do São Caetano, me ligou. Pedi três meses para me acertar. Eu conversei com o doutor André e o Carlos Silva, que era do São Bernardo, e eles me deram uma chance. Cheguei muito fora de forma, mas em 25 dias eu perdi 10kg.

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Rafinha celebra recomeço do futebol, agradece São Caetano e diz: 'Eu sei do que sou capaz de fazer'

O jogador Rafinha, ex-Corinthians, contou a sua história ao repórter Vladimir Bianchini

Hoje, sou um atleta profissional de futebol. Eu treinei com um personal durante a quarentena e estou preparado. Eu nunca tive problemas com drogas, bebidas ou baladas. Estou namorando há sete anos, quase casado. Tenho só 31 anos e ainda tenho mais uns quatro de carreira. Quero aproveitar, por que estou tão feliz neste novo recomeço. Eu sei do que sou capaz e a única coisa que posso fazer é retribuir dentro de campo.

Resolvi voltar com tudo, e é a primeira vez que chego em forma. É a oportunidade que eu precisava. Estou me sentindo um moleque de novo. Não vejo a hora de fazer um gol e hoje sinto prazer em treinar, dormir cedo e jogar futebol. Estou feliz. Estou maduro, mentalmente preparado bem, e o resto é só felicidade. Fico feliz de saber que muitas pessoas ainda lembram do futebol que joguei. Eu ouço que foi um pecado ter jogado minha carreira fora, mas não fui eu. É uma doença que machuca muito. A depressão estragou a minha carreira toda.

Tinha época que eu abandonava os clubes e ia embora. O pessoal achava que era indisciplina, mas só eu sabia o que estava passando. Eu fiquei muito tempo em tratamento, mas tinha época que parava de fazer.

Eu queria pedir desculpas para o Magrão, empresário de jogadores e que foi atacante do Palmeiras, e para o Carlos. Eles tentaram me ajudar muito na parte de remédios, mas acabei indo embora. Eu queria agradecê-los por que antes do jogador de futebol existe o ser humano. E tantas outras pessoas tentaram me ajudar.

Eu peço desculpas a Cruzeiro, Corinthians, Caxias e Santo André, por que não pude fazer o meu melhor. Mesmo assim, eles acreditaram em mim.

Eu nunca fiz mal a ninguém, só para mim mesmo. Infelizmente, a depressão foi mais forte. Quero fazer muitos gols no São Caetano como forma de agradecer. Daqui um ano vamos ter outra conversa e quero estar em um time grande. Depois que as pessoas me verem jogarem, eu vou ter outra chance no topo. Antes eu tinha dinheiro, mas não tinha prazer em jogar bola. Hoje eu não tenho tanto dinheiro, mas sou muito feliz.

Deus me colocou meu filho. Eu amadureci, não posso dar exemplos ruins. Ele quer ser como eu. Não vejo a hora de a quarentena passar para ele ficar comigo.

Depois que a gente vira pai quer mostrar valores para os nossos filhos. Os maiores são respeito, educação e humildade sempre. Caráter vem de berço. Sempre tive meus problemas, mas nunca atrapalhando ninguém. Quero deixar de legado para meu filho que temos que persistir, por que uma hora Deus vai nos abençoar.

Se essa volta der certo, muita gente vai acreditar em Deus.

Eu sempre acreditei.


* Depoimento ao repórter Vladimir Bianchini | Edição: Antônio Strini