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Em Japeri, na última estação de trem do Rio de Janeiro, projeto de golfe para crianças carentes pode acabar

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Projeto social de golfe para crianças carentes no Rio de Janeiro pode acabar (5:43)

Veja a reportagem especial de Marcelo Gomes (5:43)

Considerado esporte de rico, o golfe está inserido, há 12 anos, em uma das cidades mais pobres e violentas do estado do Rio de Janeiro.

Na cidade de Japeri, que fica colada à serra das Araras, existe uma população de 100 mil habitantes. Lá está a última estação de trem que desemboca na Central do Brasil, no centro da capital fluminense.

Em Japeri, as dificuldades são muitas. Ali falta tudo e sobra violência. Além da ausência de boas escolas, hospitais, segurança, em Japeri não existe uma piscina pública, um campo de futebol com um projeto social, enfim. A única área destinada às crianças e adolescentes da região para a prática esportiva é, acreditem, um campo de golfe. Construído ao lado de um lixão.

O ousado projeto de inclusão social surgiu por intermédio de uma carioca, filha de britânicos, que teve um olhar generoso para uma população que jamais teria acesso ao esporte que é praticado, em sua grande maioria, por cidadãos da elite brasileira. Dona Vichy White tem 66 anos. Na infância e adolescência, foi estudar em Londres e, na volta ao Brasil, trouxe as bandeiras da educação e do esporte como ferramentas fundamentais para a transformação de uma sociedade.

“A gente tem que olhar para essas crianças e adolescentes. Dar oportunidades, inserir os adolescentes no esporte para que amanhã eles não se percam no caminho do crime e das drogas. Se a gente pode mostrar um caminho, educar com o esporte, os resultados realmente são magníficos”, afirma Vick.

E não é à toa que a empresária de São Conrado, da parte linda do Rio de Janeiro, sempre faz esse tipo de declaração. Afinal, desde 2007, ela e alguns amigos apoiadores seguem na luta para não deixar o projeto de inclusão morrer. A ação de inclusão social por intermédio do golfe é um dos primeiros projetos a recolher recursos da Lei de Incentivo ao Esporte, mas hoje corre o risco de fechar as portas.

Acontece que, segundo Dona Vicky, as regras do novo governo foram mudadas, e ela, até setembro do ano passado, já havia apresentado o projeto via Lei de Incentivo ao Esporte, que já estava fechada com as empresas que apoiam o projeto.

Dona Vicky diz que o corte no orçamento para 2019 torna inviável a continuidade do projeto.

“Nosso custo com instrutores, material esportivo, alimentação dos alunos e a manutenção do campo de golfe gira em torno de R$ 480 mil anuais, mas a Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania cortou praticamente a metade do orçamento, alegando que não existe dinheiro para a manutenção do campo de golfe. Mas se a isso não acontecer a gente terá que fechar o projeto, porque o golfista sem um campo de golfe é a mesma coisa de um nadador praticar o esporte sem piscina”, disparou a responsável pelo projeto.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria Especial do Esporte, que nos enviou, por e-mail, a seguinte resposta:

Nota Oficial

A Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania solicitou à associação golfe público de Japeri ajustes no plano de trabalho relativo ao projeto "golfe como um instrumento de inclusão social - continuação 2019".

Devido às adequações efetuadas, a proposta extrapolou o limite de 15% do orçamento com despesas meio, o que fere o artigo 11 do decreto 6.180/2007. Dessa forma, a comissão técnica da lei de incentivo ao esporte aprovou o projeto com a redução do orçamento para gastos com despesas meio. A associação foi notificada sobre a decisão do colegiado no dia 16 deste mês e teve o prazo de cinco dias, instituído pelo artigo 28 da portaria 377/2018, para apresentar pedido de reconsideração. Vale destacar que até a presente data o recurso não foi protocolado na secretaria.

Assessoria de Comunicação da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania

Dona Vicky Withe promete não entregar o jogo, pois há mais de uma década vem ajudando a salvar muitas vidas de crianças e adolescentes em situações vulneráveis no meio de uma cidadezinha escondida na rodovia Presidente Dutra. São cerca de 120 crianças que passam por ano no projeto de golfe. No total, até hoje, foram mais de 1.500 jovens praticando esporte nos verdes campos do único campo público de golfe do Brasil que oferece aulas gratuitas às crianças e adolescentes de famílias de baixa renda.

E pensar que, além da Prefeitura da Cidade, que cedeu o terreno do campo, de alguns amigos empresários, até a Associação Internacional de Golfe, a entidade máxima do esporte, vê e aposta com dinheiro, todo mês, nesse projeto inovador e revolucionário em uma área extremamente violenta e esquecida por todos nós e, principalmente, pelo poder público.