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Anselmo, ex-Palmeiras e Vasco, foi gari na Europa, se perdeu no deserto do Catar e brigou em táxi na China

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Relembre gols de Anselmo, ex-Palmeiras, contra o Caxias, na Série B de 2003 (0:20)

Centroavante fez parte do elenco que conquistou o acesso à primeira divisão (0:20)

Morar fora do Brasil é o sonho de boa parte dos jogadores de futebol nos dias atuais, mas pode também ter suas armadilhas.

Não entender o idioma e a cultura do lugar onde se vive podem render vários perrengues. E o atacante Anselmo, que teve passagens por Palmeiras e Vasco na carreira, viu quase de tudo quando atuou em países como Catar, Suécia e China.

Revelado pelo clube alviverde em 2002, ele foi levado pelo técnico Paulo Campos, seu ex-comandante no Palmeiras B, para o Al-Sailiya, do Catar no ano seguinte. Logo que chegou ao país, o brasileiro sentiu as diferenças culturais em pleno Ramadã, quando os islâmicos adultos só podem comer ou beber durante à noite.

"Eu ia ao mercado comprar alimentos e saía comendo frutas no meio da rua. As pessoas estavam naquele sacrifício do jejum e ficavam me olhavam com uma cara de ódio (risos). Nós, os estrangeiros, não precisávamos jejuar. Mas não podíamos comer na frente deles. E eu não entendia a razão e ficava assustado. Só fui saber o que estava acontecendo uns quatro dias depois", recordou Anselmo, hoje com 39 anos e atual artilheiro do Campeonato Sergipano pelo Sergipe (5 gols em 8 jogos), à ESPN.

Naquele período, Anselmo morava em um hotel sem familiares ou amigos. O tédio era quase insuportável...

"Não aguentava mais ficar lá e resolvi pegar o carro para dar uma volta pela cidade e ver a praia. Eu conhecia o caminho, mas, como já estava enjoado de fazer sempre o mesmo trajeto, resolvi mudar. Só que eu me perdi no meio do deserto. A única rua que ia para lá eu não poderia voltar", rememorou.

Anselmo ficou desesperado porque não falava nada em inglês e tentava perguntar em português o caminho de volta.

"Eu passei umas oito vezes pelo mesmo posto de gasolina que abastecia todos os dias (risos). De tão nervoso, eu não identificava onde estava. Foram três horas e meia perdido. Chegou a um ponto que entrava nas lojas e até xingava as pessoas porque achava que elas estavam de má vontade comigo (risos). Só que não era isso!", afirmou.

Enquanto isso, o clube estava atrás do brasileiro, que não possuía celular e estava atrasado para uma entrevista coletiva de apresentação dos jogadores estrangeiros.

"Eu cheguei ao hotel e peguei uma roupa toda amarrotada porque não deu tempo de passar. Minha camisa estava horrível, mesmo com o blazer que eu coloquei por cima dava para ver. Me deu um baita desespero. As pessoas queriam saber por que eu estava tão atrasado. Eu não parava de suar e não conseguia explicar. A coletiva atrasou 1h20 por minha causa. Estava nervoso, tremendo e pedindo a Deus que ninguém me fizesse perguntas", admitiu.

Apesar de ter duelado contra astros como os argentinos Batistuta e Caniggia, a passagem de Anselmo pelo Catar durou pouco tempo.

"Infelizmente me machuquei e não completei o contrato. O Paulo Campos foi demitido e a situação ficou mais difícil. Eles trouxeram dois atacantes e um deles desandou a fazer gols. Não consegui retomar espaço", lamentou.

Gari na Europa e sauna com cerveja

Em 2004, o atacante voltou ao Brasil e passou por times como Ponte Preta, Gama, Atlético-GO, Boavista e Vasco antes de ir para a Europa. Ele defendeu o Halmstads, da Suécia, por três temporadas. No começo, ele sofreu com o frio do país nórdico.

"No meio da madrugada, eu acordei achando que alguém estava batendo na minha janela e me chamando. Quando eu vi, estava nevando! Eu fiquei que nem uma criança de três anos que tinha ganhado um presente, muito emocionado. Liguei chorando para minha mãe contando que estava nevando. Ela não entendeu nada (risos)", brincou.

"A gente jogava com temperatura de menos 12 graus. Os caras do meu time não entendiam porque todo intervalo eu saía correndo para o vestiário. Em alguns momentos eu não sentia meu pé e ia jogar água quente do chuveiro", relatou.

Além disso, Anselmo viveu algumas situações constrangedoras por causa das diferenças culturais.

"Uma vez, no vestiário, eu tirei a roupa toda para entrar no chuveiro, peguei a toalha e trombei com uma pessoa. Eu fui ajudar e me desculpar, mas era uma mulher. Ela era massagista do clube. Lá, era a coisa mais normal do mundo, mas eu não sabia onde enfiar a cara (risos)", gargalhou.

Pouco depois, seus colegas suecos o chamaram para fazer uma sauna. Quando estava quase relaxando, Anselmo foi surpreendido por um funcionário do clube com uma bandeja lotada de copos de cerveja.

"Eu pensei: 'Isso não pode ser sério'. Eles ficavam bebendo como se fosse a coisa mais normal do mundo! Parecia que tinham saído de uma pelada com os amigos em um churrasco. Eu achava que era pegadinha e não bebia. Os caras quase implorando para eu beber. Depois de um mês, eu vi eles fazendo isso direto depois dos jogos. Achava que eles estavam fazendo isso para testar se eu bebia muito ou aprontava fora do clube (risos). E não bebia de jeito nenhum", garantiu.

Um dia, Anselmo ainda foi convocado junto com os outros jogadores do Halmstads para uma missão inusitada.

"Eles nos chamaram para a gente ajudar a participar em uma competição da cidade mais limpa do mundo. Eu não falava inglês e não entendi direito o que era aquilo. Eu saí vestido de gari com saco de lixo na mão limpando a rua. Aquilo para mim era surreal, achei que fosse brincadeira. Pegávamos latinha e papel com um tridente", recordou, aos risos.

Em 2010, o atacante colocou fim em sua aventura na Europa.

"Eu poderia ficar mais tempo, mas fiquei com saudades do Brasil e quis voltar. Tenho carinho enorme porque aprendi demais com a cultura e voltaria novamente. Era um país pequeno, mas muito organizado", elogiou.

Confusão com taxista chinês

Anselmo defendeu o Botafogo-SP e o Atlético-GO antes de ir para Shanghai Shenxin, da China. Como morava um pouco afastado da cidade de Xangai, era comum o jogador dormir em um hotel.

"Eu tinha saído para uma balada e quis voltar para minha casa, mas o taxista não falava inglês e eu não entendia nada de mandarim. Estava com um papel na mão com meu endereço, local do treino e outros lugares. Eu entreguei um para ele achando que era da minha casa. Achei que estava tudo certo", contou.

"Nós rodamos por 1h40 e nada de chegarmos. Paramos em um ponto turístico e começamos a nos estressar. Passamos a discutir, sem um entender o outro. Eu o xingava em português e ele me xingava em mandarim (risos)", divertiu-se.

De tanto dar voltas pelo mesmo lugar, o brasileiro resolveu ligar às 5h para seu tradutor resolver o problema.

"Ele me perguntou: 'O que você estava fazendo na rua essa hora?'. Eu respondi que estava de folga e só queria voltar para casa (risos). Dei o meu telefone ao motorista para eles conversarem. O tradutor começou a rir muito e perguntou: 'O que você queria fazer na torre da TV de Xangai essa hora? Quer bater foto? Foi o que o taxista me falou' (risos). No fim deu tudo certo e consegui ir para casa", contou.

"Em todo lugar que morei tenho alguma história para contar", finalizou Anselmo, aos risos.