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A ascensão das mulheres no cenário competitivo de Rainbow Six Siege

O cenário de esports ainda é um tanto quanto recente e majoritariamente masculino. Só que vem chamando atenção a presença cada vez maior das mulheres.

O cenário de Rainbow Six Siege é um exemplo dessa mudança, com eventos como o Circuito Feminino de Rainbow Six Siege, promovido pela Ubisoft, que tem uma premiação total de R$300 mil, recorde para a modalidade.

Domitila Becker, apresentadora oficial de torneios oficiais de Rainbow Six Siege, comentou sobre o crescimento da presença de mulheres no cenário de esports.

“Estou há apenas um ano no cenário, mas já pude enxergar um crescimento da presença feminina. Percebemos este crescimento porque este ano será a primeira vez que a transmissão do Circuito Feminino terá a participação de apresentadores, além de nossos casters, e fico muito honrada e emocionada em fazer parte dessa evolução. Recebo várias mensagens de meninas que sonham em trabalhar com esports e vejo como as mudanças que a Ubisoft tem feito servem de incentivos para elas”, completou.

A apresentadora também pensa que “profissionalizar o Circuito Feminino de 2021, com um calendário mais robusto e essa premiação recorde de R$300 mil, é uma aposta muito acertada da Ubisoft.”

Domitila participou programas esportivos nos canais SporTV por anos e, desde 2020, é uma das apresentadoras do Brasileirão Rainbox Six Siege, principal competição nacional da modalidade. Ela também fez uma comparação em relação ao cenário de esportes tradicionais e esports.

“De certa forma, o aumento da presença feminina no cenário de esports segue uma tendência recente dos esportes tradicionais. Quando entrei na TV Globo em 2011, por exemplo, não havia nenhuma comentarista ou narradora de futebol. Diziam que elas não tinham talento, mas o fato é que não tinham oportunidades. Só em 2019 que a Ana Thaís Matos se tornou a primeira mulher a comentar um jogo de futebol na Globo”.

“Em 2020, a Ana e a Renata Mendonça fizeram a primeira transmissão do Campeonato Brasileiro com duas comentaristas, e esse ano, a Renata Silveira éa primeira mulher a narrar jogos de futebol na emissora. Esse crescimento não acontece apenas no jornalismo esportivo. Ele pode até ser lento, mas com certeza, é um caminho sem volta. Ainda bem!”, comemora Domitila.

Outro nome que vem crescendo bastante no cenário de R6 é Victória “Viic” Rodrigues, que trabalha como comentarista nos mais importantes campeonatos nacionais e mundiais da modalidade. Depois de participar de transmissões de torneios femininos, chamou a atenção da Ubisoft por seu conhecimento técnico do jogo e clareza nos comentários. Ela foi a primeira mulher no mundo a ocupar um cargo oficial de comentarista de Rainbow Six.

MULHERES EM ALTA

As meninas sempre acabam se inspirando em jogadoras e profissionais do cenário. Lara “Péssima8”, atleta da FURY, é uma dessas inspirações.

“Engraçado, pois o meu início no R6 foi um pouco atípico. Não conhecia muito o cenário feminino, apesar de conhecer o competitivo desde o início. Um dia me chamaram pra completar um time e jogar campeonatos. Gostei, acabei ficando e não parei mais. Decidi levar como profissão de verdade lá em 2019, quando formamos o time que foi base para o elenco atual da FURY. Jogamos o presencial da Greenk em São Paulo e ali eu vi que podia, sim, viver como atleta de esports”, comenta Lara.

Ela também relembra que a maior barreira que enfrentou para entrar no mundo competitivo foi o machismo. “Ainda é difícil lidar com tudo isso, seja em partidas casuais, ranquedas ou até em treinos. Infelizmente são coisas que nos afetam, querendo ou não”.

Além de Lara, outras meninas também são inspirações diárias como Beatriz “yElektra” também da FURY; Lara “lara” e Bruna “Brun4” da Black Dragons; e Maria Clara “russa” e Thainara “Thaii”, da Cinderellas Esports.

MAIS ATENÇÃO AOS TORNEIOS FEMININOS

Quanto mais dinheiro investido no cenário feminino, maior será a atenção de marcas e organizadores voltada para elas, resultando melhores salários e condições para as meninas treinariam e evoluírem. Este processo incentivará outras meninas que têm o sonho de se tornarem jogadoras profissionais.

Lara “Péssima8” acredita que a premiação destinada ao Circuito Feminino de R6 desse ano vai incentivar mais mulheres a buscarem a carreira como atletas profissionais. “Muitas meninas pararam de jogar e desistem do sonho porque não tem apoio financeiro. Isso faz falta, já que muitas precisam pagar contas em casa. Esse prêmio vai ajudar todas as jogadoras a continuarem com esse sonho de seguir carreira no Rainbow Six vivo”, diz.

Péssima8 espera que o número de mulheres neste meio seja cada vez maior, e que acredita termos um ambiente cada vez mais profissional e com mais oportunidades.

No Circuito Feminino de R6, além da premiação alta em dinheiro, a Ubisoft também irá fornecer para as jogadoras dos times os equipamentos necessários. A empresa decidiu criar esse campeonato feminino como forma de dar mais espaço para as mulheres mostrarem seus potenciais.

Victória “Viic” Rodrigues diz que, no começo de sua carreira, “ser a primeira mulher comentarista de Rainbow Six do mundo foi mais um fardo do que uma conquista. Demorei pra entender que, apesar de ser uma pressão a mais, isso representou muita coisa positiva também e que minha entrada na Ubisoft foi importante para outras meninas que gostam de R6. Para mim, servir de inspiração para outras garotas é o principal, é o que me move. Toda vez que tenho uma dificuldade, penso nelas. Um cenário polarizado e com ainda mais igualdade de gêneros é o que a gente quer”, ressalta ela.

Quando questionadas se elas teriam alguma dica para as mulheres que também querem trabalhar no cenário de esports, Domitila Becker e Victória “Viic” Rodrigues concordam que a dica mais preciosa é: não desista.

“A melhor dica que possa dar para as mulheres é para não desistir. Nós mulheres temos que trabalhar mais que homens para ter um reconhecimento igual, ainda mais em um ambiente de esports, ainda muito machista. Então, digo: vai ser difícil, há pessoas que te colocam pra baixo, há comentários machistas, porém é preciso persistir. Acho que passamos da fase em que mulheres tinham que esconder os nicks em jogo e agora é a ‘fase do Zagallo’: ‘vocês vão ter que me engolir’. Estamos no cenário, temos que dar a cara a tapa e buscar o nosso lugar. Não desista, pois tive um momento que pensei em desistir, mas continuei e consegui chegar na Ubisoft.”, revela Viic.

“Até que as mulheres tenham oportunidades de desenvolvimento justas, para que possam competir frente a frente com os homens, elas vão ter que trabalhar dobrado e aguentar muitas críticas. Infelizmente, é um processo que vai demorar, mas ele já começou e é importante ter em mente que nós não estamos sozinhas: somos a maioria entre os gamers no Brasil e tem muito homem nessa luta pela igualdade também. Não desista, o esforço vai valer a pena”, finaliza Domitila.

Julia Macalossi é apaixonada por games e esports e colunista no ESPN Esports Brasil. Siga-a no Twitter e Instagram.